Centenas de “Deus”

25/12/2008
by Robson Fernando

(Um presentinho de Natal para os cristãos que se recusam a desvendar seu Deus de forma verdadeiramente objetiva.)
 

Ao longo da vida, somos submetidos às mais diferentes, opostas e contraditórias noções de como o deus cristão age para com os súditos humanos e as “criaturas” não-humanas, ou mesmo como ele é. A impressão, digo, conclusão que se tem quando consultamos as pessoas para saber a concepção delas sobre a divindade que crêem é que não existe um consenso sobre como ele é ou se comporta, o cristianismo não dá respostas unificadoras sobre “Ele”. Até mesmo dentro da mentalidade de uma única pessoa, Deus tem simultaneamente dois caráteres opostos nas mais diferentes situações vividas ou causadas pelo ser humano. A verdade é que não existe uma concepção universal e definitiva de Deus nas crenças coletivas da sociedade teísta, mas sim uma divindade monoteísta, muitas vezes com dupla personalidade, para cada indivíduo.

O único “consenso” que existe sobre o deus sem nome é que ele é uma divindade benigna, que promove sempre, sem exceção, o bem sobre os humanos. Mas vale perguntar aos milhões que crêem nele: como esse bem divino é praticado? Como ele age em cada situação para com aqueles que dele precisam? Aí é que, baseadas na Bíblia ou não, as respostas divergentes e confusas começam a aflorar do senso comum. […]

Eis alguns exemplos de concepções sobre diversos aspectos da divindade cristã, sua essência e comportamento, obtidos da opinião popular por experiência minha, ao longo da vida. Mesmo que não pareça, são todas opiniões vindas de cristãos ou inspiradas evidentemente nos valores cristãos:

1. Como Deus é?
– Ele é tudo, está em tudo.
– Ele é um espírito que, como sendo onipresente, envolve cada pessoa.
– É um rei de luz e esplendor que está no Céu/Paraíso, sentado junto a Jesus e ao Espírito Santo num trono sagrado, cercado de anjos e zelando por cada pessoa deste mundo. É o mesmo trono do nome daquela banda gospel “Diante do Trono”.
– Deus não vive sentado num trono nem está recluso em outra dimensão, ele se assenta em todo o universo.
– Deus é uma energia que envolve com seu amor e misericórdia a Terra e cada ser que a habita.

2. Como é a forma corpórea de Deus, se é que ele tem forma para você?
– Deus não tem forma corpórea, é um espírito superior.
– Sendo o ser humano imagem e semelhança dele, ele tem aparência humana, embora ninguém vivo nunca tenha visto essa aparência.
– Ele é um espírito sem forma.
– Ele tem uma aparência humana, já que a Bíblia o descreve com face, costas, mãos e outras partes de corpo humano.
– Se Jesus é um deus humano, Deus obviamente [sic] é humano.

3. O que é o ser humano para Deus?
– É sua imagem e semelhança.
– É um ser que, por ser imagem e semelhança de Deus, tem poder de governar o planeta que habita.
– É apenas uma das muitas criaturas que Deus concebeu com amor, que tem poderes exclusivos que outros seres vivos não têm mas não pode arrogar superioridade para si.
– É a espécie de ser vivo à qual Deus deu o poder de dominar o mundo. É a única criatura viva que possui alma.
– É um ser especial para Deus, embora não seja a única espécie com alma.

4. O que Deus acha dos animais não-humanos?
– Animais são inferiores ao homem.
– O humano é o único ser que tem alma. Isso o faz superior aos animais.
– Deus deu ao homem o poder de dominar a natureza, incluindo todos os animais.
– Deus não faz acepção entre os seres vivos, é um absurdo essa idéia de sermos superiores aos demais animais.
– Os animais merecem o mesmo amor de Deus que nós humanos.

5. Ele tem preferência por alguns entre os seres humanos ou não faz nenhuma acepção?
– Isso é um absurdo, é claro que ele não faz acepção de pessoas.
– Filho, sua inteligência é um dom que Deus lhe deu. É um privilégio de poucos!
– Deus me deu o privilégio de…
– O servo de Jesus sempre é uma pessoa especial perante Deus.
– O cristão tem mais pontos para Deus, mas “Ele” não costuma deixar ninguém na mão.

6. Deus pode abandonar alguém?
– Cuidado que um dia Deus pode dar as costas para você que deu as costas para ele, e então não adiantará mais cair de joelhos implorando por perdão.
– Por mais perversidades que você cometa, Deus sempre lhe dará uma chance de se arrepender.
– Diz aquela frase: “muitos serão chamados, mas poucos serão os escolhidos”. [o restante, deduz-se, será abandonado]
– Deus nunca abandona ninguém.
– Na Bíblia, Cristo disse: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Deus abandonou Jesus, tão carregado de pecados, naquele momento.

