ORTOGRAFIA BRASILEIRA

03/01/2009
by mgomide3

(Texto, com pequena revisão, produzido antes do recente acordo ortográfico, ora publicado pela oportunidade do assunto)

 Inicialmente, deixamos claro que, a rigor,  não existe língua escrita; somente a falada. O que existe é simplesmente a escrita convencionada, constituída de sinais gráficos, e que representa a expressão da linguagem falada. O pensamento pode ser expresso também de outras formas, tais como a mímica, sinais para mudos, para cegos, sinais ideográficos, sonorização e outras. 

Desde os tempos pré-históricos os humanos já tentavam registrar suas idéias, desenhando em rochas figuras do cotidiano. As primeiras escritas surgiram como sinais mnemônicos, daí evoluindo para representações mais aproximadas do pensamento, até ao ponto em que foram criados sinais representativos de fonemas.

Mais tarde, a escrita foi simplificada com a criação de signos indicativos de sons articulados – as consoantes – conseguindo-se registrar, com apenas vinte a trinta caracteres, todas as palavras de um idioma.  Hoje há vários alfabetos. Pode-se inventar um  para determinada língua, como os há para o hindi, coreano, russo, árabe, hebraico. O alfabeto gráfico, em si, não tem representatividade sonora no sentido absoluto; ele apenas sugere, guia, conduz o pensamento na ideação das palavras. Ele se faz entender por convenção social. […]   

Cada língua tem suas características fonéticas. Ao ser criado ou adotado um alfabeto, convenciona-se a representatividade sonora de cada letra. No alfabeto latino, adotado na maioria dos países ocidentais,  as letras não têm valor sonoro uniforme para todas as línguas. Daí a necessidade do aprendizado da pronúncia e entonação das palavras escritas.

Supomos que a obstinação das diversas culturas lingüísticas em  manter a grafia se deve a uma acomodação mental que se opõe a modificações. Contudo, não podemos deixar para gerações futuras a abordagem do problema quanto à língua portuguesa usada no Brasil. O alfabeto latino satisfaz às nossas necessidades, como meio aglutinante de identificação das culturas ocidentais. Nele foi gerado o nosso atual idioma, evoluído de tempos remotos, nas origens da terra lusitana. Mas há necessidade de ser propostos ajustes na escrita, com o objetivo de torná-la compatível com a fonética, conferir-lhe uma expressão compreensível e racional, além de facilitar a seu aprendizado.

Devemos registrar que nosso idioma se amolda, em geral, aos fonemas casados, completos, isto é, cada articulação carrega uma vogal. Basta observar com que insistência falamos “adevogado”, “peneu”, “adiministrar”. E não devemos contrariar essa índole da língua, pois ela teima em ser viva e manifestar sua natureza.

Para melhor apreciação do assunto, faremos  pequena análise das letras, começando pelas consoantes.

 

B – D – Exprimem sons articulados compatíveis com nossa fonética.

 

C – Esta é a letra mais acabrunhante em nossa escrita. Já foi muito útil nas gloriosas páginas da história de Roma, mas atualmente é inteiramente  desnecessária  e  inconveniente.  Tão  maléfica,  que gerou uma  bastarda, a cedilha, e  a ela se juntou, tomando ares de letra. Com isso, ocupou dois espaços,   dois  empregos,  exercendo  ambas o mesmo  ofício. Sobrecarrega e confunde o cérebro dos estudantes, açambarcando as honrosas, legítimas e honestas funções atribuíveis ao K, ao S  e ao X, além de produzir estragos em outras áreas.

Vejamos algumas palavras onde se evidenciam  as incongruências de uso dessa letra em nossa língua:

      Demência – pelo som: demênsia. (dementia – lat.)

      Clemente – idem: klemente. (clemente – lat.)

      Macaco – idem: makako. (pal. africana)

      Chinela – idem: xinela. (cianela – ital.)

      Colocar – idem: kolokar.(collocare – lat.)

