Desvio de Conduta Social Humana

15/08/2009
by Antidio Teixeira

O belo artigo do Frei Beto é uma pérola que nos mostra quanto a humanidade se afastou de seus caminhos naturais e, complementando, a causa do desequilíbrio socioambiental que aflige a quem os ambientalistas que já detectaram:

DO MUNDO VIRTUAL AO ESPIRITUAL
Por Frei Betto

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China.. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: ‘Qual dos dois modelos produz felicidade?’

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: ‘Não foi à aula?’ Ela respondeu: ‘Não, tenho aula à tarde’. Comemorei: ‘Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde’. ‘Não’, retrucou ela, ‘tenho tanta coisa de manhã…’ ‘Que tanta coisa?’, perguntei. ‘Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina’, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: ‘Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!’

Estamos construindo super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: ‘Como estava o defunto?’. ‘Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!’ Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra!

Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil – com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos.

A palavra hoje é ‘entretenimento’ ; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: ‘Se tomar este refrigerante, vestir este tênis,­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!’ O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes.. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma su­gestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor..

Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno.. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade – a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista.. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno… Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald’s…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: ‘Estou apenas fazendo um passeio socrático.’ Diante de seus olhares espantados, explico: ‘Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: ‘Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.’

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5 Comentários

  • mgomide3 disse:

    Sutil crítica de frei Beto ao consumismo. Ele aponta também as consequências espirituais e sociais desse desvão, filho da mídia. O tema abordado é de estrema importância, posto que põe em evidência o desvio civilizacional por que passa a humanidade. Na verdade, ele foi até muito condescendente, pois o materialismo econômico está destruindo o próprio espírito pelo não uso. A consequência é isso ai que vemos: não há amor nos relacionamentos; nem de pais para com filhos. Filhos, atualmente, não são mais do que descendentes, herdeiros, corpos. Claro que há exceções!
    Mas estamos caminhando para uma situação de completa perversão da sociedade. Deve ser, talvez, o objetivo último do desenvolvimento materialista.

  • Uma pérola, um texto altamente reflexivo. Quantas pessoas têm a capacidade de voltar-se para si mesmas e ter uma reflexão com tal nível de discernimento e profundidade?

    O consumismo é isso mesmo: apelos constantes (visuais, auditivos, olfativos…) para se consumir e deixar constrangidos e sentindo-se miseráveis aqueles que não têm a capacidade de consumo igual ou superior à do seu semelhante. Chega a ser desumano, mas é bom que se diga, isso atinge aos fracos de espírito. os que não têm autocrítica e autocontrole. Mas como a maoiria das pessoas se deixam envolver e aceitam os estímulos ao consumismo, dá para se concluir, por aí, que a maioria das pessoas são fracas e sugestionáveis? Esta é uma questão altamente filosófica que admite várias abstrações.

    Mas, abstrações à parte, o fato é que estamos vivendo na era do consumismo inconseqüente, sem se importar, fabricantes e consumidores, com o que teve de ser sacrificado, no meio ambiente e na natureza, para sustentar os sonhos de consumo das pessoas. E enquanto a mentalidade for esta, o planeta vai pagar caro, muito caro.

  • Antídio S.P. Teixeira disse:

    Como o Frei Beto deverá ficar feliz se souber que foi lido e comentado por leitores capazer de entender plenamente a sua mensagem.
    Prabéns COMENTARISTAS.

  • Carol Cunha disse:

    Confesso que me sinto pequena ante tanta profundidade e analise tão clara dos problemas que cercam nossa geração.Olhar o mundo pelo olhar de um sábio é uma experiência inegualável que te leva por caminhos antes nunca imaginados,ou então muitas vezes percorridos sem a sutileza do observador.Quando entramos no mundo de pessoas assim, mudamos nosso caminhar,conseguimos ver além do simples olhar.Um alerta e mais uma voz a se somar ao grito da terra ,da agua e do ar:”Homens acordem,antes que seja tarde demais”.

  • Lindo comentário, Carol: Repito a frase do Antídio: “Como o Frei Beto deverá ficar feliz se souber que foi lido e comentado por leitores capazer de entender plenamente a sua mensagem.
    Prabéns COMENTARISTAS”

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