A AGONIA DA TERRA

10/11/2008
by mgomide3

Para enriquecer o conhecimento sobre a vigilância que os ambientalistas exercem sobre o andamento da agonia do planeta, trazemos aos leitores desta magnífica página a oportunidade de ler o artigo de Gaëlle Dupont, publicado no jornal francês Le Monde, tradução de Jean-Yves de Neufville e divulgação de Claudiney Morais.

“O dia em que a humanidade esgotou o produto global da Terra.

“Na terça-feira, 23 de setembro de 2008, nada mudou no cotidiano dos terráqueos. Não houve nenhuma penúria nas lojas de alimentação, nenhum corte de água ou de eletricidade que fugisse do ordinário. Contudo, segundo os dirigentes da organização não-governamental canadense Global Footprint Network, um evento importante ocorreu em 23 de setembro. Aquele foi o “Global Overshoot Day”, literalmente “o dia da ultrapassagem do limite global”. Isso significa que, entre os dias 1º de janeiro e 23 de setembro, a humanidade consumiu todos os recursos que a natureza pode produzir em um ano. A partir de 24 de setembro, e até o final do ano, a humanidade passou a viver, por assim dizer, acima dos seus meios. Para continuar bebendo, se alimentando, se aquecendo, se deslocando, ela passa a explorar de maneira excessiva o meio natural, e compromete com isso a sua capacidade de regeneração. Portanto, ela está reduzindo e comprometendo seu capital.[…]

“O “dia da ultrapassagem do limite global”, uma imagem destinada a impressionar as mentes, foi inventado pelos criadores do conceito de “rastro” ecológico. Na esteira das conclusões da Cúpula da Terra, que foi realizada no Rio de Janeiro, em 1992, os universitários William Rees e Mathis Wackernagel elaboraram e testaram um método que permite medir o impacto das atividades humanas sobre os ecossistemas. Trata-se de quantificar as superfícies biologicamente produtivas necessárias para a construção de cidades e das suas infra-estruturas, para o fornecimento dos recursos agrícolas, aquáticos e florestais que nós consumimos, e ainda para a absorção dos resíduos que nós produzimos, inclusive o CO2 proveniente da combustão das energias fósseis.

“A unidade de medição que é utilizada para calcular o “rastro” ecológico deixado por um indivíduo, uma cidade ou um país, é o “hectare global”, cujas capacidades de produção e de absorção de resíduos correspondem à média mundial.

“Segundo os cálculos da Global Footprint Network, as necessidades da humanidade começaram a exceder as capacidades produtivas da Terra em 1986. Desde então, em conseqüência do aumento da população mundial, a data na qual a humanidade esgota os recursos teoricamente produzidos em um ano vem ocorrendo sempre mais cedo. Em 1996, o nosso consumo ultrapassava 15% da capacidade de produção do meio natural, e o “dia da ultrapassagem” caía em novembro. Em 2007, a ultrapassagem ocorreu em 6 de outubro.

“A ferramenta utilizada pela Global Footprint Network permite quantificar a evolução do consumo de recursos no decorrer do tempo, e sensibilizar a opinião para as conseqüências dos excessos da sua exploração. Ela autoriza igualmente fazer comparações entre regiões do mundo. Os habitantes dos Emirados Árabes Unidos apresentam o mais importante de todos os “rastros” ecológicos: cada habitante consome anualmente o equivalente de 12 hectares globais. Eles são seguidos de perto pelos americanos, com um coeficiente de 9,5 hectares por habitante. A França ocupa o 12º lugar deste ranking mundial, com um pouco menos de 6 hectares por habitante. Já, os habitantes do Bangladesh, da Somália e do Afeganistão são aqueles que apresentam o menor consumo de recursos em todo o mundo, com menos de meio-hectare por habitante.”

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4 Comentários

  • Yan Kavasi disse:

    Não tinha lido este artigo ainda, Gomide. Mas ele reflete exatamente aquilo a que me referi e que os cidadãos comuns ainda não sabem. É uma coisa simples de entender e extremamente preocupante. Coisas como essa, sim, deveriam ser maciçamente divulgadas pela mídia, porque parece que alguns governantes mundiais também ainda não se deram conta disso. E o assunto está intimamente ligado ao tema “devastação da natureza”, pois é para satisfazer ao consumismo que ela se dá.

