Não podemos deixar de divulgar excelentes e esclarecedores artigos que vêm ao nosso conhecimento a respeito da COP 15. Os dias em que estamos vivendo correspondem a um momento decisivo para os rumos da vida ou morte da biosfera, constituindo um marco histórico para a humanidade. A seguir, transcrevemos um judicioso artigo do eminente ambientalista Washington Novaes, transcrito de http://fabioxoliveira.blog.uol.com.br/ 

 

“Eventos extremos, como as chuvas dramáticas, não estão acontecendo apenas em São Paulo, no Sul e em outras partes do País. Outros tipos de tempestade estão acontecendo também em Copenhague, na reunião da Convenção do Clima – de onde estas linhas estão sendo escritas na quinta-feira. Elas acontecem até mesmo nas negociações para um acordo que possa levar todos os países a reduzir suas emissões de gases que contribuem para o aquecimento da Terra e a intensificação das mudanças climáticas.

 A primeira tempestade maior aqui aconteceu com o vazamento, pelo jornal The Guardian, do texto de um documento confidencial submetido pelo governo da Noruega a uns 15 países, entre eles Estados Unidos, China, Brasil, Índia e vários europeus, com propostas muito polêmicas:

 * Criar um grupo intermediário entre países industrializados e subdesenvolvidos, para China, Brasil, Índia e outros “emergentes” (o que quebraria a unidade do G-77);

 * exigências maiores de redução de emissões pelos subdesenvolvidos, mas sem criar obrigações maiores de financiamento para os países mais ricos;

 * nenhuma proposta de um acordo obrigatório, como o de Kyoto, para o período após 2012, quando termina a vigência da fase atual.

 O documento confidencial foi recolhido pela Dinamarca, diante das dissensões, mas a tempestade inevitável foi forte e obrigou a muitas explicações e tomadas de posição, inclusive do Brasil, que discordou das propostas.

 A segunda tempestade veio dois dias depois, com uma proposta do país-ilha Tuvalu (um dos mais de 30 ameaçados de desaparecer com a elevação do nível dos oceanos), apoiada por várias nações africanas e outros países-ilhas, que exigem a aprovação, aqui, de um documento vinculante, obrigatório para todos os países e mais duro que o Protocolo de Kyoto. E isso é praticamente impossível, não apenas por causa de discordâncias de muitos países, mas também porque os Estados Unidos não poderiam assiná-lo em Copenhague, já que nem a proposta do presidente Barack Obama para a área do clima foi ainda aprovada pelo Senado – o que é indispensável. Estabelecida a discórdia, as negociações tiveram de ser suspensas no plenário mais amplo. E só continuam nos vários grupos de trabalho (implementação, cooperação a longo prazo, assessoramento técnico e científico, novas metas para os países industrializados, etc.). Mas a suspensão ameaça o resultado final da convenção, porque um acordo teria de ser alcançado até o começo da próxima semana, para ser submetido aos chefes de Estado que chegarão. E nas convenções da ONU qualquer decisão tem obrigatoriamente de ser aprovada por consenso – basta um voto para impedir.

 As alternativas são difíceis. A primeira, convocar para o primeiro semestre de 2010 uma prorrogação desta reunião (chamada COP 15), na prática seria quase impossível, por coincidir com a Copa do Mundo de Futebol prevista para a África do Sul, que é um dos países importantes do grupo dos “emergentes”. A segunda, deixar tudo para a COP 16, em dezembro de 2010, no México, certamente provocaria uma enorme decepção aqui e em toda parte, dadas a urgência das questões e as pressões crescentes da sociedade em toda parte. E isso no momento em que até representantes de ONGs em Copenhague (há milhares de todo o mundo na COP15) se mostram cautelosos nas palavras, preocupados com não serem acusados de estar acentuando o pessimismo num momento crucial. E tudo isso sem falar ainda em condições apresentadas por vários países, como a norte-americana de não aceitar outro protocolo como o de Kyoto ou homologar o atual – além de não aceitarem financiar a China.

 O Brasil tem aproveitado a enorme afluência de pessoas na reunião para ganhar apoio para programas de bioenergias, fundo amazônico gerido pelo BNDES ou o fundo REDD (com doações de outros países para projetos que evitem desmatamento). Da mesma forma, tem capitalizado a boa repercussão de suas metas voluntárias para redução de emissões. Mas sua delegação está muito preocupada, inquieta, com o impasse mais amplo nas negociações, que pode dificultar tudo.

