Adeus, Meu Rio Negro

23/06/2010
by Ivo S. G. Reis

A autorização para a republicação do texto abaixo, foi-me dada pelo seu autor, companheiro dihittiano Lison Costa,após uma breve troca de comentários que fizemos.

Pedi sua autorização para publicá-lo aqui porque se enquadra na nossa linha editorial em defesa do meio ambiente e, como irão perceber, além da beleza poética, retrata mais uma realidade amazônica, com a indignação e tristeza que sentem aqueles que amam a natureza e aquele (ainda) paraíso ecológico que é a Amazônia. Mas lá, tudo está mudando: em nome do "progresso", constroem-se pontes, estradas, barragens, usinas, hidrelétricas, desviam-se cursos de rios, derrubam-se árvores para a exploraçao de madeira e formação de pastagens para gado ou plantações de soja, instalam-se mineradoras (a maioria estrangeiras), etc., como se o desenvolvimento (in)sustentável justificasse tudo. E olhem que  o que está acontecendo com o Rio Negro e as populações ribeirinhas, nem é o maior problema daquela região. Existem outros, muitos outros. Mas, por enquanto, vamos nos ater ao comovido texto do companheiro Lison, abaixo transcrito:

"Desde as suas nascentes, o majestoso Rio Negro desce serpenteando árvores, praias e arquipélagos, com desataque as Anavilhanas, passa faceiro em frente à metrópole das selvas, Manaus, até se encontrar com o Solimões presenteando a humanidade com o Encontro-das- Águas, o mais belo espelho encantado da humanidade. O Rio Negro é sem dúvidas, um dos maiores patrimônios dos amazonenses e amazonidas, de dezenas de povos indígenas que vivem às suas margens, com um santuário quase intocável de milhões de espécies.

Por do Sol – Rio Negro – Imagem de: Larissa Beltrão.
Todos os direitos reservados.
 
Durante milhões de anos, provavelmente, centenas de outros povos se banharam em suas águas, construíram cidades, hoje, possivelmente submersas ou perdidas na selva, ocorrências que os arqueólogos, e cientistas nos próximos decênios haverão de confirmar para o engrandecimento tardio da memória de nosso povo.
Encontro das Águas.
Imagem de: Aldamor Albuquerque.
Todos os direitos reservados.
 
Muito se tem falado sobre o exuberante rio, porém, em verdade pouquíssimo foi feito em termos de atenção e cuidados por parte de todos os governos desde o descobrimento do Brasil. Na história oculta de algum povo indígena, possivelmente o rio Negro, deve ter sido parte integrante e causa maior de suas origens que, foram sepultadas e esquecidas para sempre, ao longo das eras.
Possível fato até passável e razoavelmente aceito, em decorrência da falta de conhecimentos de nossos ancestrais, e porque não dizer passível de aceitação o destrato por outros povos que foram sucedendo-se nos séculos passados, até porque, o que se conhece é sem caráter científico, a não serem alguns registros pontuais, publicações  e pela tradição oral.
Foi no início da década de sessenta quando tive a oportunidade de conhecer Manaus, relembro como se fosse hoje, do seu maior ponto comercial, turístico e entretenimento dos fins de semana, com destaque, o rodway, ou portóbras, emoldurado pelo rio Negro, oportunidade em que eu me debruçava sobre os corrimões de passagem ao ponto T, observando a vai e vem de catraias, canoas, barcos regionais, pequenas, medias e grandes Alvarengas, que abasteciam e se reabasteciam de produtos diversos, afora os navios cargueiros e de passageiros que chegavam e zarpavam para destinos tantos.
Rio Negro – Cidade de Manaus. Foto: Aldamor Albuquerque.
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Tempo saudoso e de acontecimentos prazíveis de minha belíssima infância, sem contar com os encantos imaginários, muitas vezes me punha a divagar em sonhos de um dia conhecer uma cabocla bonita e faceira, vestida de saia plissada e camisa de seda francesa, com o coração a palpitar, – sonhos de menino-, porém, jamais esquecido. E assim fui aprendendo a admirar e amar o meu Rio Negro, seus encantos, suas curvas a beijar a grande floresta do outro lado de suas margens bem em frente a minha querida Manaus.
Bahia do rio Negro Manaus- Foto: Aldamor Albuquerque.
Todos os direitos reservados.
 
