Usina de Belo Monte

03/05/2010
by mgomide3

 

   Ouvimos comentário de um economista a soldo do governo federal, a propósito das manifestações contrárias dos ambientalistas, dizendo textualmente que “o empreendimento de Belo Monte representa  de  fato um pequeno prejuízo para o meio ambiente, mas, em compensação, um grande progresso para a nação. Este lucro é muito mais importante do que aquele prejuízo”.

  Outro economista, em artigo publicado em importante revista nacional sobre o mesmo assunto, diz que “o Brasil precisa dessa energia.” Alega ainda que a usina tem capacidade para gerar 11.000 MW em 2015, força necessária para manter o crescimento do PIB brasileiro em 5% ao ano, acrescentando que o empreendimento “vai produzir enormes benefícios e melhorar a qualidade do desenvolvimento brasileiro.”

   Só enxergam resultados econômicos lucrativos, nunca as conseqüências.  Não percebem que tais ações se apóiam em recursos naturais finitos, componentes do nosso meio vital, base e sustentáculo de toda ação humana. Nosso propósito é fazer uma análise de tais afirmações e da teimosia política governamental de levar avante a desastrosa construção da usina hidroelétrica referida.

   Os técnicos em economia, na ânsia equivocada ou tendenciosa de convencer ingênuos e preguiçosos cérebros não pensantes, fizeram um cotejo irracional, confrontando grandezas diferentes e defendendo o desenvolvimento do PIB.  Como podemos comparar tamanho de um brinco de ouro com a capacidade torácica de um enfermo? A perda de um brinco não afeta a vivência; a falta de ar mata o vivente. Em certas circunstâncias, a perda de uma fatia de pão de um miserável mendigo é maior que a perda de 50 toneladas de farinha de trigo de um rico empresário. Vemos perfeitamente que tais comentaristas têm uma visão dirigida a um único objetivo: crescimento. É isso! Vamos crescer, crescer, crescer, até que alguma coisa se estoure. Porque nada no universo cresce sem parar. Nem a torre de Babel, que queria atingir o céu. A própria Natureza nos ensina: tudo tem um limite de crescimento.

   Os esforçados formadores de opinião, pelo visto, ainda não têm noção do que seja  meio ambiente. Não sabem que a perda de meio ambiente é morte.  Que sua preservação faz parte da Vida. Vida com V maiúsculo, referida pelos antigos pensadores gregos pela palavra “Zoé”, significando a vida permanente, universal, energética, ampla. Ao contrário de “Bios”, atinente à vida individual de um ser, com existência limitada, cíclica, restrita no tempo.

    Interpretando aquelas argumentações, com vistas à realidade planetária, na verdade o  “pequeno prejuízo do meio ambiente” é  grande prejuízo para o todo (Zoé). E o “grande progresso, desenvolvimento, PIB da nação”, e outras mazelas, são visões estreitas e materialistas de bens supérfluos, destinados a atender vaidades e vícios de consumo e conforto corporal (Bios). Teria apenas o objetivo de ampliação e fortalecimento transitório de ilusões egoísticas e passageiras de alguns poucos indivíduos que ressumem a vida em apenas ações de ganha-ganha. Essa teimosia política e irracional nada mais é que um ato injusto de  transformação das poucas reservas da Vida universal em satisfação irresponsável de sonhos megalomaníacos de entesouramento. Seria o mesmo que tirar o pouco do pobre para dar ao abastado rico.

  Entendemos que falta a significativa parte da humanidade consciência do que seja “meio ambiente”. Exprime, simplesmente, “condição essencial de manutenção de um processo”. No caso de que tratamos, o “meio ambiente” é “o conjunto básico para a manutenção da Vida no planeta Terra”.

   A sábia Natureza levou milhões de anos para estabelecer               o necessário equilíbrio ambiental para a manutenção da biodiversidade. Agora, um governo irresponsável e em final de mandato, que declarou “realizarei esse projeto de qualquer jeito”, insiste em comprometer as gerações futuras com seus caprichos infantis, na intenção de prolongar eternamente sua autoridade temporal, à moda dos antigos visionários faraós egípcios.