Os impasses trazem de volta discussões antigas, sobre formas de superar problemas como a exigência de consenso para decisões. Mas as alternativas já foram discutidas em outras COPs, como a de criar uma organização mundial só para o meio ambiente, separada da ONU. Só que ela enfrentaria problemas semelhantes: como ter regras universais sem a concordância de todos os países? E a urgência de decisões é implacável. Ainda há poucos dias a Organização Meteorológica Mundial advertiu que esta primeira década do século 21 está sendo e será a mais quente desde 1850, com temperatura média superior à da década de 1990, que já fora mais quente que a de 1980. Há uma corrida contra o tempo, que não está sendo ganha.

 Não têm mudado o rumo nem mesmo advertências dramáticas, como as do ex-secretário-geral da ONU Kofi Anan, mais de uma vez citado neste espaço: hoje, a maior ameaça global não está no terrorismo, como parece; está nas mudanças climáticas e nos padrões de consumo vigentes, já além da capacidade de reposição do planeta; essas questões é que ameaçam “a sobrevivência da espécie humana”. Palavras que, na boca de um diplomata experiente e competente, não podem ser postas de lado. Quem está vivendo os dramas do clima em São Paulo ou no Rio Grande do Sul sabe disso. Quem conhece os diagnósticos para o Brasil, feitos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – para a hipótese de as emissões globais continuarem crescendo -, também teme o que possa acontecer sem novas regras.”

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3 Comentários

  • Caro Gomide:

    Sempre que possível, quando se tratar da transcrição de uma notícia ou parte dela, informe o link original de onde ela foi extraída. Isto é apenas uma cautela para se evitar possíveis problemas com direitos autorais.

    A inserção de textos ou parte de textos de terceiros é permitida mas, por norma, é necessário citar o autor original, fonte e, quando existente, o link. Não se preocupe muito porque você tem utiliado isso com critério mas, às vezes, esquece de dar o link, um requisiyo importante. Foi apenas um pequeno lembrete.

    Volto mais tarde para comentar, neste artigo, o que também tenho tenho observado. E, infelizmente, não é nada bom porque, como vc disse, o que está comandando as decisões por lá são os blocos dos poderosos e o “dinheiro”. Há grupões e grupinhos, dos fortes dos fracos e moderados, todos tentando puxar a brasa para a sua sardinha. Ninguém pretende realmente abrir mão de nada mais significativo e a continuar assim…

  • mgomide3 disse:

    Prezado Ivo,
    A respeito da torre de Babel em Copenhague, já vi e ouvi no noticiário diversos manifestantes de rua apelando para objetivos concretos na conferência. Por duas vezes, foi noticiado que estão pedindo, em assuntos ambientais, a eliminação de fronteiras de países e a pregação de um órgão mundial para tomar decisões.
    Veja que as coisas estão evoluindo para um visão mais próxima da realidade. Ontem, no noticiário da Band, o economista Joelmir Beting disse que o principal personagem não foi convidado para a COP 15: o representante da população mundial.
    Anotei suas recomendações sobre a citação da fonte.

  • Gomide:

    Neste último domingo à noite, assisti na Band (não sei o nome do programa mas é aquele da “mesa redonda”) um importante debate sobre a COP15, com 4 convidados brasileiros, um da diretoria do INPE, 2 economistas e um cientista ligado ao clima. Parecia haver um consenso no sentido de que todos notavam a ausência de um “governo mundial para gerir os assuntos ambientais”, como sempre temos sugerido aqui. Será que agora vai?

    O outro problema que destacaram e que precisaria ficar claro, é que as decisões da COP15 não são vinculantes, ou seja, são apenas “compomissos”, mas não uma obrigatoriedade e, assim, não há garantia de que cada um cumpra a sua parte, por não haverem medidas coercitivas. Há muito que se fazer ainda por lá e isso não se resolve em uma semana. Talvez mais importante do que sugerir medidas de não agressão à natureza seja, neste momento, discutir-se a criação do órgão que controlará isso mundialmente: seus objetivos, forma de ação, estrutura e composição. Caberia a este novo órgão internacional (ou governo) gerir as medidas propostas e fiscalizar o cumprimento das metas. Aí sim, taslvez as coisas andassem. Vemos as coisas de uma forma simples, mas eles gostam de complicar o simples para não fazerem. Entendeu?

    EM TEMPO: Permiti-me acrescentar ao título do seu texto a expressão: “Como está o clima por lá?”, por achar que tornaria o título mais sugestivo. Se não estiver de acordo (o artigo é seu) é só retirar.

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