Natal

24/12/2009
by mgomide3

por Rubem Alves

Fonte: Fábio Oliveira – fabioxoliveira2007@gmail.com

                                  Fabioxoliveira.blog.uol.com.br/

 "(…) Natal me deixa triste. Porque, por mais que o procure, não o encontro. Natal é uma celebração. As celebrações acontecem para trazer do esquecimento uma coisa querida que aconteceu no passado. A celebração deve ser semelhante à coisa celebrada. Não posso celebrar a vida de Gandhi com um churrasco. Ele era vegetariano, amava os animais. Uma celebração de Gandhi teria de ser feita com verduras, água, leite e um falar baixo. Mais a leitura de alguns textos que ele deixou escritos. Assim Gandhi se tornaria um dos hóspedes da celebração.

 Agora, um visitante de outro planeta que nada soubesse das nossas tradições, se ele comparecesse às festas de Natal, sem que nenhuma explicação lhe fosse dada, ele concluiria que o objeto da celebração deveria ser um glutão, amante das carnes, bebidas, do estômago cheio, das conversas em voz alta, do desperdício. Nossas celebrações de Natal são como as cascas de cigarra agarradas às árvores. Cascas vazias, das quais a vida se foi. Se perguntar às crianças o que é que está sendo celebrado, eles não saberão o que dizer. Dirão que o Natal é dia do Papai Noel, um velho barrigudo de barbas brancas amante do desperdício, que enche os ricos de presentes e deixa os pobres sem nada. (…) Pois é certo que as celebrações do Natal são orgias de ricos, celebrações do desperdício e lixo. Celebrações do lixo? Aquelas pilhas de papel de presente colorido em que vieram embrulhados os presentes, não são elas essenciais às celebrações? Rasgados, amassados, embolados num canto. Irão para o lixo. Quantas árvores tiveram de ser cortadas para que aqueles papéis fossem feitos. Para quê? Para nada. A indiferença com que tratamos o papel de presentes é uma manifestação da indiferança com que tratamos a nossa Terra.

 Estou convidando meus amigos para uma celebração de Natal. Ela deverá imitar a ceia que José e Maria tiveram naquela noite: velas acesas, um pedaço de pão velho, vinho, um pedaço de queijo, algumas frutas secas. À volta de um prato de sopa de fubá – comida de pobre –, tentaremos reconstruir na imaginação aquela cena mansa na estrebaria, um nenezinho deitado numa manjedoura, uma estrela estranha nos céus, os campos iluminados pelos vaga-lumes. E ouviremos as velhas canções de Natal, e leremos poemas, e rezaremos em silêncio. Rezaremos pela nossa Terra, que está sendo destruída pelo mesmo espírito que preside nossas orgias natalinas. (…)"

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7 Comentários

  • KLEBER RAMÍREZ disse:

    Interessante este seu comentário.
    Mas vou te fazer uma pergunta.
    O que é o natal para você?
    Qual a importância, ou o que representa o natal para você?
    No aguardo.
    Um forte abraço.

  • Kleber:

    Prazer em revê-lo! Respondendo à sua pergunta: para o autor, penso que seja o que ele mesmo escreveu e que só precisa ser interpretado. Ele é contra aquilo em que se transformou o Natal hoje e gostaria que as comemorações fossem mais simples, restrita ao seio de cada família, cultuando, na simplicidade do lar aquele momento que teria sido o nascimento de Jesus. Concordo com ele apenas na 1ª metade.

    Quanto a mim, o Natal é nada, não comemora nada porque não se pode comemorar o nascimento de quem não existiu. O Natal é apenas uma data simbólica em que se comemora o “pretenso” nascimento de vários deuses pagãos e outros mais modernos, inventados. O Natal é hoje a data máxima do comércio e a festa é para os comerciantes. O tal “espírito do natal” foi implantado nas mentes das pessoas para induzi-las a se contaminar com a idéia e “gastar”. Se serve para alguma coisa, é apenas para reunir a família e os ausentes. Nada mais que isso.

    Gostaria que outros leitores externassem a sua visão pessoal sobre o “Natal”. Você vai ouvir cada uma… Não valeria apelar para as crianças, pois essas, na sua ingenuidade, também são enganadas com o lúdico que a data representa, para serem os consumidores de amanhã e, quando adultas, passarem a tradição de pai para filho. E os comerciantes agradecem.

  • mgomide3 disse:

    Caros amigos,
    Entendo que o autor, psicanalista, pensador e escritor Rubem Alves, pondo-se na posição de crente religioso, está dando um puxão de orelhas nos que se dizem religiosos cristãos. Isso não implica que ele próprio seja adepto de qualquer religião. Externou apenas o que enxerga – a paradoxal realidade – e fez a sua crítica.
    Quanto ao Natal, concordo plenamente com os dizeres do Ivo. Ainda hoje vi, nos noticiários da TV, soldados americanos no Afeganistão e Iraque comemorarem (empaturrando-se com cadáveres de inocentes perus) a data, mostrando ilógico respeito. As cenas, para minha sensibilidade, são de uma hipocrisia magestática. São, no mínimo, ridiculas. Resumindo: Natal é comércio, cujo objetivo é o nefando lucro.

