Julian Assange, o herói do momento

29/12/2010
by mgomide3

 

   O australiano Julian Assange, fundador e responsável pela página “WikiLeaks” na internete, foi preso pela Justiça inglesa em cumprimento a um processo vindo da Suécia, aberto pela denúncia de estupro – apesar de consentido – por parte de duas mulheres. Uma das pretensas “vítimas”, segundo notícias divulgadas, é cubana naturalizada sueca e agente do serviço secreto americano; a outra, sua amiga solidária.

   Naquele país nórdico, a legislação que trata da matéria é tão rigorosa, detalhista e ambígua que dá margem a qualquer mulher de alegar estupro. Isso inviabiliza qualquer relação sexual normal. Pelo menos o homem ficará vacilante e terá mais uma preocupação   na efetivação da união carnal, tornando-o mais sujeito ao fracasso e decaimento moral.  E muitos evitam essa ação – até com a própria esposa, imaginamos – por receio de ir parar na cadeia com base unicamente em uma simples acusação da mulher. Não é de se estranhar que os nascimentos de lourinhos naquele país tenham decaído acentuadamente, e surgida a necessidade de importação crescente de mão de obra africana.

  Mas nosso enfoque neste artigo não é o aspecto penal, que disso se ocupam os advogados. Estávamos falando do mais novo herói mundial, o jornalista Assange, que está distribuindo na internete mais de 200 mil documentos secretos do governo americano.

  Dos milhares de papéis até o momento divulgados, nenhum nos causou qualquer surpresa. Entendemos que os segredos revelados são ações e meios formais próprios do ambiente diplomático. Tornam-se segredos desvelados simplesmente pelo fato de estarem causando sensacionalismo aos milhões de ingênuos não pensantes que povoam este mundo envolto em hipocrisias e mentiras. Julgamos esses documentos normais, dentro da esfera a que pertencem, e não deviam causar essa celeuma toda. O que esperar do inferno?

  Tudo que vem sendo publicado, em sentido geral e na sua essência, já era de nosso conhecimento.  Não obtidos por informação, mas por dedução. Essas coisas estão ao alcance de qualquer ser pensante; basta pensar. Do mesmo modo como podemos facilmente deduzir que a atual civilização, com suas loucuras tecnológicas, representa um ritual macabro na ante véspera do caos planetário. No entanto, muitos preferem acreditar que as delícias da vida tecnológica moderna não produzem qualquer efeito ambiental.

   A comunicação de fatos e opiniões, de caráter político, econômico, militar e cultural, é parte das funções de embaixadas de qualquer país. E nesses casos, a linguagem é sempre a mais autêntica e clara possível, sem as amarras protocolares praticadas na formalidade.

   Fala-se muito em países amigos. Amizade é um sentimento de afinidade entre pessoas ou animais. É uma manifestação essencialmente criada pela convivência e confiança mútua, de ordem espiritual. Isso não existe entre nações, que são retalhos geográficos formados por convenções. Quando se apregoa que dois países são amigos, é um modo eufemístico de dizer que ambos executam ações de interesses recíprocos, surgidas por acordos que podem ser voluntários, por pressão militar ou econômica, ou outras variantes como os compensatórios como cessão de área para instalação de base militar, ou ainda diversos tipos de “ajuda” na forma de doação de material bélico ultrapassado ou mesmo de algum dinheirinho. Na falta de acordo, a guerra impõe a vontade do mais forte. Tudo isso é facilmente dedutível. Não precisamos engolir mentiras. Quem não pensa, não vive; vegeta.     

  Quando o WikiLeaks mostra americanos atirando em civis e crianças que estavam socorrendo um ferido no Iraque, não mostra nada de excepcional. Guerra é isso mesmo; atrocidades e atrocidades. Tal como a guerra que a cegueira da ganância trava contra a Natureza. Para quem não sabe, Natureza é o conjunto de ações divinas.

  Guerra é o conjunto de toda e qualquer ação destrutiva desumana imaginável e inimaginável. É destruição completa. De construções, de corpos, de vínculos espirituais, de culturas e de almas. É o reino do ódio e terror. É algo tão terrível que somente quem já participou de uma contenda armada pode aquilatar sua monstruosidade e condição ilógica. Toda guerra tem o seu setor de propaganda, destinado a justificar a guerra, esconder a verdade, mentir, enganar e envenenar as mentes dos simplórios.

  Qualificar humanamente um soldado na guerra, somente existe em filmes do país agressor, cujo cenário e coreografia penetram fundo em mentes sem uso. E temos visto que alcançam seu objetivo nesse tipo de propaganda, manipulada pelos governos, principalmente pelos apelos emocionais abjetos em construções hollywoodianas, cujos agentes do ódio são travestidos de anjos fardados.

  Não há guerra boazinha. Todas, de qualquer país, são exercidas em atmosfera de odiosidade absoluta. Todos os soldados são iguais. É abominável qualquer guerra. Por isso, quem clama por paz a qualquer preço está repleto de razão. Paz é vida; guerra é morte.

