A recente notícia da explosão de venda de carros foi comemorada pela indústria, que viu serem vendidos mais de 50% a mais de automóveis em dezembro do ano passado do que no mesmo mês de 2008, e 16,5% de diferença positiva entre dois meses consecutivos*. Entretanto, se olharmos por um ponto de vista racional, isso é motivo de lamento, não de festejo. Vários motivos nos levam a achar ruim, não bom, que os carros novos tenham invadido as ruas – causas ambientais e urbanas.

Em termos de meio ambiente, o que acharemos de quase 300 mil carros a mais, em apenas um mês, rodando nas nossas ruas, avenidas e estradas? São um pesadelo ecológico, com a piora do efeito-estufa, da poluição e da atividade mineradora. Só temos consequências ruins a imaginar ambientalmente com essa enchente automobilística.

Mais poluentes, com o enchimento do ar das cidades com ainda mais sujeira. Mais emissão de gases-estufa, com inúmeras toneladas a mais de gás carbônico e outros gases sendo lançados e aumentando o percentual de aquecimento da atmosfera. Mais gastos de recursos naturais, aproximando nossas jazidas de minerais à exaustão mais rapidamente.

Em tempos de tanta discussão sobre como tornar nossa sociedade sustentável, mais ecológica, é uma decepção que estejamos comprando mais, dependendo mais de automóveis. Estamos configurando exatamente o inverso daquilo que almejávamos e desejávamos. Em vez de estarmos sendo mais amigos/as da natureza, estamos piorando nossa relação com ela.

Não menos ruim é o quesito urbano. A primeira e mais óbvia consequência que vislumbramos é o aumento dos já insuportáveis engarrafamentos em nossas cidades. Se a cada mês estamos pondo para funcionar centenas de milhares de carros novos, é de se esperar que nos aproximemos de um colapso viário.

Também preocupa o possível aumento dos acidentes de trânsito e, por tabela, das mortes. Mais carros implicarão mais batidas, mais capotamentos, mais feridos/as e mortos/as.

Ainda dentro da questão urbana, o incentivo do governo à compra de veículos releva uma importante maldade dele: a política de favorecimento ao transporte individual e desprezo ao coletivo. Entre incentivar que se encham as ruas de carros e prover mais ônibus e trens para desafogar o trânsito e atender à população que não prefere ou não pode usar um automóvel pessoal, foi preferido o primeiro. Enquanto isso, as tarifas do transporte público aumentam a cada ano sem uma melhora do serviço.

Fora números econômicos que não condizem com nossas verdadeiras necessidades, nada há para se comemorar nesse aumento da venda de veículos. Nosso governo, enquanto recebe homenagens como um agente astuto a retirar cedo seu país da crise mundial, mostra seu lado negativo em, baixando os impostos para um setor industrial que não merecia nem deveria ser fomentado como foi, frustrar as esperanças ambientais e urbanísticas da população.

*Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u674383.shtml
 

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3 Comentários

  • Maurício Gomide Martins disse:

    Caro Robson,
    Enquanto hoje nossos governantes incentivam o consumo materialista, criando créditos, desviando recursos, discursando, amanhã – quando o dragão da realidade aparecer – estarão chorando de arrependimento e remorso por tal cegueira mental. Mas o assunto, muito bem abordado por você, faz parte da linguagem econômica que impera na vida dos homens encarregados de conduzir a sociedade.
    Assim como você aponta essa realidade pontual, esse procedimento predatório é geral. Faz parte do sistema capitalista, e os governantes nada mais são do que os executores de ações condizentes com os interesses de lucro, lucro, lucro para seus patrões. Você sabe que a ganância não tem limite. Assim, a produção e conseqüente consumo de automóveis de passeio será crescente e infinita. Agora, abra-se o cérebro de alguém capaz de entender para onde a humanidade caminha. Nós ambientalistas enxergamos facilmente que a atividade econômica, focada no desenvolvimento, crescimento, progresso, só nos pode levar ao suicídio. Lamentável é que a maioria não tem a capacidade mental de perceber tal destino. Por isso, esses incapazes promovem discursos, festas, felicidades artificiais e superfluidades. Alegria, alegria… antes do caos.

  • De fato, valoriza-se o aspecto econômico e esquece-se dos aspectos negativos que esse consumismo traz. Que o automóvel é uma utilidade dos tempos atuais, não se discute. O que se discute são os seu padrões de fabricação (ainda não se chegou a um consenso mundial sobre o modelo ideal de veículo não poluente) e a falta de planejamento no seu uso. Algumas grandes metrópoles (está aí São Paulo como exemplo) já não suportam mais o aumento da frota de veículos sem um novo planejamento viário.

    A continuar assim, o caos no trânsito nas grandes cidades será inevitável. De que adianta possuir carros se não se tem vias livres para circular e se, em alguns trechos, uma bicicleta faz o percurso em muito menor tempo e sem um único miligrama de poluição? É preciso que se pense nisso.

  • neyde de martino disse:

    Não há mais o que dizer,não há mais o que fazer.
    Não há união. Caminhamos vendados e felizes, esperando que outros façam algo. “N” pessoas, falam, escrevem, alertam, discordam, mas não há AÇÃO.
    PAROLE, PAROLE , PAROLE.
    A impotência é o sentimento que mais nos acolhe.
    Sem esperanças
    Neyde

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