A crise ambiental e a CNBB

17/03/2011
by mgomide3

 
   Foi publicada em 9.3.11, pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a súmula da Campanha da Fraternidade de 2011, na qual a atenção episcopal dá relevo à fraternidade para o momento histórico grave do momento, proveniente do desequilíbrio climático por que atravessa a Terra.

   O tema ambiental será comentado nas prédicas públicas dos sacerdotes. Recomenda que seus seguidores colaborem para a execução de ações preservativas da Natureza.

  Reconhece aquele órgão dirigente a necessidade de união de todos para tal situação, subvertendo a clássica distinção ilusória de países, e apelando para uma ação decisória de conjunto (que traduziríamos por governo mundial ambiental).

  Diz textualmente o documento “…, ora o fator econômico não está relacionado à situação de nosso planeta hoje? Somos todos moradores de uma mesma casa, gostando disso ou não estamos interligados. Não há como simplesmente virar as costas e não se importar, afinal se ocorresse uma catástrofe a nível global para onde iríamos? Aquecimento global, mudanças geológicas nada mais é do que reações às nossas ações.”

  Mais adiante, reconhece implicitamente a gravidade do momento, mas a exprime com angelical expressão de esperança ao dizer “Ainda estamos em tempo hábil para reverter esta situação.”

   Seguindo e expandido um pouco seu ânimo, confessa aquela Entidade que “Esta campanha não é uma utopia e sim um alerta de que atitudes devem ser tomadas, não por uma minoria, mas por um todo, este planeta é nossa casa, precisamos ser fraternos, gerar ações que nos levem ao bem comum.”

    Como se trata de um manifesto sem a profundidade que os ambientalistas apreciariam, ele cita a palavra utopia na sua conotação pejorativa, desconhecendo que o mundo precisa dela, no seu melhor sentido de ideação espiritual, impulsionadora de transformações sociais e inspiradora de todos os movimentos revolucionários que a História registra. O mundo está carente de utopias. São elas que irrigam a esperança de justiça das almas inquietas e inspiradoras, além de representarem o suporte de ações mais efetivas.  

   Mas, ao qualificar o objetivo como “alerta”, pelo menos dá o  verdadeiro tom  do problema, chamando a devida atenção dos seus seguidores para a gravidade histórica que se encontra neste momento em sua encruzilhada mortal. Reconhecida como tão grave e decisiva, que aquela Entidade chega a conclamar à ação essa “montanha” de acomodados, geralmente surdos à razão.  

   A propósito, pequena mostra de um futuro abusivo foi evidenciada no recente maremoto ocorrido no Japão. Essa tragédia não foi causada por motivos climáticos, e sim por causas geológicas naturais.  Mas a lição que devemos tiver dessa tragédia é a das conseqüências de um viver materialista e desrespeitoso para com a Natureza. Em poucos minutos, a fúria do forte tsunami destruiu e varreu como lixo – porque lixo é – o significativo parque de construções humanas,   tais como aviões, navios, automóveis, instalações industriais e unidades nucleares que trazem um risco sério para todo o globo. De que valeram os saques aos recursos do planeta para construção dessa materialista e insana civilização baseada no progresso? Nessas horas, a Natureza desconhece inteiramente os interesses humanos como a ética, a compaixão, a justiça, a religião.

   A manifestação do alto clero brasileiro, nessa boa oportunidade, condiz com o pensamento do papa e não deixa de trazer aos defensores da Natureza uma pontuação auspiciosa. Lamentamos que seus termos sejam bastante suaves e genéricos, não chegando a incomodar a sanha do sistema econômico. De qualquer modo, ventila as mentes ocupadas com crenças e propicia condições favoráveis a que, em alguns casos, ocorra o milagre da conscientização.

   Em julho de 2007 o papa Bento XVI disse que a “humanidade precisa ouvir a voz da Terra, se quiser salvá-la da destruição. Salvem o planeta antes que seja tarde demais”.

   Lamentável que a mídia tradicional não dê maior cobertura às palavras do papa e a esse manifesto tão importante e fora dos parâmetros conservadores da Igreja. A divulgação apenas no âmbito religioso não alcança a repercussão e efetivação que sua expressão pede.

   A Igreja é extremamente poderosa. Se quisesse mesmo ostentar a bandeira da sobrevivência – assunto acima de quaisquer outros interesses – teria condições de lavrar um manifesto mais positivo, incisivo, profundo, consentâneo com a realidade ambiental.

