BIOCOMBUSTÍVEL, EQUÍVOCO SUICIDA

07/11/2008
by mgomide3

BIOCOMBUSTIVEL, EQUÍVOCO SUICIDA

Nossos assuntos em defesa do meio ambiente geralmente versam sobre a Terra, o todo, o planeta. Hoje o foco de nossa conversa vai ser a terra, parte daquela mesma Terra, substância que em grande parte cobre a superfície dos continentes. É muito comum e conhecida de quase todos. Talvez por isso não se lhe dá a importante atenção que merece. Merece porque é o sustentáculo do habitat no qual reina, direta ou indiretamente, toda a vida que conhecemos.

Partimos do princípio de que não existe milagre. Tudo que existe é efeito de alguma causa. Pois bem, façamos um exercício mental. Imaginemos que em um terreno de 1m2 plantamos um grão de milho. Após, ocorrem alguns fatos notáveis. A planta ali nascida suga do solo parte dos elementos químicos de que necessita para manter a vida. Do ar, retira outros que, em combinação com a energia solar, lhe dão condições de transformá-la em tecido ou estrutura preparatória para a reprodução. Produzidas duas espigas, são elas arrancadas e comidas por um homem, sobrando naturalmente toda a estrutura esquelética. O normal seria esse cadáver ser mantido no local e, após, revertido aos elementos químico primários pela ação dos agentes microbianos (o que é demorado), reporia no solo parte do que foi dali retirado. Mas, usualmente, em função dos interesses econômicos, ele é queimado ou usado como ração de bovinos ou tem outra destinação imprópria, o que é compreensível… pois “tempo é dinheiro” e o local tem que ficar limpo para novo plantio.

Situação daquele terreno: ficou desfalcado em sais minerais correspondentes. Nosso homem da labuta rural conhece esse fenômeno, mas apenas na sua conseqüência, quando diz: “esse terreno está cansado”, que traduzimos para “esse terreno está esgotado, desfalcado de elementos básicos, pobre, deficiente, imprestável, causado pela atividade agrícola intensa, ambiciosa, desordenada e inconseqüente”.[…]
De outro lado, o homem que comeu as espigas absorveu parte dos elementos de que tratamos e mandou para o esgoto o restante. Essa borra final foi levada pelos rios para a foz, onde se acumula no leito subaquático. Resumo da história: o homem retira uma parte dos elementos químicos da terra e os acumula no oceano. Isso se chama transformar. No conjunto, com muita gente, chuva em terra nua e máquinas como personagens, transformamos grande quantidade de alimentos inorgânicos, contidos na terra, em alimentos orgânicos que nos mantêm vivos, mas que afinal são descartados no mar. Esses elementos da terra são vida; não são energia locomotora. O que é terra? É a rocha decomposta. Um conjunto de rochas leva aproximadamente 200 anos para se transformar em uma camada de apenas 10 cm de terra.

Transformar os recursos naturais da terra em alimento tem a sua justificativa. Mas transformar alimento em combustível (energia locomotora) é o paroxismo da irracionalidade. Enquanto temos, segundo as últimas estatísticas, 1,5 milhão de pessoas passando fome, estamos preocupados com o deslocamento desnecessário de bens e pessoas, isto é, o conforto que gera lucro ao sistema econômico.

Alega-se que o petróleo é esgotável e o biocombustivel, não. Como procuramos arrazoar acima, o biocombustivel é esgotável, sim. E muito mais destrutível, pois pede áreas imensas de terra para cultivo, provocando maior desnudação desses espaços. Tudo em nome dos objetivos de ganha-ganha do sistema econômico da atual civilização. Pois que se esgotem os recursos petrolíferos que são subterrâneos e desnecessários à vida, mas se preservem os recursos naturais dos seres vivos, postos em função da necessidade básica de sobrevivência. Todos os povos primitivos cultuavam a terra, reconhecendo-a como a doadora de vida. Nós, os homens inteligentes e donos das verdades, a desprezamos. É o mesmo que desprezar a vida.

Nesse quadro de loucuras e desgoverno do planeta, enxergamos o momento em que teremos pessoas morrendo de fome, mas alegres e satisfeitas por estarem dirigindo um último modelo de automóvel.

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11 Comentários

  • Administrator disse:

    Muito bem colocado o seu artigo, Gomide. Fico feliz em ver que já conseguiu publicar sem maiores dificuldades e espero que continue a fazê-lo, pois artigos como os seus, os do Antídio e do Mr. sdpock, sem desmerecer os demais, são sempre inteligentes e de grande valia para este blog.