   Evidentemente, esse presidente está possuído pelos espíritos faraônicos e se afasta mais do bom senso cada vez que percebe escapar-lhe das mãos o poder terreno. É a ganância exacerbada pelo poder, objetivo de todo político profissional. Seus atos insensíveis para com a Natureza, incluídos os indígenas que ali habitam, demonstram a mesma índole destruidora que dominava a mente dos antigos portugueses quando invadiram o Brasil.

   E esse prejudicial projeto tecnológico de transformar parte do meio ambiente em lucros – em evidente contradição às palavras insinceras proferidas no Fórum de Copenhague – está clamando aos céus para que “algum sábio ou uma inteligência superior desça sobre nossas cabeças”.

Blogger PostBookmark/FavoritesDiggEmailFacebookGoogle GmailGoogle+LinkedInPrintFriendlyTwitterYahoo MaildiHITTShare

5 Comentários

  • Pois é, Gomide, infelizmente, enquanto a Economia não se desatrelar da Ecologia (ou vice-versa), as coisas tendem a tomar esse rumo, com preponderância para os fatores de ordem econômica, quando deveria ser o contrário.

    Por isso, como já comentamos e publicamos em outros artigos, está mais do que na hora de mudar-se o sistema econômico e de começar a praticar-se a “Ecoecnomia”. Senão, vai sempre ser assim. Quando os líderes mundiais vão acordar? Viu o último exemplo do que ocorreu no Golfo do México?

    Ah, mas o petróleo é importante para a Economia de um país e necessário à humanidade. Mas a que custo? E a vida marinha preservada também não é necessária, como fonte de equilíbrio e de alimentos para a humanidade?

    Não sei, Gomide, não sei. E o Brasil tem péssimos exemplos, tão ruins quanto os de Belo Monte. Recebi do Greenpeace um artigo sobre como o Governo pretende aprovar o novo Código Florestal Brasileiro. É uma verdadeira aberração.

    Como você disse, este Governo não tem nção do que seja “consciência ecológica” e só pensa em deixar obras faraônicas, que fiquem para a posteridade. O que eles não vêem é que outras coisas (ruins) ficarão junto.

    Mais uma vez, parabéns pela matéria!

  • Maurício Gomide Martins disse:

    Caro Ivo,
    Os economistas enxergam que a Economia é autônoma. Sua finalidade é usar os recursos naturais em prol do lucro individual, através da produção de bens destinados a satisfazer desejos dos consumidores, e que eles mesmos criam pela propaganda. São incapazes de perceber que as ações da Economia destroem o meio ambiente. Na essência, para haver vida sobre a Terra, há necessidade de o organismo vivo incorporar diariamente energias apropriadas – alimentos – que, direta ou indiretamente, advêm dos recursos naturais. Nós não nos alimentamos de petróleo, ouro, telefones, etc.
    Economia deve ser uma atividade subalterna da Ecologia. Claro! Pois o mundo é ecologia; ecologia é o mundo. Sem a Ecologia, não existem as outras coisas, inclusive a Economia.
    O que me dói mais nesse episódio de Belo Monte é a hipocrisia do primeiro mandatário que discursou bonito em Copenhague. E os trouxas dos figurões estrangeiros se deixam levar pela conversa; não sabem nem querem saber dos fatos. A primeira lei do político é essa: “diga o que o auditório quer ouvir”, isto é: seja hipócrita.

  • Business Man disse:

    Best article, lots of intersting things to digest. Very informative

  • E a vida marinha preservada também não é necessária, como fonte de equilíbrio e de alimentos para a humanidade?

    Fonte de equilíbrio, sim, mas fonte de alimentos humanos, não mais. Consideremos também que esse pensamento de que animais marinhos são comida humana vem ameaçando de extinção centenas ou mesmo milhares de espécies desses animais, através da pesca, desde a artesanal até a de escala industrial. Precisamos começar a divulgar o vegetarianismo como uma das formas possíveis de preservar a biodiversidade marinha.

  • Sobre o spam em inglês acima, é hora de Ivo ligar o Akismet.

Deixe uma resposta