CARTA ABERTA DE EMPRESÁRIOS

28/08/2009
by mgomide3

 

Em Setembro próximo será realizada em Pittsburg uma reunião do G-20, ocasião em que os principais paises da economia mundial vão discutir a estratégia a adotar na participação do impactante COP 15 – 15ª. Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima – que ocorrerá em Copenhague em dezembro deste ano. Ela servirá de tomada de posição para a reunião preparatória em Bangkok, tudo como arranjos e entendimentos dos países de força econômica para que aquele fórum lavre um documento que substitua o Protocolo de Kyoto.

Já estamos vendo o caminho deslizante desses inúteis encontros, mas também notamos estarem os empresários brasileiros começando a enxergar a gravidade da situação descrita no 4° relatório do IPCC. Com a publicação da “Carta aberta ao Brasil sobre mudanças climáticas – Nossa Visão”, diversos empresários demonstram perceber que a situação histórica por que passa o planeta não é “Conto da Carochinha”, a ser usada apenas como recurso de marketing, mas um “bicho papão”, real, concreto, efetivo, trágico. Vêem também que, para a normalização climática, são necessárias medidas concretas, extensivas ao planeta, que tornariam inviável a atual estrutura econômica. Isto é: as medidas para salvar o planeta são incompatíveis com o regime econômico vigente. E esse é o “calo” dos donos do dinheiro. Alguns empresários estão enxergando, agora, o que os ambientalistas há tempos apregoam com denodo.

Está a estrutura econômica diante de um desafio no qual a Vida está em jogo. É agir – e com urgência – ou perecer  juntamente com as gerações futuras, impossibilitadas até de  nascer. Estamos, historicamente, encerrando uma Era – a  Econômica – para entrarmos na Era da Incerteza.   

Causou-nos certa emoção a carta, amplamente divulgada em 25.8.2009, por 22 importantes empresas brasileiras reconhecendo a validade das admoestações feitas pelos ambientalistas. Põem em relevo, na mencionada carta aberta, o desafio civilizatório apontado pelo IPCC ao limitar a concentração de CO2 na atmosfera, neste século, a 18 Gt CO2e/ano. No entanto, reconhecem que atualmente as atividades econômicas humanos  estão produzindo ao ritmo de 40 Gt CO2e/ano (!!!), o que representa uma tragédia anunciada. A carta implica a “mea-culpa”. Tardia, porém válida.

Mas, ainda aprisionados ao amor por bens materiais e sensíveis aos valores da cultura individualista, declaram que estão dispostos a entregar à causa um ou dois anéis que ostentam nos dedos, como se isso fosse suficiente para lhes salvar o pescoço. Falam no documento em “novo modelo de desenvolvimento” (haa! Como se agarram ao desenvolvimento!), planejamentos para 2020 (é tarde!) e redução de desmate em 80% (100% é o mínimo!).

De joelhos, à frente do confessionário, fazem uma solene listagem de promessas redentoras, na suposição de que essa entrega espiritual vá suprir os desfalques planetários. Com efeito, prometem um elenco de propósitos que não constam nas leis naturais que regem a biosfera, tais como:

   a – relatórios de… (bla-bla-blá);

   b – adotar estratégias condizentes… (com bla-bla-blá);

   c – buscar redução de emissão de CO2… (buscar não é medida efetiva);

   d – tentar convencer terceiros… (tentar!!!);

   e – esforçar-se para compreensão… (esforçar-se!!!).

 

A carta que é longa, séria e sincera, configurando a visão deles, está indicando que alguns empresários já estão conseguindo ver a uma distância de até dois metros (o ideal seria quilômetros), o que lhes permite retroceder dois passos do abismo. É uma visão reduzida, míope, mas é melhor que a cegueira. No final, demonstram a pureza de intenções e sugerem ao governo brasileiro uma série de atitudes, todas elas inócuas como temos visto através da imobilidade do ministério do Meio Ambiente.

Nos aspectos em que a carta se mostra, os comandantes de economias inseridos nos outros paises têm melhor visão. O importante economista inglês Nicholas Stern já declarava, há poucos anos, que o preço de não fazer nada, no futuro próximo, será maior do que agir agora, com urgência.

Pelo exposto, o “gigante” começa a se mover. Só isso já basta para nos causar uma tênue esperança.

 

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4 Comentários

  • Gomide:

    Não fazer as coisas certas – e todos poderiam fezer, se quisessem – é sempre em razão do velho problema econômico da busca inconseqüente pelo lucro. É aquela filosofia criminosa e irresponsável: “Vamos aproveitar enquanto podemos e estamos aqui, porque um dia isto vai acabar”. Acredito que, em linguagem popular, é mais ou menos assim que os “donos de mundo” pensam. E os empreários fazem parte dessa elite.

    Como já foi dito em um artigo aqui mesmo, enquanto não se colocar em prática um novo modelo econômico mundial que leve em conta os aspectos ambientais, isto deve continuar. É muito difícil espantar os leões para longe da carcaça que consomem. Só vão sair quando só restarem os ossos.

    Esta na hora de se criar e ensinar nas escolas uma nova economia: a ECOECONOMIA. Talvez um sistema econômico assim, se houver tempo, resolva.

  • mgomide3 disse:

    Caro Ivo,
    Hoje, faltando 100 dias para a 15a. COP, houve um movimento público aqui em Belo Horizonte(MG), capitaneado pelo Greempeace. A tônica do movimento foi a batalha para sensibilizar os governos para a gravidade da situação ambiental. Meio tarde, mas já estão enxergando que o cerne do problema está em decisões governamentais. Reverter a situação com atitudes individuais pífias nada mais é que um pingo de água no oceano. Isso é assunto de governo representativo global, mas agitando os de caráter nacional já é um bom começo. Pelo menos, demonstra que estão enxergando um pouco mais longe. Como você disse, a questão é saber se haverá tempo.

  • Júlio de Sanctis Gonçalves disse:

    Todos nós sabemos que o poder de decidir sobre as questões vitais do planeta está nas mãos dos políticos e, secundariamente, nas dos grandes empresários. Não deveria estar nas mãos do povo? Mas onde está o povo? O que o povo está fazendo? Por que não grita e não protesta?

    Isso é o que não consigo entender.

  • mgomide3 disse:

    Prezado Júlio,
    O povo, também conhecido como “massa”, é um conjunto disforme, sem caráter definido, interessado em cuidar de seus interesses individuais segundo orientaçao da mídia. Esta lhe informa o que está na moda, o que é bom, o que é mau, o que deve desejar, o que fazer, etc. A midia é a condutora de sua vida. Para que pensar? A mídia pensa por ele. É muito cômodo viver segundo uma orientaçao diária emanada de quem, aparentemente, tem as qualidades inerentes a um pai, dono da verdade, fonte de toda a credibilidade.
    Se a mídia levantasse a bandeira do ambientalismo (um paradoxo, porque ela é sustentada e vive em função da estrutura econômica), seria um polo aglutinador de movimentos, ações, decisões, etc. do povo. Ah, coitado do povo…

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