  Tal como esses documentos ora revelados, outros da mesma espécie são produzidos pelas embaixadas de todos os países, inclusive o Brasil. Sempre em segredo, é claro, pois o povo não pode conhecer a verdade. As intenções governamentais são veladas, enquanto são mostrados cenários midiáticos previamente montados. E há os ingênuos não pensantes que ingerem esse tipo de informação.  É ponto corrente que os governos se informem sobre os demais países. Nesse aspecto, há um entendimento tácito de tolerância entre as nações.

  Naturalmente que a correspondência secreta dos EEUU é mais  sedutora e tem maior repercussão, por serem eles o maestro do mundo. Se o governo do Irã não lhes faz as vontades ou nega barganhas, os departamentos especializados em deturpar e mentir entram em atividade. A condenação por apedrejamento no Irã, lei milenar, é uma das facetas exploradas no momento. Por quê? Por ser um horror aos olhos ocidentais, mas sobre a mesma pena aplicada em alguns outros países islâmicos há milênios de anos nem se fala. Por quê? Ora, são países amigos… e o Irã é o bandido da vez.

  Vivemos num mundo de mentiras e falsidades. Isso vale tanto para as revelações diplomáticas, até agora superficiais, como para a verdadeira situação ambiental, mais grave, mais séria, peremptória que, segundo parece, somente os ambientalistas enxergam.

 A única fonte de informação segura neste mundo de hipocrisias e mentiras é a reflexão. Para quem usa a massa cinzenta, é claro!

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4 Comentários

  • Aí está, Gomide, mais uma bela reflexão. Só faltou aquele sinalzinho de ironia que você inventou, senão o povão acredita que Assange seja mesmo um “autêntico herói”, desde já.

    Aliás, a bem da verdade, não sei bem como classificá-lo, ainda. Pode realmente ter sido um cara bem intencionado que descobriu o caminho das pedras e que depois foi cooptado pela CIA e pela NOM ou já ter entrado nisto sabendo, como que sequindo o script de uma peça. Isso, só o tempo e as análises mais profundas dirão.

    Já existem dezenas de petições e movimentos de apoio a Assange e ao Wikileaks (acrescentei o endereço de uma dessas petições no final do meu artigo anterior). De se notar que sou membro da Avaaz.org (instituiçao internacional que reputo como séria), mas nem assim animei-me em assinar a petição por achar que, neste caso, eles estão sendo precipitados.

    A NOM utliza a fórmula do filósofo Hegel: ” TESE X ANTÍTESE = SÍNTESE”. Se a TESE for “a internet livre é necessária e não representa perigo”; se a ANTÍTESE for “a internet livre é desnecesária porque representa perigo (Assange comprovou e colaborou aqui)”, a ANTÍTESE fatalmente será: ” a internet continuará a ser usada pela humanidade, mas terá de ser controlada e censurada” (por quem?).

    Isso é o que precisa ser investigado.

    Particularmente, acho que no futuro Assange, depois de ser um pouco badalado, vai sair de cena e cair no esquecimento, mas o seu feito ficará como o pretexto que faltava para censura-se a internet e retirar do povo esta tão valiosa arma. Se isso ocorrer, Assange passará de herói a anti-herói, mas o estrago já terá sido feito e depois já nem se falará mais no homem que o motivou.

  • Maurício Gomide Martins disse:

    Caro Ivo,
    O título deste artigo já estava assim desde o nascedouro. Na ocasião, já sopesando as considerações e dúvidas que você registraria, tive o cuidado de dizer: o herói DO MOMENTO, que é restritivo ao tempo presente. Daqui para a frente, ainda não sabemos. Vamos ver. Mas adiante saberemos pelos nossos próprios recursos mentais. Também não assinei a petição da Avaaz. Não sou maria-vai-com-as-outras. Quando eu tenho um impulso, produzido por terceiros, primeiro eu paro para refletir. Raciocinar é muito bom. Dá uma boa sensação de segurança e independência.

  • Maguilla disse:

    Interessante exposição feita pelo autor do post. Tanto neste, como no anterior a este, não tinha atinado para alguns dos detalhes levantados.

    Neste post, ainda bem que o autor usou a expressão “do momento”, porque amanhã poderá não ser, embora todos desejemos que seja.

    Valeu! A hipótese levantada ainda vai dar muita discussão por aqui e em outros sites.

    Abs!

  • Vou usar um termo que os políticos adoram: a tal da “transparência”. Creio que todos no mundo, exceto talvez eles e aqueles que os financiam e controlam, gostariam que os governos fossem “transparentes”, publicando relatórios (verdadeiros e não para inglês ver) das ações de governo. Mas isso parece ser uma utopia, embora com a internet realmente livre, eles poderiam, se quisessem.

    Independente do destino de Julian Assange, pelo menos para isso ele serviu: mostrar que é possível e fácil. O que teria de mudar, caso isso acontecesse, seriam os critérios das relações diplomáticas.

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