    Minha esperança continua sendo a de que, um dia, alguém com poder de decisão política ou de fazer alguma coisa, nos ouça e nos dê forças para continuar nossos alertas e denúncias. Sei que isto vai ser difícil porque a humanidade, em geral, é imediatista: pensa no hoje e esquece do amanhã. Mas um dia isso vai ter de parar.

    Quanto a nós, resta-nos continuar fazendo a nossa parte.

  • Kibom33 disse:

    mgomide

    Fico feliz em ver pessoas com os mesmos objetivos e pensamentos que os nossos.

    Sobre o biocombustível é também uma de nossas preocupações, onde estamos travando essa luta em nosso blog.

  • Amigo Gomide:
    Li atentamente esta sua denúncia e muito a valorizei por ter-me parecido ser fruto de reflexões pessoais, e não de parecer literário de renomados cientistas. No entanto amigo, contemplando o fenômeno descrito de um ângulo mais elevado, vejo que o Einstain tinha razão quando declarou que “matéria é energia concentrada”. Mas, eu separo a energia materializada em dois níveis distintos para facilitar a compreensão: a forma primitiva, que hoje é representada por pouco mais de uma centena de elementos básicos que, combinados entre si, dão sustentação à matéria propriamente dita, e que estão impressos na Tabela Periódica que vai do hidrogênio aos radiativos. Estes encerram um potencial energético imenso que conhecemos como energia nuclear; e outra forma, que chamo de energia orgânica, vem sendo captada, há milênios, dia-a-dia, da luz solar pelo mundo vegetal. A primeira forma é de dificílima combustão e, para liberação total da energia nelas contida, requer profundos conhecimentos e recursos tecnológicos. Liberado o teor energético na forma de calor, resta apenas as partículas radiativas que flutuam no espaço ou aderem aos gases ou superfícies de líquidos e sólidos. A segunda, energia orgânica, tem origem na captação dos raios luminosos solares, concentrados pela fotossíntese, na formação da biomassa. Esta, em condições próprias, ao ser queimada, libera o calor orgânico enquanto que os elementos primitivos que a compunham retornam ao solo na forma de cinzas, ricas em minerais como potássio, fósforo, cálcio, etc.. Quando transportamos alimentos ou combustíveis “in natura” para serem consumidos em outros lugares, realmente há um saque destes nutrientes básicos que só serão repostos pela natureza em muitas décadas. No caso, eles têm como destino final os mares. Porém, no caso dos biocombustíveis, só são sacadas das regiões produtoras as essências energéticas carbonadas coletadas da atmosfera (luz e gases), agregadas a veículos que se volatilizam com o próprio calor das combustões. No caso do álcool, a água. Até algumas décadas, a preocupação dos ambientalistas era com o vinhoto, efluente da destilação, que era lançado nos cursos de água e devastavam a flora e a fauna fluviais; hoje, este subproduto, riquíssimo em fertilizantes, serve para irrigar o solo com os mesmos nutrientes sólidos que foram retirados pela lavoura e, no caso, o meio ambiente age, apenas, como catalisador. Assim, o álcool, (C2H5OH), carbono, hidrogênio e oxigênio, exporta das regiões produtoras os elementos absorvidos da atmosfera pela fotossíntese. Do mesmo modo, o bagaço das canas queimado nas fornalhas das usinas, libera o calor nele contido, deixando os nutrientes elementares num concentrado de cinzas que retornam às lavouras por processos mecânicos. Já no caso das oleaginosas, as fibras restantes de sua prensagem (tortas), são acrescentadas à alimentação de animais, e estes se encarregam de adubar o solo. Pelo exposto, concluímos que a produção para exportação de alimentos é muito mais nociva às áreas produtoras do que a dos biocombustíveis que exportam apenas as essências energéticas coletadas na atmosfera, deixando à mercê dos produtores a redistribuição dos nutrientes básicos. Por isso, são RENOVÁVEIS e será a solução energética para o mundo
    . Meu afetuoso abraço,
    Antídio
    5 de Outubro de 2008 04:37

  • Por isso, amigos, é necessário o debate. Por causa dessas coisas – as grandes questões nacionais insuficientemente discutidas – é que tive a idéia de criar este blog, embora sabendo ser ínfima e quase invisível a nossa colaboração. Mas sempre há a esperança de que alguém enxergue a verdade e nos dê ouvidos, direta ou indiretamente.

