COLAPSO MUNDIAL ?

19/08/2009
by mgomide3

 

Damos abaixo, em cumprimento ao nosso desejo construtivo de divulgar esclarecimentos formulados pelo eminente pensador Leonardo Boff (www.leonardoboff.com), o teor de mais um  brilhante artigo, versando sobre a problemática ambiental.

 

EXTRAPOLAÇÃO E COLAPSO DO SISTEMA MUNDIAL?

 

“Os formuladores da visão sistêmica chamam a este fenômeno de extrapolação e colapso. Quer dizer, extrapolamos os limites e rumamos para um colapso.

Como nunca antes, se fala hoje em todos os paises e foruns, de desenvolvimento-crescimento. É uma obsessão que nos acompanha já há pelo menos três séculos. Agora que ocorreu o colapso econômico, a idéia retornou com renovado vigor, porque a lógica do sistema não permite, sem se autonegar, de abandonar essa idéia-matriz. Ai das economias que não conseguem refazer seus níveis de desenvolvimento-crescimento. Vão simplesmente sucumbir junto com uma eventual tragédia ecológica e humanitária.

Mas precisamos dizer com todas as palavras: essa retomada é uma armadilha na qual a maioria está caindo, inclusive Bento XVI na sua recente enciclica Caristas in veritate, toda dedicada ao desenvolvimento. Isso pôde ser verificado quase unanimemente, nos discursos dos representantes dos 192 povos presentes na ONU no final de junho. A grande exceção, que causou espanto, foi a fala inicial e final do Presidente da Assembléia da ONU, Miguel d’Escoto, que pensou para frente na lógica de um outro paradigma de relação Terra-Vida-Humanidade-Economia e subordinando o desenvolvimento a serviço destas realidades axiais. De resto, não se dizia outra coisa: há que se retomar o desenvolvimento-crescimento senão a crise se pereniza.

Por que digo que é uma armadilha? Porque, para alcançar os índices mínimos de desenvolvimento-crescimento de 2% anuais previstos, precisaríamos, dentro de pouco, de duas Terras iguais a que temos. Não o digo eu, disse-o o ex-presidente francês J. Chirac por ocasião da publicação em Paris no dia 2 de fevereiro de 2007 dos resultados do aquecimento global pelo IPCC. Repete-o com frequência o renomado biólogo Edward Wilson e o formulador da teoria da Terrra como Gaia, o cientista James Lovelock, entre outros. A Terra está dando inequívocos sinais de estresse generalizado. Há limites intransponíveis.

Recentemente, o Secretário da ONU, Ban-Ki-Moon alertou os povos de que temos cerca de dez anos apenas para salvar a civilização humana de uma ecocatástrofe planetária. Num número recente da revista Nature um prestigioso grupo de cientistas publicou um relatório sobre “Os limites do Planeta” (Planetary Boundaries) onde afirmavam que em vários ecossistemas da Terra estamos chegando ao pico (tipping Point) com referência à desertificação, ao derretimento das colotas polares e do Himalaia e à crescente acidez dos oceanos. Cabe aqui citar, a meu ver, o estudo mais bem fundado dos autores do legendário Os limites do crescimento do Clube de Roma de 1972: D. Meadows e J. Randers. O livro deles de 1992 tem por título que é um alerta: Além dos limites: colapso total ou um futuro sustentável.

A tese destes autores é de que a excessiva aceleração do desenvolvimento-crescimento das últimas décadas, do consumo e do desperdício, nos fizeram conhecer os limites ecológicos da Terra. Não há técnica nem modelo econômico que garanta a sustentabilidade do atual projeto. O economista Ignacy Sachs, amigo do Brasil, um dos poucos a propor um ecosociodesenvolvimento comenta: ”Não se pode excluir a idéia de que, por excesso de aplicação da racionalidade parcial, acabemos numa linha de irracionalidade global suicida”(Forum, junho 2009 p.19). Já afirmei neste espaço que a cultura do capital tem uma tendência auto-suicida. Prefere morrer a mudar, arrastando outros consigo.

Os formuladores da visão sistêmica chamam a este fenômeno de extrapolação e colapso. Quer dizer, extrapolamos os limites e rumamos para um colapso.

Serei pessimista? Respondo com José Saramango: “não sou pessimista, a realidade é que é péssima”. Efetivamente, ou abandonamos o barco do desenvolvimento insustentável na direção daquilo que a Carta da Terra chama de “modo sustentável de viver” e os andinos de “bem viver” ou então aceitaremos o risco de sermos despedidos deste planeta.
Mas como o universo é feito de virtualidades ainda não ensaiadas, esperamos que surja uma que nos salve a todos.”

 

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8 Comentários

  • Diego disse:

    Oi amigo, vim visitar seu espaço e to olhando ainda. Só nao consegui colocar recados ali.
    ahahah
    valeu pelo convite

    abraços

  • Gomide e todos que lerem este maravilhoso artigo:

    Alguns (poucos, felizmente) que visitam este blog, acusam-nos de “catatrofistas ambientrais”, por fazermos alertas alarmantes quanto ao meio ambiente e a convivência planetária. Mas como ficar omisso? Como não denunciar? As coisas estão na nossa cara, saltando aos nossos olhos e as pessoas não querem ver, à exceção de uns poucos. Alguém por acaso teria coragem de discordar – com argumentos convincentes – dessa verdade expressa no artigo do brilhante pensador Leonardo Boff? Seria ele também “catastrofista”?