7. O que Deus faz quando uma pessoa está na pior?
– Espero que ele me dê uma luz, a situação está braba.
– Ah se Deus fizesse um milagre agora…
– Pedi sabedoria, e Deus me deu problemas para enfrentar e vencer.
– Deus me mandou ir à Igreja X, e foi ali que encontrei a solução para meus problemas.
– Deus ajuda a pessoa nos piores momentos guiando sua mão, dando uma luz à sua mente.

8. Como Deus trata adeptos de outros credos?
– Ao ímpio, Deus dá a chance de se converter. Caso não aceite, merecerá a morte.
– O Senhor dos cristãos é o mesmo dos judeus e dos muçulmanos. Ele não pode fazer distinção entre os seguidores das três grandes religiões.
– Deus respeita mesmo quem não crê nele. Está na Bíblia que ele não faz acepção de pessoas.
– Quem não crê já está condenado. Está na Bíblia.
– Sabe o tsunami de 2004? Aquilo foi um castigo de Deus sobre aquelas populações que ignorantemente não crêem nele.

9. O que Deus reserva para quem comete crimes?
– Justiça, simplesmente. [sem descrição]
– Criminosos já estão condenados a uma eternidade no lago de fogo.
– Ainda têm chances de redenção, mas só se se arrependerem.
– Deus é misericordioso, ele dá todas as chances necessárias para a pessoa se arrepender de seus crimes e voltar para Jesus. Só em caso de não haver arrependimento é que o cara vai cair direto no inferno ao morrer.
– Deus é justo e a justiça divina não falha. Com a justiça de Deus, em breve o marginal vai estar em algum matagal com a boca cheia de formigas.

10. Deus realmente é onipotente?
– Entenda que Deus não pode curar a miséria na África. [Sim, essa opinião existe]
– Deus é onipotente, mas não pode modificar o passado.
– Deus pode tudo, ele é onipotente, onipresente e onisciente.
– Deus pode até transcender a lógica humana. Ele pode sim levantar uma pedra tão pesada que nem ele mesmo poderia levantar.
– Deus quer mudar sua vida, mas não pode transformar você num magnata.

11. Deus exalta a pobreza ou a riqueza material?
– Para ele, importa a riqueza de espírito.
– Deus prefere o pobre, que é humilde e não pode arrogar riquezas.
– Os humilhados serão exaltados. A pobreza e a vida simples são importantes pontos para a pessoa entrar em comunhão com Deus em vez de se apegar à futilidade da riqueza material.
– Foi Deus que me permitiu ser a pessoa rica [materialmente] que sou hoje!
– Com a bênção de Deus, eu pude comprar uma casa nova, um carro, mobília nova, comecei um novo negócio…

Influenciando a discrepância de idéias sobre qual realmente é a atitude divina, há a própria Bíblia. Em primeiro lugar, clareza e objetividade não são fortes do livro dito sagrado, visto que há no mínimo dúzias de passagens e frases transmitindo idéias suscetíveis às mais diferentes interpretações, o que desde a Alta Idade Média vem causando brigas violentas entre facções cristãs. E, para piorar, é sabido que a “palavra de Deus” contém centenas de contradições entre seus versículos, desde pontos pouco relevantes, como discordâncias de contagem, até opiniões distintas e mesmo opostas sobre pilares fundamentais do cristianismo. Três exemplos: a) Deus sabe o que se passa no coração das pessoas? Sabe sim (Salmos 44:21) ou precisa testar o fiel para saber (Deuteronômio 13:03)? b) Os mortos estão conscientes? Sim (Mateus 17:02,03) ou não (Salmos 06:05)? c) O que vale, a predestinação (Provérbios 16:08) ou o livre-arbítrio (Ezequiel 18:23)?

Uma verdade fatal para a cristandade é que quem quer entender objetivamente o deus cristão nunca vai conseguir se for recorrer à população crente e mesmo à própria Bíblia. Assim como todas as centenas de milhões de seguidores de Jesus, o sujeito, se quer se converter ao cristianismo, terá que criar uma concepção própria de como “Ele” é e age, adaptando cada uma das questões referentes a sua essência e comportamento, como as onze citadas, às suas necessidades e interesses pessoais e subjetivos e aos pensamentos filosóficos que simpatiza. Em outras palavras, Deus termina sendo imagem e semelhança da pessoa que crê nele, e não o contrário. Se o indivíduo tentar, mesmo dentro do que a limitação existencial humana permite entender, conhecer o pai de Jesus sob uma ótica objetiva a partir do que a fé cristã semeou nos milhões de mentalidades humanas, descobrirá que, se ele existir, seus verdadeiros e definitivos desígnios são impossíveis de ser desvendados.

