Melancólico desfecho da COP 15

22/12/2009
by mgomide3

 Transcrevemos a seguir um esclarecedor artigo do eminente ambientalista Leonardo Boff,  www.leonardoboff.com/ .

Fonte: Fábio Oliveira – fabioxoliveira2007@gmail.com

                                  fabioxoliveira.blog.uol.com.br/

"MELANCÓLICO DESFECHO DA COP 15 – É A TREVA: RUMO AO DESASTRE

Uma jovem e talentosa atriz de uma novela muito popular, Beatriz Drumond, sempre que fracassam seus planos, usa o bordão: ”É a treva”. Não me vem à mente outra expressão ao assistir o melancólico desfecho da COP 15 sobre as mudanças climáticas em Copenhague: é a treva! Sim, a humanidade penetrou numa zona de treva e de horror. Estamos indo ao encontro do desastre. Anos de preparação, dez dias de discussão, a presença dos principais líderes políticos do mundo não foram suficientes para espancar a treva mediante um acordo consensuado de redução de gases de efeito estufa que impedisse chegar a dois graus Celsius. Ultrapassado esse nível e beirando os três graus, o clima não seria mais controlável e estaríamos entregues à lógica do caos destrutivo, ameaçando a biodiversidade e dizimando milhões e milhões de pessoas.

 O Presidente Lula, em sua intervenção no dia mesmo do encerramento, 18 de dezembro, foi a único a dizer a verdade: ”faltou-nos inteligência” porque os poderosos preferiram barganhar vantagens a salvar a vida da Terra e os seres humanos.

 Duas lições se podem tirar do fracasso em Copenhague: a primeira é a consciência coletiva de que o aquecimento é um fato irreversível, do qual todos somos responsáveis, mas principalmente os países ricos. E que agora somos também responsáveis, cada um em sua medida, do controle do aquecimento para que não seja catastrófico para a natureza e para a humanidade. A consciência da humanidade nunca mais será a mesma depois de Copenhague. Se houve essa consciência coletiva, por que não se chegou a nenhum consenso acerca das medidas de controle das mudanças climáticas?

 Aqui surge a segunda lição que importa tirar da COP 15 de Copenhague: o grande vilão é o sistema do capital com sua correspondente cultura consumista. Enquanto mantivermos o sistema capitalista mundialmente articulado será impossível um consenso que coloque no centro a vida, a humanidade e a Terra e se tomar medidas para preservá-las. Para ele centralidade possui o lucro, a acumulação privada e o aumento de poder de competição. Há muito tempo que distorceu a natureza da economia como técnica e arte de produção dos bens necessários à vida. Ele a transformou numa brutal técnica de criação de riqueza por si mesma sem qualquer outra consideração. Essa riqueza nem sequer é para ser desfrutada mas para produzir mais riqueza ainda, numa lógica obsessiva e sem freios.

 Por isso que ecologia e capitalismo se negam frontalmente. Não há acordo possível. O discurso ecológico procura o equilíbrio de todos os fatores, a sinergia com a natureza e o espírito de cooperação. O capitalismo rompe com o equilíbrio ao sobrepor-se à natureza, estabelece uma competição feroz entre todos e pretende tirar tudo da Terra, até que ela não consiga se reproduzir. Se ele assume o discurso ecológico é para ter ganhos com ele.

 Ademais, o capitalismo é incompatível com a vida. A vida pede cuidado e cooperação. O capitalismo sacrifica vidas, cria trabalhadores que são verdadeiros escravos “pro tempore” e pratica trabalho infantil em vários países.

 Os negociadores e os lideres políticos em Copenhague ficaram reféns deste sistema. Esse barganha, quer ter lucros, não hesita em pôr em risco o futuro da vida. Sua tendência é autosuicidária. Que acordo poderá haver entre os lobos e os cordeiros, quer dizer, entre a natureza que grita por respeito e os que a devastam sem piedade?

 Por isso, quem entende a lógica do capital, não se surpreende com o fracasso da COP 15 em Copenhague. O único que ergueu a voz, solitária, como um “louco” numa sociedade de “sábios”, foi o presidente Evo Morales: “Ou superamos o capitalismo ou ele destruirá a Mãe Terra”.

 Gostemos ou não gostemos, esta é a pura verdade. Copenhague tirou a máscara do capitalismo, incapaz de fazer consensos porque pouco lhe importa a vida e a Terra mas antes as vantagens e os lucros materiais."

