Não, não adianta ficarem revoltados comigo, acusar-me de desrespeitoso, etc. Não fui eu quem cunhou a expressão "negociar com Deus". Quem a usou foram os pastores Mike Murdock e Silas Malafaia, da Assembléia de Deus, e tudo isto foi transmitido normalmente, pela TV convencional. O fato é recentíssimo e o protagonista principal foi o pastor televisivo Silas Malafaia (quem não o conhece?), agora ex-Vice-Presidente da CGADB-Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Dizemos "ex-Vice-Presidente", porque ele anunciou publicamente a sua renúncia ao cargo, pela TV. Em matéria de aparições na TV, ele só perde para o R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus, o campeão absoluto em número e quantidade de horas de aparição na telinha.

 Mas a verdade é que ele "foi obrigado a renunciar" ou seria destituído do cargo. A sua apresentação de renúncia foi uma saida honrosa, negociada, para não deixar mal nem a Igreja nem o pastor, o que poderia chocar e afastar os fiéis, a última coisa que as igrejas querem.

 

Os fatores que deram origem à crise que culminou com a renúncia de Silas Malafaia são os que se encontram no vídeo aí ao lado: um pedido de doação de mil reais por fiel, supostamente destinado à campanha do "Clube de Um Milhão de Almas". No dia dessa transmissão – que por acaso assisti porque, apesar de agnóstico, uma vez ou outra vejo esses programas para saber o que os charlatões da fé andam tramando para iludir os fiéis – Silas convidou ao seu programa o pastor evangélico americano Mike Murdock (os picaretas têm as mesmas técnicas, em qualquer país) para induzir os fiéis a colaborarem.

Sua fala, com tradução simultânea ao vivo por outro evangélico, era assistida e ao final reforçada pelo nosso raivoso picareta brasileiro, que fazia o fechamento com chave de ouro, endossando tudo. Diga-se de passagem, Silas Malafaia é muito bom de discurso. É o Lula da religião.

 Vamos "fazer negócio" com Deus?

Na argumentação do pastor Murdock era alegado que o doador "estava plantando uma semente" e que "Deus queria fazer negócio com vocês aqui na Terra"(sic). Sim, foi essa mesma a expressão empregada, está no vídeo. Ora, "fazer negócio" ou "plantar sementes" implica em esperar resultadoso, seja ele o fruto ou o lucro. Mas, afinal, qual o negócio e resultados esperados? Simples! Você planta uma semente de mil reais, fazendo doação para a campanha. e ela dá os frutos: Deus devolve o valor investido em dobro e/ou em prosperidade. Está feito o "negócio".

As doações deveriam ser feitas, preferentemente à vista, de uma só vez, ou, para quem não pudesse, em 10 prestações, por boleto bancário. É realmente impressionante o nível de sofisticação e organização que essas igrejas alcançaram. Possuem telefones para contato direto, serviço de atendimento eletrônico, telemarketing, controle de doações e doadores e todas aquelas parafernálias a que estamos acostumados. Não ficam nada a dever a nenhum banco.

Como prova da participação do doador na campanha, oferecia-se um "certificado de participação" e um livro autografado pelo "pastor" Mike Murdock – "1001 Chaves de Sabedoria" (deveria chmar-se "1001 Maneiras de Enganar o Próximo"). Enquanto isso, o fiel dava adeus aos seus mil reais e ficava esperando a semente germinar, olhando todos os dias para o quadro pendurado em sua parede, atestando que ele "colaborou" e está na "fila de espera da recompensa divina".

Admoestado e convidado a sair da CAGDB, o pastor Silas Malafaia (muito bom de discurso), deu uma de vítima, e alegando ter sido incompreendido, já avisou que a sua igreja, agora só dele e sem dever obrigações a CGADB, vai mudar de nome e chamar-se "Assembléia de Deus Vitória em Cristo". E tenham certeza: as ovelhinhas vão acompanhar o seu pastor. Ah, vão! Querem apostar?

Enquanto a nossa Constituição Federal permitir esse tipo de coisas, a imunidade tributária, a liberdade religiosa e a inviolabilidade dos templos de qualquer culto serão um bom incentivo para que picaretas, charlatões e até bandidos (vide os da Igreja Mundial do Reino de Deus, que contrabandeavam armas para traficantes),usem a igreja como esconderijo ou fachada para as suas maracutaias. Existe disfarce melhor do que este?

Sinceramente, não sei se é para rir, indignar-se ou chorar.

 Rede Irreligiosos

Blogger PostBookmark/FavoritesDiggEmailFacebookGoogle GmailGoogle+LinkedInPrintFriendlyTwitterYahoo MaildiHITTShare

3 Comentários

  • Oscar Campos disse:

    Realmente, qualquer pessoa que use um pouco de bom senso e razão enxerga os verdadeiros objetivos por trás das falas desses falsos profetas, que tanto proliferam nos dias de hoje, com suas promessas enganosas, sejam de felicidade ou prosperidade aqui e agora, ou depois, em outro mundo. Nunca entendi ,nem aceitei, as razões apresentadas por padres, pastores, ou qualquer pretenso ¨condutor de almas”, que sempre alegam a necessidade de darmos algo em troca para que Deus nos retribua materialmente. Sucesso material é o resultado de uma conduta negocial adequada e de personalidade apropriada, a qual se constroi desde a infância, sendo também, pautada na moral e na ética, como deve ser toda atividade humana, além de muito trabalho e dedicação.Esse Deus dos charlatões da fé só serve para enriquecê-los à custa dos tolos. É de se admirar que o Estado, criado para proteger a sociedade através das leis, permita tal exploração legal dos incautos. Até quando?

  • Lonny Kuter disse:

    Very efficiently written post. It will be helpful to everyone who utilizes it, as well as myself. Keep up the good work – i will definitely read more posts.

  • Onã Teac disse:

    Compus uma canção que trata do tema deste fórum, chama-se o Vendedor de Para-raios, aquele que se alimenta do medo do povo no http://www.myspace.com/ossoedente

Deixe uma resposta