  Contudo, não está a oportunidade perdida. O movimento ambientalista pode dizer que, com a publicação desse documento,  avançou mais um gigantesco passo. Que esse documento produza os frutos esperados.      

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5 Comentários

  • Ivo S. G. Reis disse:

    Gomide:

    Com relação a um maior envolvimento da Igreja em causas ambientais, o próprioartigo dá a resposta, que destaco:

    A Igreja é extremamente poderosa. Se quisesse mesmo ostentar a bandeira da sobrevivência – assunto acima de quaisquer outros interesses – teria condições de lavrar um manifesto mais positivo, incisivo, profundo, consentâneo com a realidade ambiental.

    É lamentável porque, se houvesse um maior empenho, com a sua força, a Igreja conseguiria sensibilizar muito mais pessoas, se realmente quisesse.

  • Elson disse:

    Lamentável essa posição do Vaticano,via CNBB,relativa à questão do meio ambiente!!

    Não está fazendo nada mais do que cumprir as ordens do patrão capitalista !

    Essa promiscuidade entre Vaticano e os donos do mundo,leia-se governos democraticamente corrompidos e controlados pelo chefão capitalista,é uma relação harmoniosa que vai conseguindo alguns resultados.Não consegue enganar a todos, mas vai conseguindo influenciar,leia-se confundir,a mente de muitos!!

    Aqui no Brasil,os bispos da CNBB “bolaram” a campanha,a mídia capitalista vai tratar de colocá-la nas ruas,leia-se na boca do povo,e daqui a pouco vai ter muita gente se achando culpada pela tragédia ambiental e se sentindo na obrigação de salvar o planeta.Enquanto isso,…

    Os culpados pela destruição do planeta são-estrategicamente-retirados dessa discussão.O lucro é deles,o prejuízo é nosso!!

    A moeda de troca desse “bem bolado” entre igreja católica e o capital,são alguns milhões para o banco do Vaticano,além,é claro, de “boquinha de siri” sobre os escândalos homossexuais dentro da igreja comandada pelo “santo padre”,o Vicarivs Filii Dei.

    Por falar em santo,o ex-soldado de Hitler está numa pressa danada em santificar o seu antecessor,o finado João Paulo ll.Qual será a razão de tanta pressa ?

  • Enquanto a humanidade não acordar apara a existência dessa odiosa cumplicidade entre a Igreja e o Estado, essas coisas vão continuar.

  • Maurício Gomide Martins disse:

    O assunto dá substância a diversas considerações sobre as posturas da Igreja, inclusive as aventadas pelo caro Elson. Essa cumplicidade lembrada pelo digno Ivo é histórica e já foi por mim abordada em livro. Não tiro o valor dos pronunciamentos aqui divulgados, pois eles têm procedência.
    No entanto, devo lembrar que nosso artigo salientou apenas os aspectos oportunos da ventilação da crise ambiental entre os adeptos do catolicismo. A Campanha de 2011 abriu uma fenda na consciência dos que abraçam as crenças daquela religião. Isso proporciona a nós ambientalistas um certo alicerce para dialogarmos com eles. Naturalmente, os insensíveis aos apelos ambientais ficam mais receptivos às nossas palavras. Passam a ser menos exclusivistas. Mas tudo vai depender da sinceridade dos pregadores do culto e da força que vão imprimir na sua difusão, inclusive nos meios da mídia comercial. Porque recursos para isso os dirigentes têm.
    Se quiserem, podem até influir na mente dos principais dirigentes politicos deste pais.
    O artigo, para ser artigo, deve se ocupar apenas do essencial. Não podemos desenvolver idéias subjacentes.

  • Gomide:
    De fato, como você ressaltou, não deixa de ser um alento. Pelos menos estão chamando a atenção para o problema. O que questiono aqui é que acho isso muito pouco para quem poderia fazer muito mais. Essas campanhas anuais da CNBB são uma rotina que me parecem feitas apenas para promover a Igreja, dizendo que ela dá o seu apoio a temas preocupantes e de relevância internacional. Mas só fica nisso.

    Então, me parece que acoisa é feita apenas para aliar a imagem da Igreja a causas nobres. Mas o que fazem de efetivo além disso? Lutam pela causa, mudam a opinião dos governos e dos destruidores da natureza? Não acredito na sinceridade da campanha-tema. De qualquer forma, é melhor que nada.

    Em tempo: Volte aqui hoje e nos próximos dois dias e você verá um artigo-bomba (estou negociando com o autor original) sobre o que estão fazendo na Amazônia: zonas dominadas por americanos onde brasileiros não entram e os índios já falam Inglês e já não sabem mais o Português.

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