Lucro, seu verdadeiro significado

10/08/2010
by mgomide3

 

  Inicialmente, devemos deixar claro que essa palavra implica entendimento de duas acepções na atividade comercial. O que o padeiro, pipoqueiro, lavrador, cabeleireiro e pequenos comerciantes obtêm na sua  atividade, legitimamente não pode ser chamado de lucro. É apenas uma conversão de trabalho em dinheiro necessário à sua sobrevivência. É uma paga pelo seu trabalho individual. É o mesmo que um ordenado. Não é lucro; é uma remuneração.

  O arrazoado de que tratamos a seguir se refere ao que conduz nossa vida, embalado pelo sistema econômico, constituindo uma aferição final das atividades corporativas da grande indústria, dos cartéis e o deus a que veneram: o sagrado lucro.   

  Os acadêmicos de economia ensinam que a avaliação do grau de eficiência de administração de uma empresa é medida pelo resultado financeiro, isto é, o lucro. Só isso. Tudo o mais são considerados “meios” necessários à obtenção daquele objetivo. Isso é o que importa numa empresa comercial. De nada adianta, no âmbito administrativo, pôr-se em relevo outras considerações tais como benefício social, perfeição, utilidade, educativo, ambiental e o que mais se imaginar. Se no balanço não aparecer o lucro, todos os  fatores são tidos como supérfluos, inócuos ou prejudiciais aos interesses da empresa.  

  Na análise de um empreendimento, o que conta mesmo é o seu potencial de lucro. Se o produto tem todos ou alguns aspectos prejudiciais à saúde, ao ambiente, à virtude ou o que mais for, mas produz lucro, esse é o caminho em que a administração vai prosseguir e investir mais. Ele gera, pela sua capacidade de  capitalização, a posse de bens, riqueza e poder que, por sua vez, produz mais lucro e todas as vantagens consequentes. Em última análise, essa engrenagem injusta retira da comunidade social recursos básicos de sobrevivência. Se assim não fosse, se todos pudessem igualmente usufruir os recursos que a Natureza nos fornece gratuitamente, não haveria as qualificações de rico e pobre na sociedade humana. 

  As atividades econômicas que, na atual civilização se constituem como um esqueleto social de suporte e linguagem de relacionamento dos indivíduos, são como antolhos que impedem a visão ampla e total dos olhos e da mente, dirigindo-a para um único e estreito ângulo que aponta para um só rumo, o lucro.

  Mas o que é o lucro afinal?  Em outras palavras, podemos dizer que, em entendimento mais palpável, é um papel (cédula, promissória, título participativo, nota de crédito, direitos documentados) representativo de bens materiais. A abundância desses bens traz consigo a capacidade para uma casta especial  tomar decisões para o mundo, objetivando exclusivamente a ampliação de seus próprios poderes. Esse grupo internacional é exclusivamente materialista, não se submetendo – por anestesia mental provocada pela ambição ilimitada – a qualquer assunto de natureza espiritual. Negócios, negócios; sentimentos à parte. Dinheiro, dinheiro; vida à parte.

  Para bem raciocinar sobre o tema, temos que pedir auxílio às ciências, principalmente à Física. Diz a lei básica da ciência que nada se destrói e nada se cria; tudo se transforma. Ora, o lucro é a obtenção de um bem. Se alguém se apossou dele, outro perdeu o mesmo bem ou valor correspondente.

  Conclusão: lucro é a transferência de bens. Alguém poderá perfeitamente discorrer sobre a legitimidade do lucro, argumentando  que ninguém perde, mas não se consegue fugir do entendimento de que ele constitui uma simples transferência. Aí está situado o calcanhar de Aquiles. Se incluirmos nessa equação os bens do planeta Terra – o que é razoável e matematicamente correto – vamos concluir, depois de percorrer toda a escala produtiva, que é ela a verdadeira espoliada em seus recursos que são transformados em lucro.

   Tudo no mundo tem custo. E aquele é o custo que geralmente não é computado nos planejamentos econômicos. Em outras palavras, o planeta Terra está sendo sugado além de suas possibilidades de regeneração. Podemos dizer, em síntese, que o lucro é a resultante do saque irracional dos bens necessários à vivência da biosfera. Isso, sob qualquer grau de ajuizamento, se constitui em um crime. E, nesse caso específico, crime ambiental, crime global, crime absoluto.  

  Sabe-se que o planeta recebe do Sol as energias que se transformam em bens pelos diversos processos vitais, mas a atividade gananciosa que objetiva o lucro está num processo de desgaste desses meios superior a 30% da capacidade de recomposição.

  A Economia não pode agir impunemente se não levar em consideração os custos dos bens que lhe são postos à disposição pela Natureza. Ir além desse limite passa a ser um processo lento de suicídio. Sob esse enfoque, passaria a valer a definição clássica de Economia: é “a administração da escassez”. Se a população mundial não fosse tão volumosa, fútil e inconseqüente.  

  O primeiro economista a enxergar essa situação foi o romeno Nicholas Georgescu-Roegen, falecido em 1994, que lutou em vão para que a Economia se inserisse nas considerações maiores da Natureza. Ficou tido entre seus pares como um visionário e tratado como cultivador de ciência esotérica. É sempre assim nas ciências: os primeiros a perceber a visão fora dos cânones em moda são desconsiderados ou implacavelmente combatidos.

   O economista americano Herman Daiy foi tido como um obtuso porque pregava que o desenvolvimento deveria parar a fim de que a Natureza tivesse tempo para se recompor. Em nosso meio, o preclaro economista Marcus Eduardo de Oliveira, com seu excelente trabalho, tem batido incessantemente nessa tecla.

  Hoje, são muitos os economistas que se conscientizaram dos ensinamentos de que a Economia deve se submeter à lógica ambientalista por ser parte dela. E vem ganhando corpo tal entendimento. 

  Essa nuvem de economistas de visão vem tomando espaço dos tradicionais e acadêmicos profissionais da área, mostrando-nos que, em breve, será maioria, pois se apóiam na lógica da Natureza.

 Deixamos claro que essa pequenina e despojada palavra – lucro – com aparência angelical, benéfica, saudável, construtiva, carrega, no seu  verdadeiro significado, um imenso poder destrutivo.

   

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