O absurdo da imortalidade

07/03/2010
by mgomide3

 

   Inicialmente, é de toda a conveniência deixar claro que nossos dizeres a seguir constituem uma visão do outro lado do palco. É, por isso, destoante do que geralmente é lido, visto e sentido pelos que se situam como expectadores. Seria como que uma abordagem filosófica, uma pesquisa mental mais ampla e profunda; e dentro dessa perspectiva deve ser apreciada.

   O homem é o único ser vivo terrestre que se rebelou contra sua criadora, a mãe Natureza. Tentaremos explicar resumidamente como isso ocorreu.

   A Natureza, que tem a energia vital no âmago do átomo, construiu um sistema existencial que se ajusta adequadamente ao hábitat que lhe é oferecido. Essa adequação provém de modificações na formação da molécula complexa chamada ADN. Tais alterações, que se renovam a cada geração, implicam forjar arranjos combinatórios dos quatro elementos básicos que o formam, produzindo erros ocasionais. Esses erros aleatórios constituem o motor evolutivo do ser vivo.

   Há dois milhões de anos começaram a surgir alguns antropóides com algumas características ligeiramente diferentes de seus ancestrais. Com o tempo, essa sub-espécie foi evoluindo e sua anatomia produziu uma modificação na laringe com a formação de quatro pregas de membranas vibratórias, proporcionando-lhes a modulação sonora.

   O exercício desse linguajar primitivo estimulou o desenvolvimento cerebral. Como conseqüência, esses dois atributos exerceram mútuos estímulos para o desenvolvimento, tornando-se o hominídeo senhor da fala e pensamento. Até então, como todos os seres vivos, esse animal humanóide seguia cegamente as decisões instintivas. Munido, no entanto, com esses privilegiados poderes – fala e pensamento –, passou a tomar decisões por conta própria, rebelando-se contra a orientação vinda do instinto. Foi um ato de afirmação de independência e liberdade e o começo de ações antropocêntricas.

   Desgraçadamente, conservou ele alguns instintos sobre os quais não teve instrumental capaz de sobrepujar. Um deles é o instinto de preservação da espécie, o que resultou em detonação – juntamente com outros fatores – de grande poder de ações protetoras da prole.

   Inconscientemente, o homem luta contra a Natureza em seu próprio benefício, esquecendo o princípio necessário e básico do instinto de preservação do seu meio de sobrevivência. De uma primitiva religiosidade para com o deus ecológico, migrou sua mística para crenças antropocêntricas. Nessa jornada antagônica, fez tudo para vencer sua mãe Natureza, esquecendo que ele próprio é parte e dependente dela.  

   Com isso, adorando um deus feito à sua imagem e semelhança, perdeu o sentido da vida que o instinto lhe oferecia e foi cavando cada vez mais o seu próprio túmulo como espécie. Pior: em ações absolutamente irracionais, calcadas em visões abstratas e degeneradas, vai levando à extinção seus irmãos da flora e fauna.

   Somente para abordar um único aspecto dessa humanidade rebelde e ególatra, enfocamos o absurdo de sua luta: a preservação da vida pessoal, levando ao paroxismo o instinto de preservação da vida por ações autônomas vindas de sua limitada sabedoria. Não satisfeita com o domínio já conquistado, tenta impedir o roteiro natural da morte.

  O homem é o único animal que não tem predador em seu reino biológico. Já obstruiu e eliminou as ações danosas de diversos agentes do micro mundo. A criança, no dia mesmo em que nasce, já é imunizada contra o ataque de bactérias e vírus. O calendário de vacinações é extenso. Começa com a BCG e hepatite B, segue com a DTP e Nib, poliomielite, rotavírus, febre amarela, tríplice viral, influenza, pneumocócica. Isso até os cinco anos. Daí em diante, há outras segundo a idade, como as antitetânicas e hidrofóbicas, até preservar os idosos contra os ataques de vírus sazonais. E sempre estão surgindo novas vacinas. Tudo pode, não pode é o indivíduo fenecer.  