    De há muito, eu e alguns colegas ambientalistas daqui (procurem as matérias sobre o assunto) estamos percebendo que, além de todos os problemas ambientais por que passa o planeta, há um outro, bem sério, e que ainda não teve a atenção e preocupação devidas: o excesso populacional, o aumento pela procura dos recursos naturais e a diminuição da capacidade do planeta para provê-los”. Se fizermos um cálculo com a “pegada ecológica” de cada habitante, veremos facilmente isso. Por esses cálculos, a capacidade do planeta em prover recursos para os seus atuais habitantes já estaria suplantada em 30%. E daqui a 10 anos, quanto será?

    Este é um perigoso trinômio de condições, muito mais preocupante do que o “aquecimento global” (real, fabricado ou supervalorizado?), efeito estufa, desmatamento, desertificação e tantas outras mazelas ambientais. E é mais perigoso porque pode atingir ao seu clímax em poucos anos. Em pouco mais de uma década, se não forem adotadas medidas preventivas JÁ, o planeta poderá virar um caos e a humanidade entrar em guerra genocida.

    Sou um entusiastas das teorias de James Lovelock e se alguém se dispuser a ler a sua trilogia de livros sobre o planeta TERRA, verá que isto não está muito longe de acontecer. Que os governantes do mundo vejam isso, é a nossa única esperança.

  • Antídio S.P. Teixeira disse:

    É para esta realidade incômoda que os consumistas se fecham, esperançosos em milagres divinos ou da ciência. Para eles, melhor morrer com conforto do que lutar pela continuidade da vida de seus descendentes.

  • mgomide3 disse:

    Caro Ivo,
    Seu comentário constitui um reforço aos argumentos alinhados no artigo. Contudo, entendo que paira em diversas mentes de ambientalistas uma visão ou entendimento condicionado pela mídia, inteiramente equivocado a respeito de correlações. Como muitos pensam, e você inadvertidamente também, há uma dicotomia não causal nos processos ambientais. Você diz (adaptação minha): “além de todos os problemas ambientais – aquecimento global, efeito estufa, desmatamento, desertificação e tantas outras mazelas ambientais – há um outro: o excesso populacional”. Não há o outro. O outro é justamente a origem de todos os desequilíbrios ambientais que você apontou. O excesso populacional é a causa básica, e as mazelas ambientais as conseqüências.
    Retire-se da equação ambiental esse fator determinante e o resultado será alterado drasticamente.
    Ainda não fiz uma abordagem dramática desse aspecto em meus artigos, porque acho cedo para “abrir as comportas”.
    Mas o assunto foi destaque no enredo do meu livro “Agora ou Nunca Mais” e será objeto de um arrazoado consistente em futuro próximo.

  • Faça-o logo, Gomide, com mais intensidade, apesar de você já ter deixado clara essa preocupação em seu livro, como percebi. Mas o seu livro, conquanto muito bem engendrado e escrito, com uma ficção que poderia (ou ainda poderá) ser uma realidade, exige um certo grau de reflexão que, infelizmente, poucas pessoas querem ter o trabalho de ter. O povo, em geral, não gosta de pensar e muito menos de ler, a não ser manchetes de jornais. E, a bem da verdade, são imediatistas e descompromissados com o coletivo. Como o Antídio disse, “para eles, melhor viver em conforto do que lutar pela continuidade da vida dos seus descendentes”.

    Então, veja a encruzilhada a que chegamos e que seria facilemente esclarecida se a mídia se engajasse em uma campanha: os governantes, que em sua maioria teriam a capacidade de entender os alertas e fazer alguma coisa para mudar, preferem se omitir, por razões econômicas egoísticas e irresponsáveis; o povo, já com pouca predisposição para ler, prefere engulir notícias prontas, plantadas proposirtalmente, mesmo que sejam mentirosas. Povo gosta de repetir o que todo mundo fala. Isto para eles é estar atualizados.

    Por isso, escritores, ambientalistas, simpatizantes, pessoas preocupadas com as questões ambientais, de todos os cantos do mundo, têm de botar mesmo a boca no trombone, escrevendo ou falando, fazendo a tal “propaganda boca-a-boca”. Para isso, têm de induzir o povo a ler, torná-los esclarecidos. E é nesse particular que entramos nós todos, com a nossa humilde parcela de colaboração. Se para pôr esse povo para pensar tivermos de falar na língua deles, vamos tratar de aprender e fazê-lo.

