Contagem regressiva para a humanidade

28/11/2009
by mgomide3

Difundir, pelos meios ao nosso alcance, argumentações ambientalistas, pautadas em fatos reais do momento e fundamentadas pelo raciocínio lógico, é obrigação de todo defensor da Natureza. É o que fazemos a seguir, expondo à apreciação dos leitores deste blog o importante artigo lavrado pelo jornalista e escritor Celso Lungaretti.

 “Não será como o místico Antônio Conselheiro previu. O sertão não vai virar mar, nem o mar virar sertão. Pelo contrário, o sertão ficará ainda mais árido e o mar vai encorpar-se com o derretimento de geleiras. Tempestades, tufões, furacões, maremotos e tsunamis se tornarão bem mais devastadores. A desertificação de outras áreas avançará. Safras vão ser destruídas e a fome aumentará. A água que estará sobrando em alguns quadrantes, vai faltar em outros. Imensos contingentes humanos terão de deixar seus lares e buscar a sobrevivência alhures. Como uma amarga ironia, podemos dizer que o Brasil finalmente se igualará aos países desenvolvidos: haverá retirantes também no 1º Mundo.

Isto é o que se pode concluir da parte já divulgada do quarto relatório de avaliação da saúde da atmosfera produzido pelo Intergovernmental Panel on Climate Change (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), órgão da ONU que congrega especialistas de 40 países. Uma novidade é que agora existe uma quase certeza científica de que as alterações climáticas provêm mesmo da insensatez humana, causadora de uma concentração inédita dos gases que provocam o efeito estufa na atmosfera. Fabricamos demasiados automóveis e queimamos demasiadas florestas. A conta está chegando.

Esse relatório, que sintetiza as contribuições de 600 autoridades no assunto, permite antever que a escalada catastrófica virá crescendo, intensificando-se sobretudo na segunda metade do nosso século. E nada há a fazer para impedi-la, pois os danos causados já são irreversíveis. Nem que todos os veículos motorizados do planeta parassem imediatamente de circular, a temperatura deixaria de subir. Vêm tempos difíceis e a humanidade terá de passar por eles.

Mas, para que haja um século 22, teremos de corrigir a partir de agora nosso modelo econômico, deixando de priorizar o lucro em detrimento do meio ambiente. O atendimento das expectativas de cada consumidor não é um mandamento divino, nem o planeta está aí para se sujeitar eternamente à faina predadora dos humanos. Teremos de aprender a respeitá-lo, a conviver harmoniosamente com ele. Somos seus locatários, não seus donos. Se continuarmos dilapidando insensivelmente a propriedade, o senhorio nos expulsará. É simples assim.

A grande questão é: o capitalismo comporta uma mudança radical das prioridades humanas? Existe alguma conciliação possível entre o direcionamento obsessivo dos esforços humanos para a obtenção do lucro e o imperativo de os homens trocarem a competição pela cooperação, fundamental para a travessia das próximas décadas e para a correção de rumos que se impõe?

A resposta é óbvia: não.  O alerta lançado na década de 1960 por filósofos como Herbert Marcuse e Norman O. Brownestá sendo confirmado da maneira mais dramática. O capitalismo, com a prevalência dos interesses individuais sobre as necessidades coletivas, leva à destruição da humanidade, num quadro em que os recursos indispensáveis à sobrevivência da espécie humana são finitos e têm de ser aproveitados de forma racional e compartilhada.

A contagem regressiva está em curso. Resta saber se seremos capazes de transcender nossas limitações e nossa cegueira, passando a colocar em primeiro plano “nós” e “os que virão depois”. Pois o mundo do egoísmo e da ganância deixará de existir, de um jeito ou de outro.”

Blogger PostBookmark/FavoritesDiggEmailFacebookGoogle GmailGoogle+LinkedInPrintFriendlyTwitterYahoo MaildiHITTShare

3 Comentários

  • Maurício:
    as catástrofes ambientais que vêem ocorrendo em todo o mundo com intensidades crescentes, mais frequências e em locais inéditos e imprevisíveis, avalizam seu ponto de vista. À medida em que elas crescem, mais prejuízos são incorporados à economia globalizada cuja falência total já está dando avisos aos observadores mais perspicazes. Alertar aos mais jóvens é o nosso dever, mas as ações corretivas são as partes deles. Mas que nós brasileiros e os povos habitantes das regiões intertropicais, levemos em conta de que, apesar de calor mais intenso, estaremos mais protegidos dos raios ultravioletas do que os que habitam acima de Câncer e abaixo de Capricórnio.
    Nossos parabéns pela clareza da mensagem.

  • Gomide:

    Preliminarmente, quero dizer-lhe que o autor do texto é meu amigo virtual na rede diHITT e que já trocamos alguns comentários, inclusive no blog que ele mantém, o “Naúfragos da Utopia”, aliás, também título do seu livro. Convidei-o (não se se recebeu o convite) para vir debater aqui conosco.

    Quanto à minha opinião sobre o assunto, você já mais ou menos a conhece: concordo com o autor em relação às catástrofes que poderão advir da inércia da humanidade. São estas mesmas que ele anunciou. Só não posso concordar que ela seja irreversível. Irreversível, só será se nenhuma providência for tomada, urgentemente, e não daqui a 10 ou 20 anos. Aí poderá ser mesmo tarde demais.

    O grande problema é de natureza política, religiosa e econômica. São estas 3 forças que estão remando contra. E destas, a mais importante é a de natureza política, porque tenta acomodar os interesses econômicos e religiosos, um brigando por maiores lucros, sem se importar com o esgotamento dos recursos naturais, outro, por ser cúmplice da política e ser contrário ao controle mundial da natalidade.

    Os homens de ciência estão fazendo a sua parte, buscando soluções, mas sem encontrar respaldo dessas 3 forças. Sei de várias experiências fantásticas (publicarei algumas aqui) que estão sendo feitas para neutralizar os efeitos das destruições já realizadas e coibir as futuras, muitas já testadas e simuladas, comprovando que dá certo. Mas e o apoio? E a vontade política? O mundo conhece essas experiências? São divulgadas? Não, não são e nem permitem a implementação, porque não há interesse.

    Então, o problema está em abrir os olhos de todas as populações, em todos os continentes do mundo, e “exigir” dos políticos que detêm o poder de decidir que o façam, mas sem subordinação aos interesses econômicos e religiosos, senão, jamais dará certo.

    Se isto não for feito já, as gerações futuras poderão entrar em guerra genocida, por espaço, alimentos e água e será o princípio do fim da humanidade. Isto, se as catástrofes climáticas não nos dizimarem antes.

  • Prezados,

    não há muito o que comentar. As ameaças são gravíssimas e as respostas (como as que se discutem na conferência sobre alterações climáticas que está sendo realizada neste momento), muito aquém do desejado.

    Temo que só quando os danos atingirem maiores proporções haja clima para se enfrentar realmente o desafio colocado. A dúvida é se não vai ser tarde demais.

    Um forte abraço!

Deixe uma resposta