O CIGARRO E A LUTA DOS AMBIENTALISTAS

07/09/2009
by mgomide3

Todos conhecem as fotogravuras que são impressas nos maços de cigarro. São documentos impressionantes que escancaram ao destinatário as tragédias advindas do vício do fumo. Quando um fumante compra um maço de cigarro, não há como não ver tais desgraças. As cenas estampadas são fortes, impressionantes. É uma mensagem direta, indicando os efeitos de tal vício. E, no entanto, muitos continuam fumando; cada vez mais e mais. Ficamos pensando o que se passa na cabeça desses fumantes!

Isso requer uma análise racional profunda. Tal realidade provoca a visão, inicialmente incompreensível, de que uma pessoa – ante uma alternativa radical – escolhe morrer a deixar de fumar. Que força maior pode existir a ponto de vencer o próprio instinto de viver, presente em todos os seres vivos? Há nisso masoquismo ou desejo de suicídio? Quão irracional pode ser o humano na presença de um fato gritante que lhe tira a vida? Essa circunstância ilógica nos impele rumo a um exame acurado dessa contradição.

Na busca de compreensão, encontramos alguns aspectos esclarecedores mas tristes. Existe um embate de forças que provoca a irracionalidade e no qual o corpo sucumbe. É o domínio do uso da razão por algo muito forte que lhe tolhe ou impede o exercício da vontade. Tem relação com a paixão e fanatismo, mas é mais específico. De onde vem essa força dominante? Entendemos que, frente à imposição de um vício, impondo uma ação não voluntária, o indivíduo desdenha a razão e opta pelo prazer, conforto de satisfação, conformismo, preenchimento de uma falta. Sutilmente, é a troca de um bem espiritual – salutar e natural – pelo comodismo material – prazer do corpo. A resposta de um viciado de cigarro, num diálogo, é sempre a mesma: ”ah! deixa pra lá”, ou “azar!”, ou “agora, não tem jeito”, ou “no ano que vem eu paro”.   

Fazendo um paralelo com os argumentos e alertas dos  ambientalistas, as  populações   estão  cientes  de que estamos rumando, celeremente, para o suicídio planetário. Nesse envenenamento do meio vivencial, serão vítimas todos os animais superiores (com salvação provável apenas dos insetos e microorganismos); todos, inclusive nós mesmos. No entanto, o causador da situação caótica continua em sua atividade civilizacional de auto-extermínio. A atitude oral do homem moderno, num diálogo sobre o iminente perigo ambiental, é sempre a mesma: “ah! deixa pra lá”, ou “azar!” ou “agora, não tem jeito”, ou “no ano que vem eu assumo”. A mesma condicionante mental do fumante viciado. Ambas as posturas têm a mesma origem: vícios da modernidade, ou vício cultural, ou condicionante civilizacional. Isso é verdadeiramente uma alienação da vida. É o desprezo pelo atributo mais valioso que os humanos têm, a capacidade de ser. Como? Por quê? 

Sim, impera o vício geral. O de possuir bens materiais; o do conforto; o de consumir; o da preguiça mental; o da inércia máxima. A civilização atual é um conjunto de vícios que acompanha o indivíduo desde o nascimento. O homem, em geral, se opõe a mudanças do “status quo”, porque isso implica esforço, e a modernidade lhe oferece dia-a-dia, cada vez mais conforto, o não dispêndio de energia física e mental. Hoje, visível ou sutilmente, o vício amplo na sua expressão máxima – a civilização moderna –,  domina os diversos aspectos do homem. O que se contrapõe ao vício é justamente a força vital, a vontade, o pensamento, a reflexão.

Peguemos, como exemplo, o vício do automóvel, composto de matéria básica saqueada do planeta. Vem do vício do conforto e rapidez. Rapidez é avançar sobre o futuro; tornar o futuro cada vez mais presente; fazer crescer exponencial e ilimitadamente o alcance temporal.

A Natureza nos proporcionou duas pernas. Para quê? Para o movimento do indivíduo. E elas devem e precisam ser usadas. Aliás – contra-censo! –, elas são exercitadas nas academias e também por recomendação médica. Seu uso passou de uma atividade natural para a de um recurso médico, curativo. Irracionalidade!

