JULGAMENTO NO CÉU

10/01/2008
by mgomide3

    
Parece que foi um sonho, mas não foi. Aconteceu mesmo, e vou contar tudo. Num grande desastre de avião, causado pelo impacto de um foguete bélico americano desviado de sua rota convencional no mundo islâmico, fui dado como morto e colocado na geladeira do necrotério, onde fiquei esquecido pela Administração.
Como todos sabem […] o que acontece nessas ocasiões, minha alma foi elevada às alturas. Fui guindado à morada celeste, sem escalonar pelo Purgatório ou o Inferno, pois tinha comprado no mês anterior uma dessas medalhas cunhadas pela Santa Sé, e que dão direito ao portador de seguir diretamente para o Céu quando de seu falecimento. Santa aquisição!
Na entrada, um pórtico enorme. Todo enfeitado com nuvens laterais azul-claro, pousadas em fundo azul-celeste, introduzia um majestoso átrio. A abóbada, resplandecente, em tonalidades difusas também de azul, apresentava-se em perspectivas tais que denotavam incorporar quatro dimensões. Imensa, esplendorosa, flutuava sem amparo de qualquer coluna, sustentada do alto apenas por serafins e querubins.
A imensidão do ambiente não apresentava repartições; apenas eram vistas diferentes aglomerações de pessoas, parece que distinguidas por destinações ou funções. Havia uma ordem e entendimento perfeitos, todos sussurrando apenas palavras necessárias, com sonoridade suave e acolhedora. Era um ambiente acolhedor de paz, sossego e tranqüilidade.
Observando minha nova morada, notei que estava sozinho, sem que me fosse feita a qualificação ou destinação; sem que me integrassem a um grupo, daqueles milhares que ali se postavam. Procurei distinguir alguém que se assemelhasse com um guia ou administrador para obter informações, mas parecia que ninguém notava minha presença. Comecei a estranhar aquela situação e resolvi me introduzir no meio de um aglomerado qualquer para entender o que diziam e daí tirar minhas conclusões.
Fui-me incorporando ao grupo, forçando meu caminho para o centro, onde as atenções se concentravam. Realmente havia, no espaço interno e sob um pálio dourado, um conjunto de pessoas distinguidas, paramentadas, usando capuzes púrpura com brocados brancos. Dialogavam e percebi que aquele grupo em volta era formado por médicos. Apurei minha atenção e descobri que ali estava sendo desenvolvido um julgamento. Havia um togado que acusava, outro que defendia, e um terceiro que ficava só ouvindo e anotando, ajudados por mais uns quatro ou cinco clérigos subalternos.
Pelo que deu para entender, o júri estava no começo.
— Ante o laudo que acaba de ler o Sr. Secretário, disse o acusador, as ofensas perpetradas pelos médicos aqui presentes aos desígnios divinos são muito graves. Ficou patente e sem atenuantes que, durante a vivência terrena, os maléficos atos foram conscientemente praticados com a intenção clara e insofismável de curar doenças. Aplicando remédios ou cometendo cirurgias de forma tão eficaz, retardaram a morte, por muitos anos, de milhões de humanos. Sabotaram, assim, por livre e espontânea vontade e com o único intuito de celebrar suas vaidades e de obter ganhos terrenos, as leis divinas que regem a Vida. Em suas vivências, procederam a abortos de fetos sadios; salvaram crianças nascidas com deficiências; retiraram tumores que estavam desempenhando suas funções naturais; aplicaram vacinas que obstavam o sagrado direito de vida aos seres microbianos; curaram as feridas de bandidos, previamente selecionados para sair da sociedade; impediram as missões divinas outorgadas a diversos tipos de agentes virulentos; subverteram as leis genéticas com a criação de procedimentos a que chamam de ética. Enfim, com seus desrespeitosos labores e subversivas atividades intelectuais, profanaram a sagrada intimidade do gene e apoderaram-se dos divinos atributos de criação e seleção. Suas maléficas interferências nos planos celestiais só fizeram aumentar absurdamente a população dos humanos, em cruel detrimento do direito à vida dos demais seres viventes. Face ao exposto e tendo em vista a iníqua e pervertida atividade desses esculápios na Terra, recomendo sejam eles condenados às penúrias do Inferno. Evidente que, aqui no céu, não podem permanecer tais criminosos.
Depois de certo rebuliço, sempre à base de sussurros, aquele que anotava tudo, e que parecia ser o defensor, estendeu o braço em direção do causídico acusador. Sua peroração foi mais ou menos assim:
— Também temos a elevada função de preservar as normas divinas, mas não podemos deixar de opinar sobre as verdadeiras razões que levaram os presentes réus a ações tidas, nas circunstâncias terrenas, como benéficas e humanitárias.
— Sim, humanitárias, mas antinaturais no amor de Deus, aparteou o acusador. 