 

 

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4 Comentários

  • Explicando:
    o capitalismo é uma excrecência que se desenvolveu paralelamente com a Revolução Industrial. Foi abraçada pelos economistas para explicar e manipular a evolução do capital, ignorando os custos ambientais, então desconhecidos, que deixaram de ser repassados aos preços de venda. A R.I. teve como alicerce a substituíção das fontes de energia naturais, humanas e animais pelos combustíveis fósseis cujos resíduos não são recicláveis e, por isso, se acumularam no meio ambiente marinho e terrestre durante estes dois últimos séculos; agora evoluiu para a atmosfera e está promovendo o seu desequilíbrio. Entendo que o caminho mais lógico é o desenvolvimento de campanhas de conscientização popular contra o consumo supérfluo e da necessidade de controlar os nascimentos a fim de reduzir, gradativamente, a carga populacional da Terra.
    Antídio

  • Sim, Antídio, seu entendimento está correto mas, há que se tomar cuidado com o “tipo de controle populacional”, que deverá ser os dos nascimentos futuros, ou seja, o de filhos por casal e não aquele proposto pela famigerada “Nova Ordem Mundial”, que é de extermínio, com guerras, pestes fabricadas, fome e sede. Não é um problema de espaço físico no planeta, pois isto ainda temos de sobra. Toda a atual população planetária (6.8 bilhões de habitantes), caberia na Australia e ainda sobraria todo o resto do planeta. O problema que não querem enxergar são os recursos naturais disponíveis, que seriam insuficientes para atender à população esperada em 2050 (entre 9,5 a 10 bilhões de habitantes).

    Com o aumento da expectatyiva de vida, sem freios na taxa de natalidade e a continuar o aumento populacional no ritmo atual, é certeza que com quase o dobro da população de hoje, muitos morreriam de fome e sede e as guerras de extermínio seriam inevitáveis. O quadro é preocupante e os governantes não discutem, como disse o Gomide, todos os ângulos da questão. O problema não é só o clima. É muito mais que isso. E agora temos de nos preocupar também em “escapar” do governo da “Nova Ordem Mundial”, que pretende nos controlar, chipando seres humanos, escravizando-os e exterminando mais da metade da população mundial, por meios escusos e imorais.

    Há muito ainda que se discutir sobre isso e muitas verdades precisam ainda vir a público, inclusive sobre o aquecimento global, “gripe suína”, crises globais e outras tantas do mesmo quilate que somos obrigados a engolir.

  • mgomide3 disse:

    Caro Antídio, seu argumento seria válido se tivéssemos 1.000 anos de prazo para educar o povo, mas o problema ambiental é para 10 anos mais ou menos. Além disso, teríamos que primeiro educar o poder econômico, depois os governos, para finalmente o povo. Mas tudo acontece ao contrário. Na recente crise econômica, os governantes (que são representantes dos verdadeiros donos do poder) fizeram de tudo para que o consumo não caísse. O próprio Lula, estimulou ao paroxismo o investimento, a publicidade, o financiamento e o consumo facilitado. A queda de consumo é uma caída no termômetro da saúde do sistema econômico. Eles, os ricos, têm pavor dessa caída.

    Caro Ivo, permita-me contestar seu argumento a respeito de população mundial. Você, sem perceber, foi traído por um raciocínio antropocêntrico. Pensou em função exclusivamente dos interesses dos animais humanos. “Não é questão de espaço físico…” Na verdade, não existe espaço físico existencial vazio. Todo espaço do planeta tem seu hábitat que sustenta vida e é tomado por uma espécie ou outra. O humano está tomando todos os espaços, por si ou por suas ações de envenenamento da atmosfera, dos rios, dos mares. Não é vazio o lugar onde vivem plantas, animais, bactérias do solo. O homem está dilapidando não só seus recursos naturais como os da biodiversidade.

  • Amigo Gomide:
    você não está levando em consideração a capacidade de divulgação e de esclarecimento em massa pela mídia. Se cada ambientalista acadêmico conseguir se libertar das amarras formais que os enclausuraram mentalmente, e assim, visualizar e entender o problema ambiental como “um todo” em toda sua plenitude desde o começo até o presente, e repassar este conhecimento para terceiros, especialmente através da Internet ou qualquer outro instrumento de comunicação, logo teremos legiões crescentes de ambientalistas lutando pela preservação de todas as formas de vida no nosso Planeta. É um caminho mais racional do que esperar que os governantes capitalistas façam alguma coisa
    para reduzir o consumo supérfluo que lhes proporciona lucros.

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