    Meus ilustres debatedores Antídio e Gomide, agora em posições opostas: nessa questão dos biocombustíveis há prós e contras, é claro, e conseqüentemente, na defesa de seus pontos-de-vistas, vocês acertaram e erraram: um, porque aprovou 100% e outro, porque condenou 100%. Os argumentos foram bastante sólidos, mas erraram ao fechar a questão.

    Então, vou “parpitar” também e ver se consigo fazê-los chegar a um consenso ou meio termo e já vou adiantando que, nessa questão, temos de proceder de acordo com aquele dito popular: “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Detalhe: Apesar de o assunto ser global, vou comentar, por ora, tomando por base apenas o Brasil, que pretende ser o líder nesse processo, e vamos considerar os aspectos econômicos e os ecológicos, com os conseqüentes impactos ambientais.

    Para o Gomide (e também o Robson), digo: Não tenho convicção (ainda) de que a adoção dos biocombustíveis seja um “equívoco suicida”;

    Para o Antídio, digo: Também não tenho convicção de que seja esta a solução acertada e de que o Brasil deva enveredar com tudo por esse caminho.

    Tentando explicar: O abandono do petróleo, recurso natural em vias de esgotamento e a adoção dos biocombustíveis derivados da cana-de-açúcar ou da mamona, por exemplo, podem vir a ser uma solução para alavancar a economia brasileira e amenizar as desastrosas conseqüências das queimas de combustíveis fósseis, servindo de exemplo para o resto do mundo? Em princípio e concordando com o Antídio, pode! Esses são combustíveis que produzem energia mais limpa e menos danosa ao meio ambiente, desde que… (abaixo vou explicar o “desde que…)”.

    Mas isto pode vir a se transformar num “equívoco suicida”, como teme o Gomide? Pode tambem, “desde que… ”

    Não sei se estou sendo prolixo, mas o que estou tentando explicar, em resumo, é que a adoção dos biocombustíveis, pode ser uma solução econômica e ambiental, já que o custo de extração do petróleo, pela sua exaustão, vai ficando cada vez mais caro e vai chegar um ponto que não vai mais valer à pena a prospecção.

    Por outro lado, para se adotar o etanol da cana-de-açúcar como substituto, muitos cuidados devem ser tomados, porque também implica em riscos ambientais, que se não detidos já no planejamento do processo de produção, poderiam inviabilizar todos os esforços nesse sentido. E é aí que mora o perigo.

    O Antídio fala que o vinhoto, um subproduto do processo de produção do etanol de cana, pode ser aproveitado na própria irrigação do solo, com os mesmos nutrientes sólidos que foram retirados pela lavoura, dando a entender que, sendo controlado, não representa perigo. Será? Veja o que aconteceu e ainda acontece nas regiões produtoras do Estado de Pernambuco, onde o vinhoto, lançado nos cursos d’água promove a morte de toneladas de peixe, ainda hoje. Aqui é Brasil, Antídio, e o Governo é relapso e não controla nada. A ganância dos produtores poderá fazer com que eles não tenham o devido cuidado e as autoridades brasileiras não conseguirão impedir isso.

    Um outro problema: “Um dos processos de produção mais comuns é a queima da palha do canavial, para facilitar o corte manual e aumentar a produtividade do cortador de cana. Essa prática reduz custos de transporte e aumenta a eficiência das moendas nas usinas. No entanto, a queima libera gás carbônico, ozônio, gases de nitrogênio e de enxofre (responsáveis pelas chuvas ácidas) e provoca perdas significativas de nutrientes para as plantas, além de facilitar o aparecimento de ervas daninhas e a erosão. Como opção às queimadas, responsáveis por boa parte das mortes dos cortadores por meio da inalação de gazes cancerígenos, a mecanização pode ser extremamente prejudicial ao solo, pois o comprime, não permitindo a entrada de oxigênio“.

