Por que votarei em Marina Silva

04/06/2010
by mgomide3

Tenho uma vida quase toda de experiência política.  Como eleitor, não como político. Já passei por todas as fases da motivação política:  entusiasmo, engajamento, credulidade, experiência, observação, frustrações e desencantos. Ainda resta, no entanto, uma pálida folha de esperança política lá num canto quase inacessível da minha tão desiludida alma.

Em 1936,  eu e os amiginhos de então já fazíamos nossas escolhas políticas. Naturalmente,  por ouvirmos as conversas dos adultos daquela época sobre as preferências partidárias. Eu me recordo que me qualificava, ante os meus companheiros, como adepto do PC (partido constitucionalista), em contraposição aos que se declaravam, ou do PI (partido integralista), ou do PCB (partido comunista do Brasil), ou do PR (partido republicano), que estavam mais em evidência na ocasião.

É certo que nossas preferências de sigla eram influenciadas pelo “ouvir falar” dos fatos políticos da época, pois não tínhamos a menor consciência da identidade dessas escolhas. Nossas opções eram, na essência, guiadas pela simpatia desta ou daquela sonoridade vocal da sigla e necessidade inconsciente de afirmação no grupo.  Mas esse assunto, entre nós, tinha o cunho de mais uma forma de brincadeira, um passa-tempo, uma novidade, enfim.  Nem sonhávamos em conhecer a natureza de tão maldita instituição. 

Diversas coisas valiosas foram aprendidas no decorrer do tempo da prática política como cidadão. O tempo se encarregou de nos ensinar. Os fatos políticos que se tornaram históricos – dos quais fui testemunha ocular –, se acumularam, mostrando suas verdades e mentiras, enriqueceram minha capacidade de discernimento e ampliaram os horizontes do conhecimento dessa linguagem, tão enganosa e tão fácil de ser manipulada pelos profissionais.  

Muitas pessoas, pelo verdor da existência, ainda não sabem o que é política. A mídia, para manter o vazio do que é importante, não define seu verdadeiro significado. Pois saibam que política é poder; simplesmente isso. Portando, votar é outorgar poder. Outorgar é dar, em confiança. Votar é um ato muito perigoso. Requer muita reflexão; convicção. É o mesmo que entregar a alguém uma arma de grande potência. Não a use se não a conhece bem. Não vote se não tem perfeita  consciência das conseqüências do seu ato.

Partido político no Brasil, como se apresenta ao conhecimento do povo,  não existe. As siglas aí apontadas são arranjos de letras destinadas a construir falsa impressão de ambiente de competição e provocar nos eleitores a ilusória liberdade de escolha. É um modo de motivar o povo a participar da encenação. O que aí existe são aglomerados de pessoas que têm interesses de poder e são obrigadas a se inscreverem em uma sigla. Esse é o primeiro grilhão fantasiado de democracia. Ninguém será candidato se o partido não aprovar. Dito com outras palavras: O apontado pelo partido será o representante dos interesses individuais ou de classe do grupo.

Pela nossa profunda e calejada análise, a cidadã Marina Silva, não política profissional, depois de ver obstáculos imensos à sua frente, a começar pela deficiente alimentação na infância, conseqüência da miséria geral em que nasceu, teve um lampejo mental que a conduziu para a luta contra as adversidades materiais e intelectuais. Adquiriu com sua própria força de vontade a virtude da persistência na linha do aprendizado.

Por ter nascido e criada em meio às matas, sentiu e percebeu a importância do meio ambiente para a sobrevivência da biodiversidade. Esse foi seu primeiro amor, o qual a encaminhou para desbravar todos os demais obstáculos que tinha à frente. Em seguida, à custa de esforço próprio, apossou-se do instrumental do conhecimento – a leitura –, instrumento de arejamento mental. Com essa porta aberta e sua determinação idealística chegou a uma posição que lhe dá respeito e consideração do mundo, na sua parcela mais responsável: os que defendem a Natureza, sustentáculo da Vida.    

Mulher simples, desprendida de posses materiais, ela definitivamente tem o grande mérito de não ser uma política profissional. Pugna pela posição de mando da nação pelo amor aos seus admiráveis ideais de justiça, honestidade e defesa das vítimas inocentes que vêm perecendo em holocausto ao progresso materialista irresponsável.

Faz do recurso político um ato de doação de sua vivência em benefício da garantia de existência de toda a biosfera. Para tanto, consagra ao seu país seus ideais de amor e fé. Não votar nela nessas próximas eleições será compactuar com a manutenção da história de enganações, falcatruas e corrupções, sempre mantidos pelos vícios vergonhosos dos políticos carreiristas.

Marina Silva oferece ao povo brasileiro a oportunidade única de escolher entre as virtudes que constroem a alma de uma nação  e esses outros, aventureiros, oportunistas  e carreiristas que rolam por ai, profissionais da mentira e coveiros da boa-fé do povo.