Robson Fernando – http://conscienciaefervescente.blogspot.com/
Texto original: http://conscienciaefervescente.blogspot.com/2008/12/centenas-de-deus.html

===================================================

Talvez você também se interesse por estes artigos correlatos:

Blogger PostBookmark/FavoritesDiggEmailFacebookGoogle GmailGoogle+LinkedInPrintFriendlyTwitterYahoo MaildiHITTShare

6 Comentários

  • robfbms disse:

    O filho morreu como o mais indigno dos homens e, enquanto ele morria, o Pai chorava intensamente, ainda que possamos não atribuir lágrimas físicas a Deus. Ele chorava a cada ferida, a cada hematoma e a cada bater do martelo que cravava seu filho na cruz.
    Os pais não suportam a dor dos filhos. Uma pequena ferida em seus filhos é capaz de fazer os pais entrarem em desespero. Vê-los morrer é indubitavelmente a maior dor que podem sofrer. Agora, imagine a dor do Pai pedindo a Jesus que se entregue voluntariamente, deixando que os homens o julgassem.
    Segundo as escrituras do Novo Testamento, há dois mil anos aconteceu o evento mais importante da história. O mais dócil e amável dos homens foi espancado, ferido e torturado, Seu Pai estava assistindo a todo o seu martírio. Podia fazer tudo por ele, mas, se interviesse, a humanidade estaria excluída do seu plano. Por isso, nada fez. Foi a primeira vez na história que um pai teve pleno poder e pleno desejo de salvar um filho, de estancar a sua dor e punir seus inimigos, e se absteve de faze-lo. Quem mais sofreu, o filho ou o Pai? Ambos.

    Nada como apenas mais um deus antropomórfico, que tem sentimentos humanos…

    Fora o ceticismo, o que me impediria de ter experiências com outro deus com características humanas assim?

  • ivancarlos disse:

    Se a maioria daqueles que se auto-intitulam crentes, se aprofundassem nos estudos bíblicos, além de pesquisarem outras fontes literárias e não se limitassem a citar versículos da Bíblia com pouca reflexão, isso tudo aliado a exemplos de vida mais positivos, me arrisco a afirmar que o número de crentes conscientes seria bem maior. E sendo conscientes e lúcidos, estariam melhor qualificados a falar no nome de Deus e até a percebê-Lo mais intimamente.
    A própria Bíblia prevê “por causa desses outros deixarão de crer”. Portanto, se hoje existe um grande número de ateus, é graças a própria incompetência daqueles crentes em lidar com assuntos inerentes a Deus. É claro que mesmo que isto fosse tratado de uma forma mais competente, ainda assim existiria a opção de cada um, em crer ou não.
    Declaro isso por experiência própria. Para continuar a acreditar na existência de uma Superior Inteligência (obrigado, Gomide!) ou Deus, como queiram denominá-lo, e na intensidade que acredito, precisei me afastar de toda e qualquer religião. Do contrário, se não trilhasse um caminho individual e de solitárias reflexões, seria hoje mais um a ser contado no grande número de ateus “convictos”. Daí, a minha indignação com movimentos religiosos: mais afastam do que aproximam de Deus.
    A história da humanidade está aí mesmo para contar, e embasar com fatos, o que acabo de argumentar.
    Para quem não gosta de ler tanto, basta ler o comentário acima do jovem Robson, e poderá constatar em seu conteúdo que intrinsecamente, reforça meus argumentos.

    Um forte abraço a todos.

  • babi disse:

    Que tal a teoria do acaso casual por acaso. Será esse o caso, se não for o caso contrário, o oposto do disposto supra, ou nada mais é o que é o que se nada representa, e, tardia e muito lenta a idéia que não diminui e não aumenta, avança de volta ao ocaso do acaso que por acaso aqui poderia não ser o caso.
    Um bom texto para céticos.