— Concordo com sua observação, voltou o defensor, mas devemos levar em consideração que os atos a que nos referimos neste processo foram executados por força de um amor à mesma espécie animal, segundo as diretrizes outorgadas pelas próprias normas divinas. Os acusados não poderiam ficar insensíveis às dores e padecimentos humanos sem que renegassem a sua própria natureza de nascença. Cremos que há um fator preponderante, não abordado neste julgamento, e que deve ser considerado com mais acuidade. Refiro-me aos caracteres psicológicos dos humanos, que devem ser reformulados para que se atenuem os envolvimentos e sensibilidades inter-humanos. Doravante os homens deveriam nascer com menos carga emocional, com menos intensidade atrativa em seus amores, de forma que, com o tempo, a situação pudesse ser regularizada. Concluo que os médicos aqui presentes, em sã consciência, não são realmente culpados, mas vítimas de seu próprio caráter, emanado da fonte da vida, e neles incorporado  por nós mesmos, os encarregados de administrar as vontades divinas. Tendo em vista as razões apresentadas, peço seja aclarada a inteligência deste tribunal com a virtude da tolerância e oficiada aos Órgãos Superiores a sugestão de um vigoroso abrandamento da solidariedade humana nos próximos nascimentos, mediante um rearranjo do código genético.
Finda a apresentação da defesa, fez-se um grande silêncio naquele aglomerado, e o juiz iniciou a prolação:
— Senhores, que todos sejamos justos, porque aqui tratamos das coisas do céu, onde a harmonia universal não pode transigir além do inconveniente. Já é tradição deste tribunal, em casos da espécie, conceder a oportunidade da remição aos acusados, tendo em conta que nossa função é salvar almas, desde que recuperáveis. É o caso presente. Decido que  os réus deverão estagiar no Purgatório por seiscentos séculos, onde espiarão os males produzidos no planejamento divino. No final, se considerados remidos pelas Autoridades Intermediárias, poderão alçar ao Paraíso Celeste, para usufruir uma existência eterna. Quanto à sugestão para que sejam alteradas as forças combinatórias na vivência dos humanos, devo esclarecer que o problema apontado já consta de estudos mais amplos que estão sendo feitos pelo Conselho Superior, pois está adiantado o projeto para uma alteração do caráter humano. Isso faz parte de uma reformulação maior, onde se procura reduzir bastante a prolificação humana, numa tentativa para a salvação do planeta Terra.
Tudo aceito, com paz e compreensão, o conjunto começou a fazer uma fila, naturalmente para que fossem cumpridas as determinações do magistrado. Nesse momento, um dos que funcionaram na sessão se aproximou de mim e perguntou:
— O que você está fazendo aqui?
Assustado, sem compreender direito o porquê daquela pergunta, passou-me pela idéia a dúvida sobre o meu verdadeiro destino. Não seria o céu? Demorei um pouco a responder, mas argumentei: Por quê? Não é natural que uma alma bondosa e sem jaça venha para o céu, após a morte?
— Mas, então, onde está a sua aura? Todos os que morrem recebem automaticamente a distinção celeste. Você não morreu. Pode voltar para o seu corpo. Você está apenas hibernando lá naquela geladeira do necrotério. E volte rápido, antes que seja tarde. Já incitei a memória do funcionário de plantão, e ele lhe vai espiar. Aproveite a ocasião e volte. Não queremos você aqui antes da hora.     
Com a ajuda do santo lá de cima, consegui ser socorrido e sair da minha hibernação. Fui muito bem atendido pelos médicos do hospital, passei pelo CTI e estou recuperado. Mas tenho uma dúvida: não sei se conto aos médicos o que lhes aguarda no céu ou  se os deixo viver na candura da nobre profissão.
 

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1 Comentário

  • Antidio Teixeira disse:

    Grande Maurício:
    Somente através de sonhos como os de um grande pensador ou de “débeis” como Nietzsche (em “0 Anticristo”), a Natureza pode chamar a atenção do mundo para a incoerência do procedimento social, não só da medicina, mas também, de todo seguimento religioso, científico e político com relação a forma de ver a vida como “um Todo”. Em nome do bem e a peso de ouro, muitas vezes, prolonga-se a vida de condenados que, por sí, não teriam condições de sobrevivência. Para isso, desviam-se recursos naturais que se destinariam a oferecer a um número maior de beneficiários sadios, alimentação e educação para que pudessem se reproduzir e evoluir melhorando as qualidades essencias da espécie humana e, mais tarde, retribuírem à própria sociedade com a formação recebida. Se observarmos com perspicácia a Natureza, veremos que todo ser, direta ou indiretamente, retribui aos seres que promoveram sua existência. Caso contrário, não existiriam. Sei que muitos leitores não conseguirão compreender o significado do sonho, mas, isso será um convite à reflexão. Grande abraço.
    Antídio

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