    Gomide, não espere! Dê, o quanto antes, as suas marteladas. Você daí, nós daqui, outro de lá, e de lá e de lá, martelando juntos, talvez consigamos fazer algum barulho e , quem sabe, eco.
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    Em tempo: Recebi hoje a 1ª resposta do escritório de advocacia especializado em causas ambientais e amanhã estarei retornando o email (já comentei com você sobre isso, não?). Assim que tiver novidades mais concretas sobre o assunto, retorno. A coisa não é tão complicada quanto eu pensava.
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  • mgomide3 disse:

    Caro Ivo,
    Você tem razão quando diz que meu livro “exige um certo grau de reflexão”, e que o povo, em geral, não quer ter o trabalho de pensar. Realmente, tenho esse hábito: escrever indicando ao leitor um caminho para meditar; é um convite ao leitor para participar ou compor a alma do conteúdo; torná-lo um co-autor. Recomendo que cada parágrafo deva ser sorvido calmamente, com paradas convenientes para digeri-lo. Participando. Somente assim, o leitor terá uma visão completa de toda a mensagem ali contida.
    Contudo, não tem razão quando o classifica de”ficção que poderia ser uma realidade.” Ele todo é realidade; desde o início. Ficção é apenas a embalagem, a moldura, o aspecto dramático, o cenário, essas coisas necessárias para compor uma narração, não a tornando enfadonha. A tela, o conteúdo, a essência, o cerne, a mensagem, o principal, são uma fotografia da realidade.
    Já prevendo essa leitura unilateral, sem co-autoria, é que senti a necessidade de lavrar um posfácio, onde explico a lógica do trabalho, deixando ao raciocínio do leitor a conclusão de que se trata de uma obra real. Não há como fugir disso: depois de uma segunda-feira, chegaremos inapelavelmente a um sábado. O Tempo, principal personagem oculto do livro, não pára. É da lógica de que chegaremos lá.
    Para melhor compreensão das afirmações acima, esclareço que a primeira parte do livro é inteiramente verdadeira. Eis que, afora a moldura, a projeção temporal de Guilherme nada mais é que a essência do relatório dos cientistas reunidos no “Clube de Roma”, em 1972, quando transmitiram ao mundo que o progresso material é incompatível com a preservação do meio ambiente. Outros fóruns posteriores confirmaram essa posição. Somente o relatório do IPCC, em Fevereiro de 2007, mais incisivo e preocupante, ainda não tinha sido publicado quando fechei o livro.
    Nessa primeira parte, empreguei a técnica da didática, por julgá-la necessária para o leitor conhecer por inteiro o assunto ambiental em que estamos inseridos. Constituiu, também, um alicerce à introdução da minha tese final.
    A segunda parte, toda ela metafórica, apresenta uma realidade também. Não nos detalhes, que são cenários literários, mas no ambiente caótico, na convulsão, no confronto, na ausência de valores humanos, na tragédia social. Claro! Se não forem tomadas providências efetivas, sob um comando único, a baderna é o único caminho que existe. Foi resultante de longo raciocínio lógico. Isso é parte da tese.
    A terceira e última parte, afora a moldura, tem seu foco em fatos reais. A narração da questão militar é real e me baseei em documentos que tenho em meus arquivos. Apenas cito que os fatos ali descritos têm como fonte as publicações inglesas revista Fortune e o jornal The Observer, além da edição especial na internete da Scientific American. As mídias mundiais desconheceram o assunto e, por isso, o mundo não ficou sabendo. Tal abordagem, segurança nacional dos EE.UU., volta agora como nos dá notícia o artigo postado por mim neste blog em 21.8.09.
    A continuação da terceira parte é a finalização de minha tese: a de que estamos numa bifurcação civilizacional e que há apenas um caminho a seguir. Aquela sugerida no final, que é arrematada (última frase do livro) com uma bela metáfora, portadora de uma mensagem de esperança para um futuro que pode ser próximo ou longínquo, dependendo da atitude dos nossos governantes. De qualquer forma, é uma mensagem de esperança para a Vida. Se não for a do Homo Sapiens (futuro próximo), será a de Gaia (futuro longínquo).
    Teria muito ainda a falar sobre o livro, mas um comentário não comporta grande extensão. Fica para outra vez.

  • Caro Gomide:

    Quando me referi a “ficção”, quis dizer o gênero literário. E Entendi que, embora escrita nesse gêenero, a obra se baseia em dados reais, misturados a uma trama para poder engendrar a história e prender o leitor. Você se esqueceu que eu li o seu livro? Claro que entendi os seus propósitos. O que quis dizer é que o leitor comum, peguiçoso, não quer fazer as pausas necessárias para reflletir, como tem de ser feito.

    Espero ter-me justificado.

  • mgomide3 disse:

    Estimado Ivo,
    Quanto a você está tudo explicado. É isso mesmo, o que você disse. Eu já sabia e sei que você é suficientemente inteligente para ter captado “in totum” a mensagem, assim como os demais colaboradores do DDD que tenham lido o livro. Mas me vali do “gancho” para esclarecer aos eventuais distraidos outros. Como nossos comentários são lidos por diversos leitores, julguei apropriado fazer um pequeno esclarecimento, pondo em evidência essa realidade. Pelo menos, serviu para abrir os olhos de muita gente. Sem minha intervenção, eles teriam entendido que tudo não passa de uma ficção. Nunca é demais martelar para eles que a situação é real. Entendo que os nossos comentários se tornaram úteis, utilíssimos!
    Um abraço. Maurício

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