Alguém dirá que o automóvel é necessário. Concordamos, em parte. Esse veículo é necessário para a locomoção para idas e vindas do trabalho. Só. Mas fazemos a ressalva de que essa parte advém do crescimento ilimitado da população e da estrutura sócio-econômica. É uma conseqüência antinatural, portanto. Uma aberração. Não negamos a busca do menor-esforço que, no caso, lançaria mão de instrumentos não poluidores, como canoas e animais de força. Mas levar esse benefício da inteligência ao ponto antinatural, prejudicial, contraproducente?

Não há, sem considerarmos os vícios culturais, outras necessidades para o automóvel. Turismo é produto de excessos. Excesso de gente, de dinheiro, de tempo ocioso, de inutilidades, e está inserido também no conjunto vicioso do ambiente cultural. Tudo o mais, quanto ao seu uso, é supérfluo e danoso ao meio ambiente.

Devemos entender que o interesse de manutenção da Vida se sobrepõe aos interesses individuais. De que adianta preocupar-nos com a moda do sapato feminino, o último modelo de computador, a cura de doenças, etc. se tudo isso é dependente de existirmos? Preservar a vida: eis o objetivo maior. Satisfeita essa parte essencial, as vaidades humanas podem ser exercitadas.

A modernidade e seus vícios inerentes sangram os recursos do planeta. Os tempos atuais estão indicando procedimentos de renúncia e não de esbanjamentos cometidos em holocausto aos vícios. Estamos às vésperas dos tempos das 7 vacas magras, sem que haja perspectiva de vacas gordas.

Esta civilização é autofágica e os ambientalistas estão alertando para isso. Mas os que têm poder de decisão estão cegos pelos vícios implantados pela atmosfera econômica dominante.  

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10 Comentários

  • Pedropmt disse:

    Realmente,

    A razão não tem à priori, o controle total sobre a vontade.

    Somos vulneráveis, a ansiedade denuncia nossas carências psicológicas, emocionais e físicas.

    O prazer não é antídoto para a carência, seu efeito é paliativo, ao invés de saciá-la, pode até mesmo agravá-la.

    O efeito do prazer é analgésico, deixando a razão sob efeito tranquilizante.

    Perante a Vontade, o Prazer coloca a Razão fora de combate quando nos sentimos muito carentes, situação esta corriqueira, infelizmente.

    A carência só pode ser sanada através da busca pela plenitude do ser (caminho do auto-conhecimento, auto-disciplina, auto-determinação).

    A carência subtrai nossa autonomia de escolha (auto-determinação), porque nossa disciplina não foi exercitada pelo auto-conhecimento.

    Contudo, o forte sentimento de uma grave e eminente perda pode ainda despertar nossa essência, sobre a ilusão do prazer.

    A Dor vivenciada em níveis representativos pode desmascarar a ilusão do Prazer, mas vários danos já sofridos serão irreversíveis.

    Contudo, a percepção da ilusão (auto-conhecimento) pode ainda colocar a auto-disciplina a postos, movendo a auto-determinação.

    O Auto-conhecimento é um caminho estreito e desafiador pois, para saber que o prazer é uma ilusão, não pode se distanciar muito da percepção da dor.

    Na sociedade em que vivemos, falar de dor é um absurdo, com tantas opções de prazer a disposição…

    Contudo, quem procura o prazer manifesta carências.

    O prazer vicia como cocaína, não elimina a carência, suprime momentaneamente sua angústia mas potencializa sua força.

    O conhecimento da Dor liberta, o Prazer encarcera.

  • Pedropmt disse:

    Parabéns pelo Texto.

  • Será que você é o meu grande amigo “pedropmt”, do Y!R? Se for, seja bem-vindo ao nosso espaço e saiba que aqui você encontrará vários companheiros que se afinam com as suas idéias, a começar pelo Gomide, o autor deste texto. Aliás, o Gomide sempre me lembrou muito você e é o meu “pedropmt” daqui.

    Se começar a percorrer os artigos dele, verá o quanto são parecidos. O texto é uma reflexão que pode ser comparada com o que se faz com a natureza em relação aos “vícios de consumo” e estabelece uma correlação brilhante e muito apropriada.

    Volte mais vezes, Pedro. Aqui você se sentirá em casa. Diminuí a minha freqüencia no Y!R, por estar cuidando dos meus sites. Se vier, nos encontramos e conversamos aqui. A propósito e só por curiosidade: como nos descobriu?

    Abraços!