    Mais uns probleminhas: o avança da monocultura de cana na região amazônica, em terras ainda não devastadas, provocando o enfraquecimento do solo; o abandono de culturas tradicionais em prol da cana-de-açúcar; a proliferação de usinas de álcool (altamente poluentes) na Amazônia, no Pantanal e, quem sabe, em zonas habitadas, ainda que de baixa ou média densidade demográfica; a “corrida do ouro “, transformada em “corrida da cana”. Exagerei? Vejam, abaixo, a minha conclusão, em grifo:

    Nesse sentido, se não for feito um zoneamento ecológico das áreas produtivas e se todos esses fatores não forem controlados antes das autorizações de implantação das indústrias, o biocombustível, que poderia ser uma solução, poderá se transformar num “equívoco suicida” que contaminará o mundo.Pode ser a salvação ou a perdição. A chave que abre a porta da salvação está em nossas mãos; mas essa porta só deverá ser aberta quando o caminho estiver limpo e sem riscos.

    A questão aí está para ser debatida. Não só por nós, aqui no DDD. Mas por todos.

  • Gomide disse:

    Caro Antídio,
    Estou plenamente de acordo com a sua didática apresentação de raciocínios a respeito do movimento energético. Para não ser longo no artigo, ora valorizado pelo seu comentário, esclareço que me restringi apenas a um aspecto: a produção de biocombustível acelera o empobrecimento da terra, gerando um “mais” inteiramente desnecessário e prejudicial.
    Sua conclusão: “…que a produção para exportação de alimentos é muito mais nociva às áreas produtoras do que a dos biocombustíveis que exportam apenas as essências energéticas coletadas na atmosfera, deixando à mercê dos produtores a redistribuição dos nutrientes básicos. Por isso, são RENOVÁVEIS e será a solução energética para o mundo.” Nosso comentário: As premissas são falsas, logo a conclusão também é falsa. Vejamos nosso raciocínio. Na argumentação, não tivemos uma visão segmentada em “área produtora”, mas no cerne planetário básico, a terra, depositária dos elementos químicos essenciais à vivência. Em assuntos de interesse planetário, não podemos raciocinar em termos de Brasil. Não limitamos nossa visão à função “exportar”, mas ao consumo, seja ele no Brasil ou em qualquer país importador. Entendo que você foi levado a um raciocínio equivocado por situar o problema num determinado local. Eu argumentei no artigo em função do todo, com foco na substância terra. E, dentro da minha visão, sua argumentação carece de lógica, pois a produção de biocombustível sai do alimento. Ninguém produz biocombustível sem produzir alimentos. O conceito comburente está implícito no de alimento. “Quem faz mais, faz menos”.
    Como meu artigo trata da substância terra, não há como negar que, quando ela, em si, é desfalcada em 1 átomo de magnésio, fica mais pobre. Na dinâmica mecânica diária, ela é sempre doadora (pelo processo vital) e receptora (pelo processo desintegrador das rochas), sendo que a civilização atual, tecnológica e gananciosa, com super-super-população, exige aquela atividade em velocidade crescente acima de 2.000 k/h (apenas uma referência) enquanto esta se processa a 0,00001 k/h.
    Outro aspecto da questão. Você diz que o biocombustível é renovável. Sim, é renovável HOJE, enquanto o benfeitor (a terra) agüentar. Claro que para o futuro próximo… afinal, não existe milagre! Além disso, devemos considerar que qualquer combustível, com exceção apenas do alimentício e do espiritual, é INTEIRAMENTE desnecessário para a vivência natural. A cultura, no seu aspecto contraproducente, é que criou essa necessidade. Mas ela é dispensável. A natureza já deu aos indivíduos os meios de locomoção adequados a cada espécie. O desejo dos humanos em acelerar essa locomoção é que nos levou a envenenar o ar que respiramos e a esgotar a terra que nos alimenta.
    Caro amigo Antídio, este é o meu pensamento, sujeito a crítica, naturalmente.

    5 de Outubro de 2008 07:51

    PS em 11-1-2009 – Posteriormente, farei um comentário sobre as observações do ilustre ambientalista Ivo Reis. Vou apenas aguardar a tréplica do combativo amigo Antídio.

  • Considero oportuno a transcrição do comentário que fiz ontem no artigo “Porque o Etanol não é a salvação” do jovem Robson. Ele esclarecerá melhor este comentário e mais outros pontos de vista não citados aquí. Que tenham todos um bom e saudável domingo. Abraços.