  • Marconi, o "marreteiro" disse:

    A despeito das “indefinições” a respeito de Deus, até porque qualquer definição é humanamente impossível, do contrário Deus não seria Deus, os cristãos O percebem e O sentem. Essa percepção e esse sentimento sobre Deus, é o que motivou os primeiros cristãos a se fazerem mártires por sua causa. E que causa era essa? Levar a “boa nova” a todas as pessoas e, com isto, continuar a instauração do “Reino de Deus” na Terra; mesmo que para tanto, lhes custassem a vida. E assim foi feito, seguindo o exemplo do Mestre.
    Que “Reino” é esse? Um reino de justiça e paz para todos, essencialmente aos pobres e oprimidos, cujo Rei é o Senhor. Basicamente, esse espírito revolucionário, é o que “desperta” os cristãos para os dias de hoje; mesmo sabendo que o Reino de Deus é “arrebatado à força” (Mt 11, 12).
    Para não causar espanto aos céticos, esclareço que um revolucionário é movido por amor; enquanto que o reacionário, assim o é por sentimentos de ódio. Importante estabelecer essa diferença.

    “Devo dizer, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é movido por um grande sentimento de amor.” (Che Guevara).

  • KLEBER RAMÍREZ disse:

    Analisando os comentários acima, concordo que quando nos dirigimos às religiões para buscar, entender Deus e saber se ele existe, etc. com certeza o prejuízo é bastante grande.
    Então eu pergunto:
    1 – Como poderia o homem crer, ver e perceber que por traz de uma criação existe um criador?
    2 – O que nos espera no futuro? Isto porque um dia todos nós morremos.
    3 – O que devemos fazer para não ficar-mos inquietos e buscar e até nos afastar das religiões para responder e tirar nossas dúvidas?
    No aguardo.
    Um grande abraço para todos.
    Kleber Ramírez

  • babi disse:

    “Che Guevara”! Esse sim é o verdadeiro mentecapto.
    Transformado ao longo dos anos numa espécie de “Jesus Cristo revolucionário” graças aos esforços incansáveis da esquerda mundial, o argentino Ernesto Guevara é objeto de autêntico culto a personalidade em todo o mundo.
    Entretanto, a leitura do livro do cubano-americano Humberto Fontova, O verdadeiro Che Guevara, e os idiotas úteis que o idolatram (Editora É Realizações, São Paulo, 287 páginas), deixa claro que, embora Guevara seja um inegável sucesso de marketing político e comercial – com sua imagem estampando desde camisetas para bebes até biquíni vestido pela supermodelo Gisele Bündchen – na vida real pode ser considerado um fracasso.
    Lançando mão de muitas fontes bibliográficas e orais, especialmente de ex-companheiros de Guevara, Fontova relata, de maneira impiedosa e irônica, como o argentino, muito longe do homem perfeito idealizado pela mitologia esquerdista, era uma pessoa ressentida, vingativa, incompetente e responsável direto pelo assassinato de centenas de pessoas absolutamente inocentes de qualquer tipo de crime.
    Vindo de uma desestruturada família burguesa argentina simpatizante do comunismo, Guevara seria considerado, sob qualquer aspecto, um vagabundo, um andarilho perdido no mundo. Seu envolvimento com exilados cubanos no México após uma passagem pela Guatemala acabou levando-o para aventuras em Cuba, no seio do movimento armado contra o ditador Fulgêncio Batista.
    A luta contra Batista é um capítulo a parte, que revela muito do modus operandi de Guevara e Fidel Castro. Diferente do senso comum, segundo o qual Batista foi derrotado por uma série de intensas batalhas movidas por guerrilheiros audaciosos, o que menos houve na derrocada de Batista foi luta armada. Castro operava, sobretudo, no terreno da propaganda, angariando dinheiro em grande quantidade, especialmente das elites cubanas, cansadas do regime de Batista, e as simpatias internacionais, em particular nos Estados Unidos, através da mídia que se encarregou de forjar a imagem de valorosos revolucionários para Fidel Castro e Che Guevara – que, aliás, nessa época era apenas mais um dentre vários colaboradores da revolução.
    O regime de Batista caiu principalmente pela corrupção de suas forças, que aceitavam dinheiro de Fidel Castro para retirar-se sem luta, cansaço das elites cubanas e dos americanos em tolerar os métodos de Batista, e, em especial, a crença em que Castro e seus homens eram realmente democratas e honestos em seus objetivos.
    Após a vitória na luta contra Batista, em pouco tempo a verdadeira face do regime revelou-se: violência, assassinatos, tortura e prisões. E Guevara teve papel fundamental nisso.
    Castro e Guevara: senhor e vassalo no reinado de terror imposto aos cubanos
    Neste ponto, Fontova faz uma clara distinção entre Castro e Guevara. Enquanto Fidel Castro era muito mais hábil, utilizando a violência como meio para atingir um fim, Guevara parecia ver na brutalidade e assassinatos um fim em si mesmo. Guevara acreditava que a “violência revolucionária” – leia-se, a morte sem piedade de todos os inimigos, reais ou imaginários – era a melhor forma de controlar o poder. Assim, desde o começo, Guevara ligou-se ao aparato repressivo do bloco soviético, transportando seus métodos para o cenário cubano.
    Talvez o mais chocante para os fás de Guevara que por ventura lerem o relato de Fontova, seja a imensa distância sobre o significado que lhe é atribuído – um ícone da liberdade e igualdade – e sua real figura. Assim, um homem que é cultuado por líderes de minorias raciais, hippies, alternativos e jovens, tinha, na verdade, uma mentalidade racista, patriarcal, despótica e arrogante, desprezando negros, jovens, “cabeludos”, música – enfim, tudo aquilo que, dizem as esquerdas e desinformados em geral, Guevara simbolizaria.
    Humberto Fontova mostra como essas e muitas outras incoerências foram e ainda são resultado do verdadeiro caso de amor que existe entre os meios intelectual e midiáticos, especialmente o norte-americano, e a ditadura de Fidel Castro, citando por exemplo o jornal New York Times, que repetiu com Castro exatamente o que já tinha feito, na década de 1930, encobrindo os crimes do regime de Stalin. [*]
    A imensa incompetência de Guevara a frente do ministério da economia destruiu a infraestrutura cubana, desorganizando até hoje um dos países mais prósperos das Américas, levando o caos e a miséria a uma população cristã e orgulhosa, favorecendo sua submissão ao projeto de poder totalitário ambicionado por Fidel Castro. A este respeito, o autor mostra com números e informações detalhadas como Cuba era econômica e socialmente antes da chegada ao poder de Castro e Guevara e como ficou depois.
    O livro revela episódios pouco conhecidos, como o envolvimento de Guevara em uma série de atentados terroristas frustrados nos EUA, logo após a chegada ao poder em Cuba, época em que os americanos ainda tinham ilusões quanto aos objetivos de Fidel Castro; o real significado da Crise dos Mísseis – que funcionou como um “sinal verde” para Castro impor seu regime totalitário a Cuba, já que teve a garantia dos EUA de que sua ditadura não seria incomodada –; a chamada “invasão da Baía dos Porcos” e a dura repressão contra a revolta popular mantida durante metade da década de 1960 pela população rural cubana contra o regime de Fidel Castro, como reação à coletivização forçada.
    As aventuras externas de Guevara, primeiro no Congo e depois na Bolívia, em missões militares permeadas de muita retórica revolucionária vazia e nenhuma competência até mesmo para assuntos práticos elementares (como, por exemplo, ler uma bússola para não se perder na selva), resultaram primeiro no descrédito de Guevara como um líder revolucionário viável, após o fracasso no Congo, e, depois, em sua morte na Bolívia, encerrando assim sua vida e carreira de revolucionário que se pretendia genial. Curioso notar que tanto no Congo quanto na Bolívia Guevara foi confrontado por forças das quais faziam parte cubanos que haviam deixado seu país após o início dos desmandos do “Che” e Castro, e que demonstraram muito mais competência militar do que Guevara, cuja tão falada habilidade tática e estratégica encontra-se guardada junto com seus demais méritos, ou seja, na propaganda.
    Livro de Humberto Fontova: Guevara exposto
    O livro de Humberto Fontova é valioso não apenas pelas suas informações, que inclusive podem ser um ótimo antidoto para os inocentes úteis simpatizantes de Guevara, mas por ser o único trabalho publicado no Brasil, em muito tempo, a ir contra o senso comum que transformou um homem medíocre em um deus no templo da ideologia comunista.
    Destaque também para o documentário que acompanha o livro, “Guevara, Anatomia de um mito”, com imagens e depoimentos sobre Ernesto Guevara desde seus tempos de desocupado na Guatemala até sua morte na Bolívia, complementando de forma muito eficiente e sóbria o trabalho de Fontova.
    [*] Nota: Um dos maiores biógrafos “chapa-branca” de Guevara citado várias vezes ao longo do livro de Fontova, o mexicano Jorge Castãneda, antigo esquerdista radical há alguns anos convertido ao socialismo light de cunho social-democrata atualmente predominante na política latino-americana e nos EUA, esteve há poucos dias envolvido num episódio no minimo curioso. Convidado para um evento na Venezuela, promovido pela oposição ao ditador Hugo Chávez, Castãneda criticou o fato de que “Chavez estava tentando criar outra Cuba” na América Latina. Para quem dedicou grande parte de sua vida a incensar o tirano Castro e vassalos do ditador como Guevara, essa é uma virada e tanto

Deixe uma resposta