 

Dirão os filólogos que assim devem ser escritas,  em obediência à etimologia, pois consideram ser necessário o culto ou identificação da gênese das palavras. Isso é irrelevante e desnecessário, além de não se coadunar com a dinâmica da expressão verbal. Seria o caso de se manter a origem primeira do léxico, grafando as palavras desde quando eram registradas em hieróglifos, no antigo Egito. É interessante registrar que normas ortográficas, fiéis à mística da etimologia, empregam o C nos sons de K, mas escrevem com K as palavras de línguas indígenas, tais como Krenak,  Kriabá. Por que dois pesos para a grafia, quando o som é o mesmo? Há evidente discriminação ética e cultural.

Oficialmente, tal anomalia decorre de uma decisão de governo, em cumprimento a acordos lingüísticos internacionais. Isso ocorreu quando da decisão de simplificação ortográfica, ocasião em que foram abandonadas algumas características etimológicas, o que reforça nossos argumentos em favor do evolucionismo gráfico-fonético.  

Entendemos que deveriam ter prosseguimento, com vigor, as tomadas de decisões naquele sentido. Ressaltamos que não há etimologia fonética, no caso da letra em foco, pois ninguém é capaz de conhecer exatamente a pronúncia das palavras grafadas com C no latim clássico. Pelas pistas deixadas com as  pronúncias italiana e inglesa, infere-se que o C soaria como um T sibilante, ou TS, som consonantal não existente no nosso linguajar. 

 

F – É outra consoante fiel e adequada ao fonema que representa. Até há pouco tempo, sua identidade era desconsiderada, pois, em nome da etimologia, escreviam-se palavras tais como Pharmácia, Physica. E havia ainda o exagero do duplo F, como em Affirmar  e Diffícil.

 

G – Vem sendo empregado com som descaracterizado, com dupla função,  além de ser desnecessariamente  aglutinado ao U. É autêntico em palavras como Goma, Agarrar e falso em Girar, General. Para socorrê-lo no som corrompido, acudiram os sábios acrescentando-lhe uma muleta em forma de U, como em Guiar, Guerra. 

 

H – Este caractere representava, em diversas línguas do ramo indo-europeu, um determinado som articulado que, evidentemente, não existe no português. Ademais, cada língua atribui  às  letras  os sons que melhor indiquem o que é vocalizado. Em diversos idiomas atuais, o H formaliza a iniciação vogal de determinada forma. No caso, é o chamado H aspirado. Na nossa língua tal letra entrou na função de tapa-buraco. Serve para indicar sons para os quais não foram criadas letras, como em Minha, Alho. E nessa atribuição ela é muito útil. A observação lembra  a necessidade de ser criadas, mediante uma convenção internacional dos usuários do alfabeto latino,  algumas novas letras para aquele códice. Alguns países adotam o alfabeto cirílico, que contém maior número de letras, face ao melhor ajuste às suas características idiomáticas.

 

J – Representa som distinto e inconfundível. Não precisaria ser substituído pelo G. Nas diversas outras línguas, esta letra tem vários sons, inclusive de vogal, mas no português é bem identificada. Seu uso deveria ser mais valorizado, como nas palavras Jemer, Jirafa, Ajenda, Ajir.

 

K – Teve grande emprego no  grego, origem de  diversas   palavras latinas, nossa geratriz. Atualmente, mesmo revitalizada pelo recente acordo, está relegada às prateleiras do esquecimento, somente lembrada para símbolos ou quando são escritos termos indígenas. É, no entanto, representativa de som puro e cristalino. Não deveria ser esbulhada pelo defectivo uso do C e do Q.

 

L – M – N – P – Têm uso adequado no nosso idioma, inclusive na sonorização dupla do L, quando se aglutina com vogais puras e quando as tonalizam, como nas palavras Lata e Amável. A propósito das letras M e N, esclareceremos o assunto ao abordarmos os atributos das vogais.

 

Q – Inteiramente desnecessária para o uso em geral. Deveria ser abolida.

 

R – Nossa língua possui dois sons diferentes indicados por esta letra. Diversos idiomas empregam letras dobradas para indicação das flexões necessárias. Seu uso atualmente é adequado, mas poderia ser racionalizado.

 

S – Esta é outra letra com existência camaleônica. Os professores ensinam: “Quando… tem o som de CÊ; quando… tem o som de ZÊ; quando…tem o som sibilante; quando…usam-se dois SS; quando… cede o lugar para o CÊ-CEDILHA”. Seu uso deveria ser muito simples: representa somente o som CÊ. Dê-se ao Z o que é de Z e ao S o que é de S.