    Tudo que tenho escrito é no sentido de fazer com que os leitores “entendam” e não, apenas, “saibam” que os biocombustíveis, entre os quais o etanol, quando queimados, mesmo o bagaço e palhas da cana-de-açúcar, poluem a atmosfera do mesmo modo como ocorre com a hulha, petróleo e o gás natural e seus derivados. (Acréssimo: “todas as combustões liberam no meio ambiente a energia total contida na biomassa e nos seus derivados, assim como os óxidos de carbono produzidos”.) A diferença é que, antes de poluir, os vegetais que lhes dão origem, ao absorverem a energia luminosa do Sol, absorvem, também, da atmosfera, a mesma cota de carbono que lançarão durante a combustão de seus produtos e sub-produtos, mantendo, portanto, o equilíbrio ambiental. E, ainda deixam no solo, o espaço livre para novas culturas que irão absorver novas cotas de energia e carbono para novas combustões. Por isso, são considerados renováveis. Os gases efluentes das combustões de fósseis, por não terem como ser reciclados economicamente, vêm se acumulando na atmosfera desde o início da Revolução Industrial, e causando o desequilíbrio ambiental que, ora, nos aflige.
    E no que diz a parte social, esclareço que os biocombustíveis oferecem muito mais mão-de-obra por gigacaloria produzida do que os fósseis em suas explorações e refinos, razão porque interessa menos ao sistema financeiro vigente, voltado para o lucro, e não para social.
    As vezes parece que me desvio do assunto; mas não. O que tento é oferecer aos leitores subsídios para que possam entender a origem dos problemas e a encontrarem melhores soluções para os mesmos.
    Que tenha um bom domingo é o que desejo.
    Atenciosamente,
    Antídio

  • Parabéns! Muito lúcido e esclarecedor este seu comentário, Antídio. Clareou um pouco mais as coisas. Mudando um pouco o foco do assunto, o que aqui está ocorrendo só me vem dar certeza de uma coisa: algo precisa ser mudado neste blog.

    Percebi que alguns posts antigos (como antigos me refiro aos publicados há mais de 2 meses) permanecem atuais e com os debates ainda não esgotados. Como exemplo, este excelente artigo do Gomide, que estava esquecido, lá atrás, e que só foi revivido graças a dois fatores: à idéia de colocar ao final dos posts os “artigos relacionados” e à lembrança que o próprio Gomide me fez deste seu artigo, que contava com apenas 2 comentários. E há vários outros bons artigos na mesma situação, inclusive alguns seus, Antídio. Precisamos tentar trazê-los novamente à tona.

    Bom seria se também o nosso novo companheiro Robson participasse dessas discussões.

    Estou aceitando sugestões. Abraços a todos!

  • robfbms disse:

    Antídio, transcrevendo minha tréplica dada no meu blog, eu pergunto:

    – Se o canavial supostamente reabsorve a poluição das queimadas, por que então tanta fumaça é gerada e se propaga por enormes regiões intoxicando tantas pessoas?
    – A tal eficiência energética do etanol justifica o fato de que só temos uma área de canaviais suficientemente grande para atender a uma grande demanda de automóveis porque imensas áreas florestais, leia-se mata atlântica e cerrado, foram arrasadas?
    – Os tais empregos gerados pelo etanol a mais do que os combustíveis-fósseis compensam o fato inegável de que o canavial dirigido à produção de etanol é inconciliável com uma distribuição fundiária justa?
    – Vale continuar apoiando a alcoolmania mesmo quando ela vem implicando a supressão de culturas alimentícias?

    Espero que você possa responder essas questões.