   No nascimento do ser humano, o projeto natural já traz em seu código genético a sentença de fechamento do ciclo existencial. E a tecnologia médica luta contra isso, num esforço rebelde de contrariar o desejo prescrito pela Vontade transcendental.    

   Nos países mais desenvolvidos, nos anos 1900, a expectativa de vida em média era de 40 anos. Hoje, informam as estatísticas que podemos atingir a média de 70 anos; quase o dobro. Para quê?  Para desequilibrar a harmonia vivencial implantada pela sábia Natureza. A função normal de vida é gerar e criar os filhos no tempo suficiente. Depois, é voltar ao seio energético de onde viemos, dando a outros viventes a oportunidade de cumprir suas jornadas.

   Essas considerações nos ocorrem ante a verificação de que a população, mercê dos fatores citados, alcança o total nominal de 6,7 bilhões, correspondendo potencialmente a 670 bilhões por suas ações multiplicadoras. E num momento em que o ambiente já dá seus sinais de esgotamento ou desequilíbrio ambiental.

  Somos inconseqüentes quando buscamos a imortalidade pessoal. Ela já é exercida naturalmente por meio da procriação que segue um programa lógico: morrer para dar lugar ao que nasce. Isso é o que deveria ser incorporado à sapiência humana. Esse aspecto representa uma situação benéfica para a harmonia do meio ambiente.

   Em que se constitui o meio ambiente? É uma malha em que os elos são interdependentes. Cada espécie viva é um elo desse conjunto. Corolário: cada elo constrói e harmoniza o meio ambiente. Destruindo-se essa ligação, estamos enfraquecendo e destruindo aquele todo, onde ele próprio se nutre e assegura recursos básicos para a existência de sua prole. O homo sapiens extingue 2,3 espécies de seres de nossa flora e fauna a cada hora. É fácil enxergar que chegará a um ponto em que somente ele restará sobre a terra. Teoricamente, claro, porque muito antes disso, o caos do desequilíbrio vivencial se instalará no planeta.

   Alcançar a imortalidade! Que objetivo mais inglório e estúpido! Essa afronta à razão e à Natureza ficará sem castigo? Devemos nos conscientizar de que a morte é uma necessidade após o cumprimento dos desígnios naturais. Precisamos entender que somos uma excepcional ferramenta de manutenção da vida e que a Natureza nos protege de todas as formas até o momento em que passamos a ser dispensáveis, prejudiciais, entulhos, lixo.

     E nessa ação antecipatória, a Natureza é sábia e amiga. Dá-nos o envelhecimento, que é um suave preparo, um aviso, um desamor e renúncia a bens materiais, a sabedoria. E, no ato final da transição, suaviza nossa mente com o estado de coma no processo natural, ou apaga da memória o tempo decorrido na ocasião de acidentes. Suave é a morte, mesmo quando ocorre em circunstâncias violentas. Só é dolorosa quando contrariada pelos artifícios médicos destinados a prolongar a vida vegetativa, atos inteiramente irracionais.   

    

 

 

 

 

 