    Ora, se já estamos em débito com o planeta, ou seja, consumindo mais do que ele tem a oferecer, sem dar tempo para que a natureza reponha os estoques, fatalmente chegará o dia do grande colapso onde, a partir daí, ou o consumo terá de ser controlado e diminuir, ou haverá um severo controle populacional ou, o que é pior, poderão haver guerras de extermínio maciço, para que os vencedores se apossem dos recursos naturais que eram consumidos pelos vencidos.

    Estou sendo pessimista? Acho que não. E vou mais adiante: Isso é o que a mídia deveria divulgar, em linguagem simples, que pudesse ser entendida pelo povo. Se o povo entende, os políticos e os donos do poder não poderão alegar que não entendem. E se ainda forem omissos… punição severa neles!

    Parabéns, Gomide. O assunto que você levantou é muito esclarecedor.

  • Gomide disse:

    Caro Yan Kavasi,
    Você entendeu bem que o TEMPO é o nosso juiz. Realmente, mas teoricamente, a mídia deveria dar ampla divulgação ao fato de que estamos caminhando rumo ao abismo. Mas nós nos esquecemos que mídia não é para isso. Mídia é para dar lucro. E o lucro está na divulgação intensiva, massacrante de tudo que diz respeito a consumismo.
    Você diz que “fatalmente chegará o dia…”. Não, Kavasi. Quando esse dia chegar, não haverá retorno. Na Natureza, as ações predatórias do homem provocam reações a LONGO PRAZO (vide a lei física de ação e reação). Os sinais concretos de hoje (2008) são consequência (reação) às ações modificadoras da década de 1980, quando aquele indicador começou a ser contado, teoricamente, em 31 de dezembro.
    Pelas suas observações até parece que você já leu o meu livro “Agora ou Nunca Mais”. Se não, a coincidência de visão… Claro! A situação deteriorante de nosso ecossistema está aí à vista. Só não enxerga quem não tem capacidade de enxergar.
    Quanto às autoridades, segundo minha dedução (eu não sou muito burro, demais da conta, não) elas estão preocupadas é em encher o bolso. Oportunamente, vou abordar em artigo minhas considerações sobre as autoridades, isto é, os guias das sociedades.

  • Administrator disse:

    Caros Gomide e Yan:

    Observem que as primeiras conseqüências disso já estão visíveis: a escassez de alimentos, o aumento dos preços, e a FOME.

    Por conta da velha lei da Economia, a da “oferta e da procura”, os alimentos estão rareando porque não dão para todos e, por isso, seus preços estão subindo. Quando a população não consegue mais pagar, advém a fome; e quando ninguém consegue mais comprar, instala-se o caos, a revolta. Onde isso vai dar?

    Por que o preço dos alimentos e dos bens de consumo obrigatórios sobem tanto? Porque se consome demais e, como diz o Yan, não há a preocupação de deixar a natureza se recuperar e repor seus estoques. Enquanto isso, a população continua aumentando, o homem destruindo a natureza, preocupando-se em produzir combustíveis e energia, em detrimento de cuidar da terra e produzir alimentos.

    Resumindo: para mim, acho que quase todos os grandes problemas que afligem a humanidade, inclusive aqueles relacionados às questoes ambientais, são, antes de tudo, problemas de natureza POLÍTICA e ECONÔMICA.

    Portanto, esses problemas têm de ser resolvidos dentro das esferas políticas e econômicas. Sem o concurso delas, não há solução, a menos que se instale um anarquismo mundial e que cada povo, em cada país, assuma o leme da direção da sua própria nação, quebrando os atuais paradigmas políticos e econômicos. O povo, legislando e governando para o povo. Talvez assim, quem sabe?

  • mgomide3 disse:

    Caro Administrador,
    O parágrafo final de seu comentário contém um equívoco de visão quando diz “a menos que…O povo legislando e governando para o povo. Talves assim, quem sabe?” O problema ambiental é GLOBAL. Logo, a solução deve ser GLOBAL. Em função ecológica, não há compartimentação, pois as partes de uma esfera são intervinuladas. As partes é que constituem o todo. Figurativamente: o nariz, a boca, a linha de perfil, a proporcionalidade, a disposição, etc. etc. é que compôem a individualidade, isto é, o TODO. Se você modificar cirurgicamente a forma de um nariz, o TODO já não é o mesmo; foi descaracterizado. Isso de que falo se refere a um exemplo pequenino e estanque. Mas… o planeta…!! Não é outra coisa; é o total da coisa.
    Em assunto de alteração estrutural nas condições vivenciais do planeta, não existe correção regional. Ou é global, ou não é eficiente. Oportunamente, discutiremos melhor essa questão.

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