Não podemos perder a última oportunidade de fazermos uma escolha justa e correta. A nossa opção hoje será a garantia de nossos filhos amanhã.

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2 Comentários

  • Ivo S. G. Reis disse:

    Muito raramente, mas muito raramente mesmo, discordo das opiniões do meu amigo Gomide, o autor deste artigo. E não discordo porque tenho observado uma constância em seus artigos e comentários: inteligência, clareza, lucidez, nobreza de princípios e imparcialidade.

    Mas desta vez, conquanto não chegue a discordar integralmente, porque talvez eu mesmo, se não quiser votar em branco terei de votar em Marina Silva, serei obrigado a levantar minhas precocupações e restrições ao seu nome como candidata.

    As razões ainda são as mesmas expostas no artigo “Por que Tenho Medo de Marina Silva?” , do companheiro Robson Fernando e publicado aqui neste blog (acessem o link e releiam-no porque vale a pena).

    Vou tentar ser mais claro: para mim, nenhuma das 3 candidaturas já oficializadas para a Presidência da República reúne as condições necessárias a um bom Governo. Sobre Serra e Dilma, abstenho-me de comentar meus motivos porque já são sobejamente conhecidos. Resta falar sobre Marina.

    Sobre ela, não se pode falar nada contra a sua honestidade, o seu caráter e nem sobre sobre a sua legítima vontade de ser uma defensora das causas ambientais, a única dentre os candidatos, realmente autêntica. Leva nota 10 nesses quesitos.

    Mas a sua religiosidade de evangélica, excessivamente exacerbada, a sua igenuidade política, o comprometimento que terá com a “bancada evangélica” (perigosa, corrupta e nada confiável) e a sua pusilanimidade me preocupam, como deveria preocupar a todos os brasileiros. Creio que suas qualidades positivas não seriam suficientes para superar as negativas e as dificuldades que encontrará entre “peitar a bancada ruralista” e tentar não agradar com subserviência à “bancada evangélica”. Acho que sucumbirá às pressões da bancada ruralista e não terá força para dizer não às exigências da bancada evangélica.Aí está o nó da questão.

    Como ministra do Meio Ambiente, Marina iniciou um excelente trabalho, teve a oportunidade de dar continuidade, mas foi fraca e sucumbiu perante o ataque das forças econômicas e dos seus representates na bancada ruralista, fugindo à luta e renunciando, deixando inexplicados, até hoje, os reais motivos da sua renúncia. Isto ela ficou devendo ao povo brasileiro.

    Uma vez eleita para a Presidência da República, não colocaria as causas religiosas acima dos interesses nacionais? Não poderia vir a ser um segundo Jânio Quadros, derrotado pelas “forças ocultas”.

    Mas política é isso. Não é o povo quem escolhe os candidatos. “Eles” escolhem e o povo apenas ratifica o que já está decidido. Por isso, por falta opções, só me restaria votar em Marina Silva ou em ninguém. Mas como não votar ou votar em branco também não resolve, votaria nela, mas torcendo para que se livrasse de suas fraquezas e que, na pior das hipoteses, pelo menos na área ambiental fizesse um bom governo.

  • Olhe só como são as coisas: reforçando a opinião que emiti no comentário anterior, reproduzo o comentário do meu colega Johnny, do grupo de discussões SBCR, o que comprova que não são só meus os justos receios que expresseI:

    “Quem viu a candidata à presidência viu também que ela ficou repetindo que nem uma criança de cinco anos que estado laico não é estado ateu, para defender sua “fé” no Brasil. Ficou também divagando sobre o criacionismo nas escolas públicas e disse que o Brasil tem um estado laico –de faxada– que permite que ela seja transparente quanto a sua espiritualidade. Ela, assim como Jesus, não gosta de falar de religiosidade e também não se considera religiosa.

    Tirem as suas conclusões? AInda não. Quando o tema é união civil entre homossexuais ela é contra. Por quê? Argumentos dela: sou contra a separação (não exatamente com essas palavras). Ela disse: sou contra “quebrar” uma promessa cerimonial. O que ela quer dizer com quebrar uma promessa cerimonial? Crentes se separam mais que ateus (e será que existe uma que diz que eles se separam mais que, digamos, não religiosos?).

    Aborto, Marina Silva ficou repetindo que nem um bebê que é **contra o aborto**. Ora, até moralistas laicos são contra o aborto. Nós somos é a favor da **descriminilização** do aborto!

    Quanto aos ateus: ela disse logo depois das 23h no Roda Viva, que está candidata a representar quem tem fé e quem não tem fé e àqueles religiosos e outras formas de religião e [grupo] arreligião. Além de ficar repetindo que nem um bebê que estado laico não é estado ateu.

    Vou ficar de olho e vou postar mais preconceitos (não vi acima) mas vou manter minha visão cética, sempre.

    Humanamente”

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