Amostras de hoje indicam o futuro

19/01/2010
by mgomide3

 

As recentes tragédias em Angra dos Reis e Haiti são apenas exemplos episódicos da evidência de que o rumo desta civilização é equivocado. Indica também a força orquestrada da mídia em geral. Outras ocorrências naturais em locais diferentes, com conseqüências e significados importantes, passam sem que o mundo tome conhecimento pelo simples fato de que, no critério da mídia, é melhor ignorá-los. No Haiti mesmo temos a prova disso. Se o epicentro do tremor ocorreu a 15 km de Porto Príncipe, é claro que houve grande devastação no círculo territorial que abrange essa distância. No entanto, só cuidam da tragédia da capital; as desgraças das cidades das cercanias são ignoradas.  

Em Angra, fica escancarada a reação natural à ocupação humana desrespeitosa aos espaços geográficos moldados pela natureza. No Haiti, a maior tragédia é a miserabilidade do povo, numa demonstração do quanto é injusta a sociedade organizada em bases econômicas em que se privilegiam as riquezas individuais. Antes da catástrofe, havia 380.000 órfãos no país, para uma população feminina de 4 milhões. Isso equivale a quase 10% de orfandade, o que constitui um indicador bastante expressivo da degenerescência social. E o país tem pujança de natalidade. Após o terremoto, ainda não se sabe a quantidade de crianças sem referencial de vida. Devemos enxergar e aprender, naqueles acontecimentos, que diversos procedimentos da humanidade se chocam contra os interesses da Natureza.

Quanto a Angra, os desabamentos das encostas constituem apenas uma reação natural do solo à degradação de suas bases, onde se impõem as reações baseadas nas leis físicas, de conhecimento dos homens. O terremoto antilhano, por si já uma desgraça, fica sumamente agravado pela existência de uma sociedade impulsionadora de mais miséria, representada por analfabetismo generalizado; crenças religiosas obtusas; desflorestamento intensivo; exploração política, policial e econômica; alta taxa de fertilidade; ausência de infra-estrutura.  

O Haiti tem um histórico para país miserável por conseqüência de diversos fatores criminosos perpetrados pela exploração econômica irracional e desumana. No princípio, mataram os índios que ali viviam e os substituíram pelos negros escravizados em África, ocupando-os nas atividades da cana de açúcar em benefício dos patrões franceses. Depois destes, os americanos sugaram tudo o que havia ali de recursos naturais e abandonaram o local. O poder político-policial-econômico foi apossado por pequeno grupo de mulatos que se locupletaram, sendo Papa Doc o mais expressivo desses carrascos. Resumo: a miserabilidade do Haiti é o resultado da atividade puramente econômica, sem qualquer motivação de caráter social. Isso reduz a zero a capacidade de ele se reerguer.

Por que essas ações e reações?  As ações humanas apenas ajudam e antecipam ou agravam as reações naturais. Isso nos dá uma lição simples: as forças naturais são tão poderosas que, quando molestadas ou feridas,  tecnologia nenhuma lhes barra o caminho. Ademais, põe em evidência o fato de que o planeta tem vida própria, como já afirmara James Lovelock,  isto é, sua existência cósmica é dinâmica. Tem o poder de reagir, da forma que lhe convém, às ações humanas que a  molestem. E, nesse caso, o bom senso indica que Gaia deve ser bem tratada, cuidada, zelada, com ternura e delicadeza.

Os povos antigos já tinham esse respeito, motivo por que procuravam tratá-la com o máximo carinho, chegando mesmo a lhe oferecer seus sacrifícios. E nós, homens modernos?  Não podemos, nessa emergência, oferecer-lhe nossos sacrifícios também,  representados pela renúncia aos confortos tecnológicos iníquos e  reformulação de nossa estrutura social, ora construída na base do egoísmo, injustiça e ganância desmedida?

Dirão alguns que terremotos são ações naturais e não reações. Concordamos. Mas tais eventos são agravados pelos fatores negativos apontados acima, principalmente pela existência de quantidade excessiva da população e suas ações predadoras. Essas ocorrências são localizadas e constituem uma amostra insignificante do que vai acontecer à biodiversidade se o sistema exploratório continuar a depredar o planeta.

No caso de Ilha Grande, situada no município de Angra dos Reis,  lição importante é a de que estamos ocupando espaço desnecessário, apenas para fins de turismo. E que fique bem claro que turismo é uma forma de consumismo. Dilapidador, portanto, do nosso meio ambiente. Esse ramal consumista, que atende aos interesses econômicos, ajuda a solapar a integridade geológica do ambiente. Tal atividade vem sendo incentivada por todos os meios, ocasionando em ritmo crescente o agravamento dos seus malefícios ao meio ambiente.

Aos céticos, fica o aviso da Natureza, além dos outros sinais concretos já do conhecimento geral.  

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1 Comentário

  • Tem razão o autor deste inspirado artigo. De fato, tragédias podem se dar por causas naturais ou antropogênicas ou ainda por uma combinação de ambas. Mas quando uma tragédia coletiva de grandes dimensões, seja ela de que natureza for, se dá num país miserável, desassistido e explorado os efeietos pós-tragédia são muito maiores. E quantos países ainda existem nas mesmas condições do Haiti? Imagine-se, por exemplo, se algo semelhante acontecesse na Somália os efeitos não seriam idênticos ou piores?

    A natureza tem dado seus avisos, por diversas formas. São, como o autor do artigo disse, pequenas amostragens do que poderá ser o amanhã. Além dos fatores ambientais que precisam ser melhor cuidados para evitar-se catástrofes, há também o fator econômico, que agrava as conseqüências dessas catástrofes. Que estrutura e recursos têm os países pobres para defenderem-se? E é bom lembrar que “amostragens” são pequeníssimos exemplos do que pode ser a realidade. Se numa amostragem os efeitos já são catastróficos, ceifando centenas de vidas e jogando milhares ao abandono social, dificultando-lhes a sobrevivência, o que ocorrerá se acontecerem eventos globais, de grandes dimensões? Conseguirão os países miseráveis sobreviver?

    Diminuir a população planetária à custa de catástrofes naturais ou provocadas não é o que se quer, mas é o que se está permitindo, por omissão dos “donos do mundo”. Se isto é bom para alguém, talvez só o seja para os incentivadores e controladores da nova ordem mundial (aprendam mais sobre isso).

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