Considerações sobre a globalização

11/12/2009
by mgomide3

 

A ação de globalização começou como expansão econômica na busca de mais mercado. Antigamente, essa ampliação se restringia a objetivos limitados face à enorme grandeza do mundo. Hoje, pelo  poder adquirido com os recursos do conhecimento, comunicação, intervenção política do mais forte, tecnologia e conscientização da pequenez do mundo, esse envolvimento se fortaleceu e provocou situações de desequilíbrio não previstas na sustentabilidade do planeta.

A propósito, o pensador Leonardo Boff, em longo artigo publicado, nos dá sua visão desse fenômeno. Diz ele:

Os seres humanos que estavam dispersos em suas culturas, confinados em suas línguas e estados-nações, agora estão voltando de seu longo exílio rumo à casa comum que é o Planeta Terra.

A globalização traz consigo uma consciência planetária. Temos apenas esse Planeta para morar. Importa cuidar dele como cuidamos de nossas casas e de nossos corpos. E estamos todos ameaçados seja pelo arsenal de armas nucleares e químicas já construídas e armazenadas que podem destruir a biosfera, seja pela sistemática agressão aos ecossistemas que colocam em risco o futuro do Planeta. Desta vez não haverá uma arca de Noé que salve alguns e deixe perecer os demais. Ou nos salvamos todos, biosfera e humanos, ou pereceremos todos.”

 Cada vez mais os 192 países que compõem a humanidade vão tomando consciência de que estão numa torre de Babel e que sua existência depende dos procedimentos dos demais, como se está manifestando na COP 15. Defendo há tempos que o caminho para que haja harmonia no interesse do todo é a constituição de um governo mundial, quando o entendimento será feito por uma linguagem universal, e a quem caberia toda a responsabilidade administrativa do planeta. Tal rumo é percebido pelo citado senhor: “Essa consciência coletiva forçará a criação de organismos internacionais destinados a gerenciar os interesses coletivos destinados a garantir um destino comum para todos e para o Planeta”

Mais adiante, reforça o pensamento:

“O fenômeno da globalização e de sua correspondente consciência planetária dão origem a um outro paradigma civilizacional. Ele se caracteriza por um novo modo de relacionar-se com a natureza e com os povos, por uma nova forma de produção, por uma redefinição da subjetividade humana e do trabalho. Vamos considerar alguns destes pontos.

Ou mudamos de padrão de comportamento para com a natureza ou vamos ao encontro do pior.

A nova relação para com a natureza no sentido de um reencantamento e de maior benevolência fará que milhões trocarão as cidades pela vida no campo ou em cidades menores integradas ecologicamente com o meio-ambiente.”

 Desassombradamente e sem ferir suscetibilidades, aborda ele a questão populacional – a nosso ver a principal – externando que “A liberdade conquistada redefinirá o estatuto da família. Ela não se ordena, primeiramente, à procriação. Ela será o espaço onde a experiência do amor e da intimidade poderá ganhar estabilidade e se transformar num projeto a dois.”

E ainda nos surpreende com seu texto, dentro de um ecletismo e bom senso dignos de admiração:

“Talvez uma das transformações culturais mais importantes no século XXI será a volta da dimensão espiritual na vida humana. O ser humano não é somente corpo que é parte do universo material. Não é também apenas psiqué, expressão da complexidade da vida que se sente a si mesmo, se torna consciente e responsável. O ser humano é também espírito, aquele momento da consciência no qual ele se sente parte e parcela do Todo, ligado e re-ligado a todas as coisas. É próprio do espírito colocar questões radicais sobre nossa origem e nosso destino e se perguntar pelo nosso lugar e pela nossa missão no conjunto dos seres do universo.

Mais do que religião o ser humano busca espiritualidade. A religião codifica uma experiência de Deus e dá-lhe a forma de poder religioso, doutrinário, moral e ritual A espiritualidade se orienta pela experiência de encontro vivo com Deus, prescindo do poder religioso. Esse encontro é vivido como gerador de grande sentido e de entusiasmo para viver.”

O mundo se encontra neste momento, na COP 15, numa encruzilhada fatal – oportunidade última talvez – de perfilhar a estrada da redenção com o início de mudanças de mentalidades individualistas para coletivistas. É a alteração de paradigma civilizacional de que nos fala o digno pensador.

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