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5 Comentários

  • Rapaz! Que incrível este post! No fundo o homem, na ânsia de prolongar seus anos e até ser imortal, está na verdade retardando o próprio ciclo evolutivo! O homem hoje é, relativamente fraco pois deixou de evoluir na velocidade necessária e por isso mesmo imposta pela natureza! Nunca havia visto a coisa dessa forma e isso me levou a uma conjectura talvez até bizarra mas veja: Imaginemos, se as bactérias, aquelas patológicas, e os vírus, conseguissem de alguma maneira, prolongar suas vidas e viverem anos! Pensando como bactéria e como vírus, isso seria ótimo! Fantástico! Pense nas coisas que um vírus ou uma bactéria poderia fazer a mais em sua vida! Seria um avanço para eles, certo?! Errado! Por que se vírus e bactérias começarem a ter uma vida mais longa, evoluirão numa velocidade cada vez menor e ao invéz de semanas ou meses, demorarão anos e anos pra se tornarem resistentes ás coisas que ameaçam suas espécies, como os antibióticos e anti virais! Ou seja, fatalmente serão extintas por que o homem precisa apenas de alguns meses pra desenvolver uma nova arma contra eles! A mil anos atrás um homem morria quando geralmente seus filhos ainda eram jovens o que significa que apenas duas gerações ocupavam o espaço terrestre ao mesmo tempo! Hoje o homem conhece seus netos, muitas vezes seus bisnetos e até seus tataranetos, ou seja, quatro gerações ocupando o mesmo lugar ao mesmo tempo! O homem vive mais?? Sim o homem vive mais hoje do que óntem! E isso é bom, certo? Pro homem como indivíduo, hoje, até pode parecer que é, mas em termos de “todo”, de espécie…
    TEM TUDO PRA DAR ERRADO! Ao longo da história, o homem evoluiu quando a esécie evoluiu! Hoje, o homem evolui, como indivíduo, individualmente,(não se trata de redundância), mas a espécie está estagnada e a tendência é ser extinta, como aqueles hominídeos, que não aprenderam a vocalizar! Abraço! e obrigado por esse post!

  • Caros Maurício/Osvaldo Luiz

    Que maravilha de visão e clarividência de exposição, tanto no artigo como no comentário.
    Pelo exposto, o desenvolvimento humano sofreu um desvio de rumo, o que está evidente. Gostaria, com a devida aquiescência, apontar o fenômeno que promoveu esta distorção: “no meado do século XVIII, a utilização de matéria fossilizada abundante como fonte de energia.” Com a hulha transformada em coque, foi possível fundir o ferro em larga escala e, portanto, com um custo muitas vezes mais baixo do que com o carvão vegetal, como era feito até então. Com isso, deu-se a partida da Revolução Industrial e a consequente invenção de novos materiais e máquinas, possibilitou a concentração urbana com a verticalização das construções, novas técnicas agrícolas e industriais ampliando a oferta de produtos essenciais por preços mais baixos; no entanto, tornou-se imperativo estimular a criação e o consumo de novos produtos e serviços sofisticados e supérfluos para custear novas atividades empresariais e oferecer lucros aos investidores. Com este objetivo, gradativamente, valores éticos tradicionais foram sendo abandonados e criados novos estilos de vida sociais voltados para o consumo. Só que, na euforia do desenvolvimento, ninguém percebeu que, os preços reduzidos, correspondiam a um débito cumulativo no contas/correntes do meio ambiente. Chegou a hora do acerto de contas e os devedores, sequer, têm consciência de como pagarão a dívida.
    Fraternal abraço,
    Antídio

  • Kibom33 disse:

    Ola pessoal, saudades de vcs. Parabens.

  • “Kibom” que você voltou, Kibom. Venha mais vezes! Aproveite para conhecer o mais novo site integrante da Rede DDD, o “Botequim Filosófico Virtual” . Eis o endereço: http://debatadesvendeedivulgue.com/botequimv
    (cpopie e cole na barra do seu navegador).
    Abraços!

  • Juno disse:

    Nem é preciso ser muito inteligente, para se dar conta de que tudo está indo por água abaixo. Presentemente, a população humana no planeta, atingiu já, perigosamente, mais de 6 bilhões de pessoas. Ora, não há comida para todos; não há água potável para todos; não há remédios e leitos hospitalares para todos; não há escolas de boa qualidade para todos; nem todos tem casas para morar; não há trabalho renumerado para todos; poucos tem direito ao lazer;…em compensação, há os que sempre querem levar vantagem em tudo. A natureza é sábia; quando a coisa atinge os níveis que ora atravessamos, ela providencia um rebolation geral, do qual pouquíssimos escaparão. Vivemos uma fase de transição, de mudança de era, que ocorre de forma traumática. As forças indomáveis da natureza, estão aí, demonstrando que não estão para brincadeiras.

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