O problema da Terra

06/02/2010
by mgomide3

Damos a seguir divulgação de importante artigo do geógrafo Ricardo Honório, publicado pelo Correio Braziliense e republicado por EcoDebate em 9.1.10. 

A ciência nos ensina que a Terra precisou de alguns bilhões de anos até que fosse possível a existência de vida em sua superfície. Apesar de todo esse tempo, as primeiras espécies mais vegetavam que viviam. Eram mônadas, celenterados e espécies afins que serviam, ao que parece, de cobaias que testavam, para Alguém, a viabilidade da existência de vida no orbe recém-criado.

Com o passar do tempo, o planeta se resfriou e criou as condições para o recebimento de espécies mais complexas. Vieram os grandes animais aquáticos, os anfíbios, até que o orbe se tornou habitável. Quando tudo pareceu pronto, chegou a espécie mais complexa: o homem. E põe complexidade nisso!

No início, o homem vivia para se alimentar e se alimentava para viver. Depois, ele passou a viver para se alimentar e alimentar a sua prole. Quando a prole também começou a buscar alimentos para o grupo familiar, o homem passou a viver para se alimentar, alimentar a prole e armazenar o que não era consumido de imediato. Começava aqui a geração do que seria chamado de excedente de produção.

Com o excedente de produção, o homem percebeu que poderia diminuir o seu trabalho na busca de alimentos, haja vista que a prole se mostrara capaz de conseguir alimentos para todos. Em pouco tempo, se fez necessária a administração do excedente. Começa aqui a divisão de tarefas e de classes.

Com o aumento da população humana sobre a Terra, aumentou a demanda por alimentos. Os núcleos familiares, divididos em gestores do excedente e a prole produtora de alimentos, sentiram a necessidade de preservar os nichos que garantiam o fornecimento dos bens necessários. Iniciava-se, assim, a reserva estratégica das fontes de recursos que garantiam a produção, o consumo e o excedente.

Para garantir a apropriação dos nichos, foi preciso dividir a prole em administradores, produtores de alimentos e os defensores dos nichos. Para tanto, desenvolveram-se métodos e técnicas de defesa dos interesses individuais e grupais. Assim se iniciara a arte bélica como ferramenta de defesa desses interesses.

A vida espalhou-se pela Terra e o homem complexo disseminou a sua complexidade em todos os quadrantes do planeta. A forma de produzir, administrar e defender seus interesses foi difundida e copiada por todos os núcleos familiares. Quanto mais o homem complexo se desenvolvia, mais complexidade imprimia à sua forma de ver e viver a vida. A busca pelo excedente tornou-se tão importante que o foco deixou de ser a produção para a manutenção da vida e passou a ser a produção para a manutenção do excedente.

O tempo passou e os núcleos familiares se tornaram clãs, os clãs se tornaram castas, as castas se tornaram feudos, dos feudos surgiram as divisões territoriais e das divisões territoriais surgiram os países. Tudo muito complexo, conforme as complexidades do homem complexo.

Os métodos e técnicas para consecução de bens se aperfeiçoaram, mas mantiveram a mesma filosofia de criação de excedente, sem se preocuparem com detalhes importantes, como: até que ponto a Terra suportará a extração dos recursos naturais para a produção de excedentes? A fonte desses recursos é inesgotável? A acirrada e belicosa metodologia de defesa dos nichos de extração, produção e comercialização de produtos mais auxilia ou mais complica a complexa vida do homem complexo?

Algumas dessas perguntas já têm resposta. No entanto, surgem outras: quando Alguém utilizava as mônadas, os celenterados para testar a viabilidade de vida no planeta, será que imaginava uma Terra fragmentária e contenciosa, habitada por criaturas com tão alto poder de destruição e tão baixa capacidade de conciliação? Criaturas que aprenderam tanto a somar e tão pouco a dividir? Será que a complexidade do homem representada, sobretudo, pela sua capacidade de raciocinar, refletir, pensar não é capaz de fazê-lo ver que a exacerbada utilização dos recursos naturais e a implacável defesa de interesses individuais e de grupos levados ao extremo poderão conduzi-lo, inexoravelmente, à autodestruição da espécie?

O homem está vivendo seu grande paradoxo. Enquanto a sua inteligência lhe favorece a consecução de vários estilos de vida, alguns altamente danosos à estabilidade da vida no planeta, vícios morais como a insensatez, o orgulho, a vaidade, a intolerância, a avareza… o impedem de encontrar alternativas que corrijam a trajetória de equívocos seculares.

O que Alguém levou bilhões de anos para construir, o Homem, pela sua incúria, poderá destruir em poucos séculos!

Talvez, este texto, como tantos outros, não mudará nada nos destinos do nosso planeta; quiçá, quando muito, levará você, leitor, a refletir por alguns minutos, até que sua reflexão seja interrompida por uma nova necessidade supérflua, garantindo a manutenção do nosso estilo de vida (ou de morte?). Isso porque a produção de excedentes supérfluos não pode parar; porque a concorrência interpessoal, interorganizacional e internacional que dita o ritmo da nossa vida, não pode ser perdida; porque mais vale morrer agarrado ao lucro, do que viver para ver o outro lucrar!

Enfim, a Terra tem um grande e complexo problema: o homem! Eis aqui o grande e complexo desafio: o problema resolver-se a si próprio.

 

 

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1 Comentário

  • Caro amigo, escritor e ambientalista Gomide:

    Como você vê, embora poucos existem muitos, dentro desses poucos, com ideais iguais aos nossos. Mesmo sabendo que não existe a certeza de que os alertas e protestos possam ser ouvidos, entendidos e atendidos, continuam denunciando, alertando, bradando. E prova disso é mais este excelente artigo do geógrafo Ricardo Honório.

    Por que não conseguimos reunir todo esse povo em um só lugar? Por que ficam todos dispersos, cada um procurando um nicho onde possam se acomodar melhor e ter mais voz? Até os políticos, Gomide, os poucos que se interessam pelo assunto, são minoria e além de minorias, divididos.

    Aliás, sobre os políticos, gostemos ou não deles, temos de entender que se eles, em todos os níveis, do Presidente ao vereadorzinho, não abraçarem a causa, estaremos fadados ao insucesso. Seria talvez o caso de trazer a classe política para a luta? Por que nem o PV conseguiu fazer isso?

    Essas são coisas que realmente me intrigam e gostaria de ouvir sua sábia opinião sobre isso.

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