Aos doze anos de idade, fui um vendedor de picolés, e guloseimas, confesso que muitas vezes ficava matando o tempo, em troca de ficar contemplando a sua majestade, o negro rio, até esquecia-me das vendas, em meu próprio prejuízo e de minha família, que na época dependia um pouco de mim e hoje estou com o coração partido, porque o governo do estado do amazonas resolveu sangrar o meu rio construindo uma serpente de concreto em prol do desenvolvimento (in)sustentável.
Durante todo o ano me recusei a assistir a construção da obra, porém, agora, infelizmente, não deu mais para fugir de uma realidade que esbofeteia o meu rosto e me chama de covarde, filho ingrato, apático e traidor. Não tenho nenhum conhecimento técnico e científico muito menos, a bem da verdade sou um apedeuta no mais profundo termo em se tratando do “desenvolvimento” que a dita ponte trará ao povo amazonense. Também não conheço o projeto de desenvolvimento sustentável e ecoturistico que a venenosa oferecerá aos nossos filhos. Por outro lado tudo o que posso dizer é que a mesma encurtará um tempo de travessia, transformando algumas horas em minutos e só, bem ao menos é isso que me permite analisar.
Serpente de Cimento. Foto livre.
Não sou contra o progresso de se construir pontes, viadutos ou nada que inviabilize a vida de um ou milhões de pessoas, porém, no meu profundo estrabismo os dirigentes esqueceram-se de considerar que uma metrópole do sul e sudeste, representam outra realidade, razão necessária de se construir pontes cortando os mais diversos rios, mas, Manaus não, Manaus era especial, tivera a sua peculiaridade notável, uma das poucas cidades da Amazônia que o mundo todo vem admirando-a e venerando-a com outros olhos. Ao assim procederem, transformaram a cidade referência da Zona Franca Verde simplesmente num slogan publicitário para levantar a imagem de um governo que findou.
Carcaça  de cimento sobre o Rio Negro anunciando a nova ponte: Foto livre.
 
Sou conhecedor que milhares de pessoas estão aplaudindo tal serpente de concreto, e respeito a todos, porém, eu pergunto: por que os governos não construíram ou trataram primeiro dos municípios de Manaus e Iranduba? Pois, deveriam tê-los ao menos os repaginado com tratamento e construção de rede de esgotos, que hoje suas as águas servidas são despejadas no rio negro, asfixiando-o e matando-o lentamente. Suas ruas avenidas, mercados municipais, praças, escolas, hospitais e demais prédios públicos precisam de tratamento e reformas, afora seus profissionais que padecem recebendo péssimos salários.
Espetos de concreto que sangram o meu rio Negro anunciam a chegada do progresso.Foto livre.
 
Agora, fiquem cientes, vocês mataram um dos maiores patrimônios do Amazonas, Manaus, Iranduba e municípios adjacentes, tingiram de cinza o espelho da beleza da mãe natureza, cravaram espetos de concreto e aço no coração do meu rio Negro, e esbofetearam  Ajuricaba em seu túmulo, na construção de uma ponte que não leva a lugar nenhum. Com isso, todos pagarão os custos aos olhos da cara pelas próximas gerações, tudo isso em nome de um desenvolvimento (in)sustentável,  porque, da mesma maneira que vocês construíram na Avenida Brasil, um obelisco alusivo a essa serpente de cimento em cima de um esgoto fétido e insuportável da mesma forma um dia suas águas  passarão por debaixo dessa bendita ponte, porque vocês não querem construir em consonância com o querer do homem do povo e nem respeitar a natureza, vocês estão fazendo uma maquiagem e muito Oba oba. Tudo bem, quiseram assim, então, assim será, só me resta me despedir… Adeus, meu Rio Negro!
Pensemos nisso!
 
Texto sem correções, feito às 16h58min do dia 22 de junho de 2010.
Todos os direitos reservados.
Autor: Lison Costa. "
Link para o site do autor, onde está publicada a matéria original: LisonLine
 
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1 Comentário

  • LISON COSTA disse:

    Saudações!
    AMIGO IVO:
    É com muita honra que estou passando no seu magnífico Site para deixar o mais profundo agradecimento por nos prestigiar com a postagem da nossa matéria.
    Igualmente, o presente post, visa da um choque de alerta especialmente voltado a todos aqueles que hoje, tem sob suas responsabilidades a construção de alternativas e ou destinos de um povo, de um estado, município ou até uma pequena vila e núcleo comunitário.
    Vou ficar torcendo para que os novos governantes voltem suas ações ao trato do meio ambiente, pois, assim como recebemos de nossos ancestrais todo esse patrimônio em perfeito estado, temos o dever de cuidá-lo para repassar aos nossos filhos e as gerações futuras.
    Aceite um abraço especial, com votos de pleno sucesso a frente de tão importante espaço.
    Muito respeitosamente,
    LISON

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