 

T – Tem eventualmente duas variáveis, mas isso é apenas sintoma da instabilidade fonética que ocorre em todas as línguas; é a manifestação natural de que o idioma é dinâmico, vivo, ajustável. Sua pronúncia, regionalmente cambiante, dá beleza e colorido à língua.

 

V – Tem representatividade normal.

 

X – Esta é outra letra relegada à baixa categoria e muitas vezes imposturada pelo célebre C, ajudado pelo “vale tudo” H. Para adquirir legitimidade da forma, certos vocábulos deveriam ser escritos assim: Xeiro, Xave, Axar.          

 

Z – Também é um  caractere esbulhado. Didática simples: todos os sons de Z, representam-se por Z. Exemplos: Agazalho, Ezercitar. E nos plurais, como Cobertorez, Carreteiz.

 

W – Y – Abolidas, mas agora ressuscitadas, usadas em geral para grafar palavras estrangeiras, seus sons constituem redundância para nossa grafia. O W representa o ditongo UI e o Y seria o mesmo que nosso I. São letras dispensáveis para o português, como  eram consideradas antes do novo acordo.

 

VOGAIS:

 

Vogais são sons naturais primários, que  qualificam os fonemas consonantais.  Assim consideradas, temos as seguintes:

a – e – ê – i – o – ô – u –  mais todas as com til, pelas emissões nasaladas. Desnecessários, portanto, os acréscimos das letras M  e N para indicar essas variantes.

São sons bem representados e que, portanto, deveriam entrar na composição das palavras com a simplicidade desejada, como nas palavras Tãbor, Odõtólogo, Bõbõ, Sõ.

 

 

Seguindo o emprego do alfabeto latino, em consonância com a sua vocalização, teríamos um texto grafado da seguinte forma:

 

 “Oz katorze primeiroz ãnoz dezte sékulo markã a literatura brazileira de trasoz daz váriaz ezkolaz, õde não se kõsígina predominãsia de kualker delaz. E a koabitasão daz mezmaz kõ manifeztasõez de neo-rromãtizmo e outraz ezkolaz. Esa faze inkarakiterístika rresebeu doz krítikoz e iztoriadorez diversaz denominasõez.” 

 

Parece-nos que a adoção súbita de todas as indicações fonéticas poderia causar estranheza muito grande, mas se for iniciada uma reforma por etapas, dentro de certo tempo todas essas modificações seriam viáveis. Nunca mais seriam cometidos erros ortográficos.

Para quem é avesso a qualquer alteração de hábitos e costumes, apontamos o texto abaixo, usual e correto há apenas 50  anos:

 

 “As veias capillares augmentam a communicação  e supportam a columna de quasi todo o sangue, num systema directo com o coração, enquanto o systema sympathico, numa acção chymica e physica,  actua promptamente quando elles augmentam o supprimento.”

“Affirmam as escripturas que uma gotta  de sangue com bella apparencia, extrahida de effectivo  corpo fluctuante…”

 

A grafia das palavras em uso, inclusive os sinais diacríticos, é resultado de acordos internacionais entre os países de língua portuguesa. Cremos, no entanto, que a busca de unidade na escrita é um esforço inglório e maléfico, ao procurar  conter o rumo natural de todas as línguas. Afinal, o português falado em Portugal é diferente do nosso, tanto no léxico como na sintaxe. Vejamos uma ilustração: em Portugal, fala-se  “Flicitar”; e no Brasil, “Felicitá”, referindo-se ao verbo Felicitar.

Mantendo-se a perenidade da forma gráfica, daqui a alguns anos, estaremos todos com uma escrita ideográfica, isto é, teremos retornado à forma gráfica primitiva. Estaremos dizendo, num culto português do futuro: “nois vai” e escrevendo nós vamos; dizendo “cantá”, “recebê” e escrevendo cantar e receber; falando “eu tô” e grafando eu estou.

Não nos espantemos, pois o português afinal teve como geratriz o latim popular e não o clássico.

Çalve o Brascil

 

 

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