A vergonha e o meio ambiente

05/04/2010
by mgomide3

Esta crônica, do eminente Luiz Fernando Veríssimo, mostra como fotografia o mais representativo momento histórico de nossa atual sociedade. Nela, cita oportunamente como começou a queda do grande império romano. A ligação desse registro com o meio ambiente está ali implícita na degradação, dissolução, esmagamento e extinção da nossa cédula social, a família, cujo elemento aglutinante é o amor, esse sentimento nascente da alma e que está também sendo extinto.

Os agentes destruidores do nosso meio ambiente não se satisfazem com a sua destruição em apenas 99,99%; capricham para que seja de 100%. A família, instituição básica na estruturação de qualquer sociedade, agora completamente esgarçadas, é o meio ambiente das crianças que estão vindo ao mundo para dar prosseguimento às energias vivenciais, agora completamente distorcidas e sem guias morais, éticos, espirituais, sublimações. Daí esses desatinos todos: filho matando pais para herdar bens materiais; aumento astronômico na fabricação (logo, consumo) de bebidas alcoólicas, resultando em mortes de inocentes; irmãos dando golpes financeiros em irmãos; desrespeito generalizado em todos os comportamentos sociais; violência geral; abandono de filhos; enfim, degenerescência em todos os graus e patamares.

A VERGONHA

(Crônica de Luiz Fernando Verissimo sobre o BBB Fonte: Fábio Oliveira – fabioxoliveira2007@gmail.com Fabioxoliveira.blog.uol.com.br/ )

Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço. A décima (está indo longe) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência. Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB 10 é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros… todos na mesma casa, a casa dos "heróis", como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV seja entre homossexuais ou heterosexuais.

O BBB 10 é a realidade em busca do IBOPE. Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB 10. Ele prometeu um "zoológico humano divertido". Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas. Se entendi corretamente as apresentações, são 15 os "animais" do "zoológico": o judeu tarado, o gay afeminado, a dentista gostosa, o negro com suingue, a nerd tímida, a gostosa com bundão, a "não sou piranha mas não sou santa", o modelo Mr. Maringá, a lésbica convicta, a DJ intelectual, o carioca marrento, o maquiador drag-queen e a PM que gosta de apanhar (essa é para acabar!).

Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.

Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis? Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados. Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo santo dia. Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna. Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns). Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação,como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.

O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o "escolhido" receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó! Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão. Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros? (Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores).

Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores. Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa…, ir ao cinema…, estudar…, ouvir boa música…, cuidar das flores e jardins…, telefonar para um amigo…, visitar os avós…, pescar…, brincar com as crianças…, namorar… ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída nossa sociedade.

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5 Comentários

  • Ma-gis-tral, Gomide. Simplesmente magistral. Eu até não era lá muito admirador do Luiz Fernando Verissimo (achava-o óbvio demais), mas depois desta crônica vou me redimir. Ele acertou em cheio.

    Veríssimo simplesmente conseguiu resumir, com muita propriedade, aquele sentimento de indignação que muitos de nós sentimos em relação aos “Bigs Bostas Brasil”. É exatamente tudo o que ele disse e um pouco mais. Mas a culpa maior disso é: 1º: O excessivo poder de convencimento (às vezes enganoso) da mídia; 2º: a alienação e desinformação do povo brasileiro.

    Numa rede política que administro, e citando exatamente o exemplo do “Big Bosta Brasil”, uma filiada revelou a sua indignação com relação a alienação politica do brasileiro. Citou o exemplo de uma campanha contra a corrupção politica que, com muita dificuldade, conseguiu apenas chegar próximo a um milhão de assinaturas, em vários meses, ao passo que, numa única votação de paredão do BBB, o nº de votantes passou dos 75 milhões, em um dia(???!!!).

    Parabéns!

  • Walter Hauer disse:

    Esta alienação é proposital, por isso nem eu, nem minha familia assistiu esta manipulação. É graças a isto que tenho vergonha de ser brasileiro.

  • KLEBER RAMÍREZ disse:

    Olá pessoal. Voltei.
    Este tempo que estive ausente deste blog (na verdade, acessava-o todos os dias para ver os comentários dos senhores, apenas não entraria no mérito da questão), percebí o quanto vocês tratam os assuntos com excelência.
    Quanto a este post, parabéns.
    Questionava diariamente, se ninguém teria sensibilidade para perceber tal depravação da televisão brasileira.
    Este BBB está passando dos limites, sem falar que as novelas…. bom, o nome já diz tudo.
    Não é preciso ser religioso para entender e observar os valores morais da família. Que absurdo. Será que estão querendo ressussitar SODOMA E GOMORRA? Elas existiram e tiveram um fim trágico.
    Cada um tem o direito de viver sua vida da forma que acha que é certo. Agora, expor estas abominações ao público e achar que é normal…
    Aqui em casa, não assistimos mais Novelas (seja de que emissora for) e muito menos este tal de BBB.
    Se você ama sua família e tem conceitos morais e éticos, conversem com eles para não mais assistirem estas aberrações.
    Parabéns Gomide pelo post e ao Sr. Ivo, obrigado por permitir a publicação do mesmo.
    Um grande abraço.

  • Graaaande Kleber:

    É sempre um prazer vê-lo por aqui e sentimos sua falta quando desaperece por uns tempos, embora sabendo que isso é normal com todos.

    Quanto a esta matéria, muito bem colocada pelo Gomide, desta vez sou obrigado a concordar com você. O BBB é uma aberração. um insulto à nossa dignidade e à nossa inteligência, sem falar dos péssimos exemplos que dá. E o pior é que o povão vê e prestigia essa baboseira. Na minha opinião, coisas como essas deveriam ser proibidas na mídia brasileira e até banidas, definitivamente. Como disse o autor do texto, não acrescentam nada, não informam, não educam e, ao contrário, deseducam.

    Mas se proibissem, viriam os falsos puristas dizer que se trata de censura e que isto é inadmissível em uma democracia.

    Tá bom, tá bom, acho que nenhum de nós aprova a censura. Mas em casos como esses!!!… Será que não deveria haver uma exceção?

  • Simone disse:

    Esse texto não é de Luis Fernando Veríssimo. Apesar de concordar que o programa é de péssima qualidade, estou postando para esclarecer que o texto não é dele.
    Ele negou a autoria da crônica no jornal O Globo do dia 04/04/2010 e Zero Hora de 05/04/2010 em uma crônica intitulada “Outro você”.

    http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2010/04/04/outro-voce-280562.asp
    http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2862217.xml&template=3916.dwt&edition=14430&section=70

    Quem ler a crônica que ele postou nos jornais, perceberá que ele também não gosta do programa mas também não fica satisfeito em ter seu nome colocado em um texto que não é dele. Na crônica “Outro você”, ele descreve de maneira genial, debochada e inimitável o que sente pelo programa.

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