  • Cláudio Cerejo disse:

    Não tinha visto a coisa pelo ângulo que o comentarista Gomide citou, mas talvez tenha sido isso mesmo. O autor, num primeiro momento critica o Natal, na forma em que é comemorado mas, logo abaixo, diz como deveria ser comemorado paracendo crer no que a data diz representar. Há aí uma aparente contradição, que só poderia ser explicada olhando a questão como o Sr. Gomide a interpretou.

    Tomara que seja isso, senão o autor entrou em gritante contradição: não acredita e nem concorda com o que o Natal representa, mas acha que deve ser “comemorado singelamente” (???). Contra e a favor ao mesmo tempo?

  • KLEBER RAMÍREZ disse:

    Olá pessoal.
    Quanto aos comentários, concordo em parte, como por exemplo: A data não tem nada a ver com a verdadeira.
    Através de um acordo entre a Igreja Católica, O governo e os filósofos (cientístas), os mesmos determinaram esta data para aquecer o comércio. Diga de passagem, não é o fim do mundo. Afinal, a maioria das pessoas precisam e vivem do comércio.
    O importante, é colocar o coração naquilo que acredita. Não vou entrar no mérito da questão, que a existência de Cristo ou não.
    Para mim, que creio na existência de Deus e seu filho, o natal que representa o nascimento do Salvador é todo dia, e, deve-se comemorar ou celebrar, como seja, todos os dias da nossa vida.
    Observem o que vocês tratam neste blog. A minha opinião pessoal a respeito do mesmo, é muito importante o que vocês falam e acreditam. Então faço-lhes uma pergunta:
    1 – Afinal, vocês se dedicam, preocupam-se, comentam, gritam a respeito de um determinado assunto, pelo qual são gerados em suas mentes e coração ou uma coisa ou outra sem vínculo da outra? Estou falando com a mente sem o coração, ou só com a mente, ou só com o coração ou com as duas coisas.
    Também lhes faço outra pergunta.
    2 – No aniversário de alguém, inclusive de entes queridos, você dá presente, por que inventaram isto ou porque você ama e dá com o coração?
    Um grande abraço.

  • mgomide3 disse:

    Prezado Kleber,
    Apenas respondendo a perguntas feitas:
    1 – A questão ambiental não está situada na área da fé. Nossa luta pela sobrevivência da humanidade tem origem genética também, mas tem seu fundamento na percepção da realidade dos sentidos corporais e na razão lógica. Enxergamos a necessidade de avisar aos de nossa espécie que os interesses econômicos estão destruindo nossa condição de viver.
    2 – Dar presente, significa fazer-se presente junto à pessoa amada. Socialmente, não dar presente é reparado como ato de menosprezo por força da tradição cultural que se incrusta na alma das pessoas. Para negar um presente, tinha-se que fazer longo discurso – geralmente não aceito ou incompreendido – sobre os interesses comerciais escondidos nesses atos.
    Veja bem essa observação: dar presente constitui um prazer especial de quem dá o presente, mas esse mimo deve ser efetivado somente em ocasiões em que o autor sente essa necessidade de afeto. Nunca, mas nunca mesmo, como obrigação estabelecida pelo interesse econômico e em data pré-fixada. Eu, pessoalmente, dou presentes justamente em ocasiões não convencionais. Repilo o ritual de presentear em datas fixadas.
    Uma pequena observação: você diz que “as pessoas precisam e vivem do comércio.”. Engano absoluto. Vive-se perfeitamente sem comércio. Mas para isso é preciso que se saia de dentro desse casulo cultural e ingresse em outra linguagem existencial. Veja-se a comunidade indígena que é feliz sem comércio. Os animais sociais, em grupo, também prescindem dessa imerssão. É preciso enxergar-se outros estados, outras culturas, outras situações, outros existirem, outras condicionantes, outras civilizações.
    Você dirá que isso é uropia. Mas acontece que os tempos atuais, a civilização envenenadora do ambiente, está precisando de utopias.

  • Curioso o interesse que um assunto banalizado como o Natal representou, levantando até polêmicas. Isto significa que o significado e as práticas do Natal deveriam mesmo ser rediscutidos em todo o mundo. Há muita coisa errada e oportunismos relacionados ao evento.

    Quanto ao que vc perguntou sobre o que nos move ao discutir determinados assuntos (se o fazemos com o coração, com a razão ou com ambos) e sobre o hábito de “dar presentes”, o Gomide já lhe respondeu. Mesmo assim, vou complementar, falando por mim e por muitos outros colegas dentre aqueles que conheço mais a fundo (sobre outros, não sei):

    Acho que ao discutirmos um tema olhamos primeiramente o foco da razão, expondo o que nos parece ser mais lógico e racional. Mas obviamente, como partes envolvidas e afetadas pelas ações do homem, o fazemos também com o coração, porém, em segundo plano. Não podemos deixar que razões do coração se sobreponham às da razão e os nossos alertas vão nesse sentido. E sempre que pudermos conciliar “razão x coração” o faremos, não tenha dúvidas. Mas, se não for possível, prevalece a razão.

    Quanto a “dar presentes”, concordo que deveria ser exatamente como o Gomide citou: não por imposição das datas festivas, mas quando o nosso “coração” assim indicar. Poderíamos dizer que presentes se dão por impulsos: sentiu a necessidade e achou que alguém merece o presente naquele momento, nos esforçamos e presenteamos a pessoa. Não vamos esperar a Páscoa ou o Natal ou o aniversário porque, aí, já se teria perdido a motivação original. Acho que é isso.

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