  • Robson:
    Respondendo suas perguntas:
    1º) – A fumaça que vemos na queima das palhas dos canaviais, é apenas, uma pequena fração da cota de carbono que foi coletada do meio ambiente durante os 18 a 24 meses que antecederam ao corte, tempo que dura o ciclo vital desta gramínea. A parte bem maior é a reservada para queima do álcool nos motores depois do processo de fermentação e de destilação;
    2º) – A Mata Atlântica não foi dizimada para se produzir álcool, mas, açúcar para a exportação.
    3º e 4º)
    Considere o seguinte: das fontes de energia limpa, as hídricas, estão praticamente exploradas em todo o mundo; as eólias e solares, assim como os biocombustíveis, têm, ainda custos incompatíveis com os interesse financeiros do sistema globalizado; e todas elas juntas, não atendem, sequer, a 20% das atuais necessidades do mundo. O restante vem da queima de combustíveis fósseis e atômicos. Estes, deixam resíduos radiativos cumulativos que estão sendo guardados para que sua geração, e as seguintes, venham resolver o que fazer com eles; enquanto que os resíduos das combustões de fósseis foram acumulados pelos nossos antepassados e ficaram para nós, encontrarmos soluções. Observe que: “tanto mais carbono não reciclável” for lançado na atmosfera, maior se torna o acúmulo sobre as regiões intertropicais, aumentando , proporcionalmente, a absorção de raios infravermelhos com radiação de mais calor na alta atmosfera, fenômeno que a Ciência chama, indevidamente no meu entender, de “efeito estufa”. Enquanto isso, as regiões acima de Câncer e abaixo de Capricórnio, as camadas de ozônio estão, cada vez mais adelgaçada, devido o rebaixamento atmosférico sobre os pólos, e causando as catástrofes que estão sendo registradas no mundo como enchentes arrasadoras alternando-se com secas causticantes que reduzem a produtividade agrícola e pecuária, nas citadas regiões, tanto do norte como do sul. Por isso, tanto mais combustível fóssil for queimado, mais grave se torna a situação da tal economia globalizada que faz do mundo uma bomba de pavio curto. Assim, os biocombustíveis poderão inibir uma explosão,(guerra mundial), até que a humanidade entenda que os conceitos sociais que foram implantados culturalmente têm que ser revistos, porque a Terra não é tão rica para manter os comportamentos extravagantes dos seus filhos.
    Obrigado pelo seu interesse.

  • Gomide disse:

    Amigos deste blog,

    A questão do etanol foi muito bem apresentada pelo ilustre ambientalista Robson em seu fundamentado artigo “Por que o etanol não é a salvação?”. Claro que a abordagem foi feita de forma concisa e contida, como é de praxe em exposições sob a forma articular. Mas tão bem arquitetada que transmitiu aos leitores razões plenamente aceitáveis. Acrescentaríamos que o etanol, além de ser “poluente duplo”, é também sequestrante de nutrientes do solo, como argumentamos no artigo “Biocombustível, equívoco suicida”. Os dois artigos ora comentados são produto de visões de ângulos diferentes, mas convergentes para a mesma conclusão.
    É fato que um vegetal tira sua biomassa de três fontes interdependentes: elementos químicos do solo, idem do ar e fótons vindos do sol. Esse vegetal, sendo retirado do local de nascença, leva consigo elementos químicos retirados da terra. Logo, o solo ali fica desfalcado em sua composição. Claro! Transparente! Lógico! A energia solar, sozinha, não recompõe o desgaste. Ela é apenas coadjuvante na inter-relação de elementos químicos e objeto vivente. Por isso, caro Antídio, a cultura do etanol (parece uma impropriedade) não é renovável. Sempre deixa o solo mais anêmico. Cada vez mais, até que…
    Atualmente, praticamente não há atividade agrícola sem o acréscimo pelo menos dos macro-nutrientes, NPK. Já é uma evidência de que o solo está se transformando apenas em uma simples estrutura de suporte, tal como se pratica, em pequena escala, na cultura hidropônica. Afinal, vamos praticar a agricultura por necessidade de viver (alimento) ou para manter uma cultura suicida (combustível)? Não precisa ter dúvidas a respeito de biocombustíveis, caro Ivo. É somente questão de escolha: viver ou morrer.
    Já pensaram que combustível para motores está agregado à cultura do conforto? Que é inteiramente dispensável nessa emergência em que estamos? Ainda mais que é o principal componente de nosso rumo equivocado e suicida?

  • Caríssimo Gomide:
    Se a teoria acima apresentada fosse válida, as terras de massapê no entorno da baía de Todos os Santos estariam exauridas depois de 450 anos de exploração de canas-se-açúcar sem que ninguém, nunca, as tivessem adubado. Em dererminadas áreas, rebrotamentos chegavam até a dez safras consecutivas sem que fosse necessário o replantio; apenas, um intervalo de um ano entre o fim da última colheita e o plantio da seguinte safra, período de descanso da terra quando servia como pastagem. Deixaram de ser utilizadas com tal finalidade há poucas décadas porque a dureza do solo exigia máquinas pesadas (tratores de esteiras), para revolvê-lo, tornando-se, por isso, anti-econômico o plantio para finalidade açucareira. Na produção de canas para açúcar ou álcool, não se exporta nutrientes do solo; apenas água e carbono atmosférico. Hoje, a região planta bambu (outra gramínea) para fabricação de papel para ser consumido em regiões distintas. Aí sim, exauri-se o solo porque os nutrientes são exportados na composição do papel.
    Meu cordial abraço com votos de uma boa semana.

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