  • Antídio S.P. Teixeira disse:

    Gomide:
    Este paralelo que você traça entre o vício de fumar e o de consumir é o mais clarividente para que os descrentes entendam a profundidade do abismo para o qual arrastam a vida terrestre. Com a sua permissão, ele poderá servir de instrumento para a ação de ambientalistas em seu trabalho de conscientização da realidade ambiental. Ele deve ser divulgado não, apenas na Internet, mas, em todos os veículos de comunicação que atinjam adolescentes e jóvens. Com sua autorização, encaminharei para tablóides estudantis e de bairro.
    PARABENS.
    Antídio

    7 de Setembro de 2009 03:57

  • mgomide3 disse:

    Caro Pedropmt,
    Você exercita a reflexão para concluir que há carências no viver da humanidade. Há mesmo. Há dois tipos de carência. No campo da materialidade, há tantos bens produzidos para ganho de dinheiro quantas são as estrelas no céu. Resultado: os desejos de posse, estimulados ao máximo pelas artimanhas do marketing, são sempre buscados mas nunca alcançados, porque diariamente são manipulados com novos encantos. Por isso, vemos hoje que os ganhos mensais do chefe da casa são insuficientes. A ânsia de aumentá-los, para gastar com supérfluos, joga a fêmea na arena do ganha-ganha. Filhos? Já não são produto familiar, porque família e lar não existem. São bonecos biológicos, criados para dar continuidade às necessidades de consumir, provocando o vazio do lar; lar que passa a ser dormitório de um conjunto de pessoas. Lar, verdadeiramente, não é casa, é ambiente, convivência, participação. As crianças de hoje não sabem, mas têm carência de bens da alma. E vão crescer sem saber a natureza de suas carências. Essas são o segundo tipo de carência. A humanidade está se tornando um conjunto de autômatos.

  • mgomide3 disse:

    Caro Antídio,
    O que minha consciência produz não é meu; é do mundo. Em assuntos ambientais, minha voz não é minha; é a da Terra e a de todos os ambientalistas que não visam interesses materiais. Para ficar claro, você e todos os ambientalistas do mundo têm minha permissão para divulgar tudo o que eu publicar, por qualquer meio que for escolhido.

  • Gomide:

    Ocorreu-me agora uma reflexão estranha: Quantos Gomides existem por aí? Seriam muitos? Por que seus pensamentos não são divulgados, universalmente e por que não são ouvidos? É muito estranho. O que é necessário para que um brilhante pensador possa ter suas idéias divulgadas?

    A humanidade tem carência de pessoas como você – e suponho que, embora poucos, deve existir um bom número de Gomides por aí, suficientes para promover mudanças. A questão é: quem são eles? Onde estão? Por que são desconhecidos, quando deveriam ser conhecidos de todos?

    Os “Gomides” são idealistas, pensadores ambientalistas preocupados com o futuro da humanidade, e que, sem nada pedir em troca, alertam, alertam, alertam, propõem soluções, pedem união, pedem providências, cansam-se até neste mister e, mesmo quando conseguem se fazer ouvidos, aqueles que os ouvem fazem “ouvidos moucos”. Por que isto acontece?

    Se você souber, explique! Veja o paradoxo: Se fosse uma “Xuxa” da vida ou um “Pelé” que tivesse as suas mesmas idéias e se empenhasse em divulgá-las, até onde teriam chegado?

  • mgomide3 disse:

    Prezado Ivo,
    Você recebeu o e-mail “I’m in; tô dentro”? Peço-lhe colocar no seu blog e no meu o vídeo ali referido. Vai esclarecer coisas para muita gente.
    Quanto às suas dúvidas, parece que esclareço pouco. Vamos ver… Para pensar como tenho pensado, são necessárias apenas duas posturas: Percorrer a vida com observação e reflexão. Ah! E também aprender com os outros que, aliás, nada mais é do que “observação”.
    Um abraço.

  • Gomide:

    Antes mesmo de você pedir, já estava preparando uma matéria sobre aquele vídeo, que apresentarei junto com um outro. Na realidade, será uma matéria com 2 vídeos, estabelecendo paralelos. Gostei muito. Sempre que tiver novidades semelhantes, envie. Isto ajudará a compor e selecionar as matérias.

    Bação!

    PS: VOCÊ ENROLOU MAS NÃO RESPONDEU À MINHA PERGUNTA. ESTÁ DEVENDO.

  • O homem, em geral, se opõe a mudanças do “status quo”, porque isso implica esforço, (…)

    Posso incluir entre essas mudanças o abandono do próprio ato de deixar de chamar “homem” o ser humano indistinto de sexo.

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