Ocupa diariamente os espaços dos jornais e noticiários a situação política em Honduras. O presidente constitucional Manuel Zelaya foi destituído pelos militares pátrios e substituído por Roberto Micheletti. Os principais governos do mundo, inclusive o Brasil, condenaram a solução de força e estão tomando medidas no sentido de que o senhor Zelaya retorne ao mandato. Para isso, além das pressões de ordem diplomática, os EE.UU e paises da Europa implementaram ações econômicas contra o país. O governo americano cancelou “ajuda” econômica de milhões  de dólares  e impediu o embarque  de matéria prima destinada à indústria hondurenha (que pertence majoritariamente a americanos), ocasionando-lhe paralisação de atividades e a conseqüente demissão de operários hondurenhos (estes, sim, hondurenhos). A Comunidade Européia interrompeu um programa de “empréstimos”. Nenhum país reconheceu o novo governo de Honduras e todos insistem em que seja reempossado o antigo mandatário. O mundo todo contra a situação de mando desse país. E eu, sozinho, contra o mundo. Devo esclarecer logo que também sou favorável a Zelaya, mas não posso repelir minha capacidade de raciocinar, analisando sem paixão a situação desse infeliz povo que habita uma região geográfica a que chamamos Honduras.

   O que estamos assistindo é simplesmente a uma ingerência aberta na soberania de um país. Ou, por outra, fica patente que não há soberania e sim tolerância. Uns e outros países poderosos toleram a existência dos mais fracos. É uma situação pacífica de guerra. A rigor, nenhum governo estrangeiro tem o direito de modificar o curso histórico de outro país. Se  tal desenho hondurenho passa por essa fase, boa ou ruim, é assunto exclusivamente de competência de seu povo.

   Todos os retalhos do mundo são a resultante de embate de forças políticas e militares legítimas ou ilegítimas; isso não importa, mas  constitui a história de cada Estado. Se a soberania das nações é apregoada para todos os cantos – como complemento da retórica chamada democracia – perante a lógica da razão, não nos podemos servir da hipocrisia. Sabemos que estamos teorizando, pois os fatos nos indicam que sempre as nações mais fortes interferem na formação do destino das mais fracas, mas não podemos fugir de expor o resultado de nossa análise. Na estrutura mundial, feita apenas de visões econômicas, não há respeito, sinceridade, humanismo, ética; só interesses econômicos, essa força bruta, irracional que está destruindo a alma humana e o planeta.

  Além das considerações acima, cabe-nos tirar a conclusão de que o processo de invasão econômica  é sub-reptício, destrutivo de nacionalidades e que se mostra bem à vista nessas horas. Com fornecimento ou não de sangue monetário, os EE.UU. sufocam o povo cubano; obtêm a aquiescência da Polônia e República Tcheca para servirem de campo de guerra nuclear; estrangulam os direitos básicos dos palestinos; tentam subjugar a Coréia do Norte e Irã.

   As principais empresas brasileiras pertencem ao capital internacional. Isso equivale a uma corda colocada no pescoço. É só puxar, de acordo com as conveniências do dono da corda. É a globalização econômica e política. O poder militar só é chamado se a vítima opuser resistência.

  O mundo não está assentado na Justiça, mas na Força, tal como era escolhido, nos primórdios, o chefe do clã humano e o dos animais irracionais.  

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11 Comentários

  • É verdade, Gomide, e isso é uma coisa que sempre me causou estranheza. Não importando quem está com a razão, se o Governo ou a Oposição, acho que as questões políticas e econômicas internas de um país só deveriam dizer respeito a ele mesmo, sendo resolvidas por seus habitantes, pois eles, quando constituem suas maiorias, é quem sabem o que é melhor para o seu país. A mim me parece que a interferência estrangeira só seria justificável em alguns poucos casos: graves violações em massa aos direitos humanos, graves ameaças à segurança do planeta ou à estabilidade de uma grande região, com riscos aos países vizinhos, o que não me parece ter sido o caso em Honduras.

    Fazer sanções, interferência militar estrangeira e bloqueios econômicos internacionais em questões político-econômicas de natureza interna, não me parece correto e só trazem o agravamento de um problema local, estendendo-o a outras nações que poderão entrar em conflitos políticos e bélicos, em função da posição que adotarem em relação à questão. E, como sabemos, dificilmente existe consenso nesses casos: algumas nações apóiam, outras não. E, assim, começam elas, a criar pólos de conflito entre si, num problema que não lhes dizia respeito. No meio, a população, sempre correndo riscos, por causa da “guerra de interesses”.

    Quando existem vários cães comendo suculentos bifes num mesmo local e ao mesmo tempo, cada um come o seu (e tenta fazê-lo rapidamente) para avançar no bife do vizinho. Ou seja: ele já come o seu de olho no do outro e, quando terminar, vai atacar esse outro para tomar-lhe o bife. E o ser humano está se comportando da mesma forma, ou até pior, porque começa uma briga antes de acabar de comer o seu bife. Um pouco confuso, não? Mas é apenas uma alegoria para tentar explicar a visão que tenho do assunto.

    Resumindo e bem simploriamente, vejo essa situação e outras semelhantes da seguinte forma: um pequeno conflito político interno em um país remoto e de pouco peso internacional, pode gerar uma guerra intercontinental que senão debelada rapidamente, vai se alastrando, se alastrando, até correr o risco de uma guerra mundial, com o mundo divido em vários blocos. E se em alguns desses blocos estiverem uma ou mais das grandes potências… Booooooom!Tudo em nome do quê? Dos interesses econômicos e políticos dos poderes dominantes internacionais, como sempre.

    Essa questão da interferência estrangeiras em conflitos internos de um país deveria ser repensada e DISCIPLINADA por organismos internacionais, traçando normas claras que estabelecessem quando e em que circustâncias a interferência seria justificável e, ao mesmo tempo, dizendo em que situações ela não seria admitida.

    Acho que é isso o que está faltando.

  • Mr. Spock disse:

    Que tal pararmos de repetir as mentiras (ou meias verdades) divulgadas pela imprensa PTista brasileira?

    Zelaya NÃO FOI DEPOSTO PELOS MILITARES COISA NENHUMA!!! (To gritando mesmo…faltou até uma palavrinha antes do “nenhuma”, mas deixa pra lá…).

    O eleito presidente de Honduras foi destituído do cargo pela SUPREMA CORTE hondurenha (tenha lá o nome que tiver) por incompetência, desmandos administrativos, ações de lesa-pátria e otras cositas más que estamos cansados de ver por aqui tambem.

    Após a declaração de destituição, a Corte hondurenha SOLICITOU aos militares que removessem Zelaya do poder, haja vista que, em última instância, é sempre o poder das armas que é respeitado.

    Portanto, Zelaya foi julgado incapaz de permanecer no poder, apesar de eleito (será que sem mutretas?) pelo Poder Judiciário hondurenho. A ação dos militares se deveu apenas ao cumprimento de ordem judicial suprema. O resto é o resto…

  • Antídio S.P. Teixeira disse:

    GG:
    Prabéns pela sua visão imparcial do problema sociopolítico hondurenho.
    Mr. Spok:
    O que a impresa “popular” tem informado, é que o Supremo Hondurenho apresentou como motivo para a destituíção do presidente, o fato de Zelaia ter tentado realizar um plebiscito visando sua reeleição com apoio popular, como fez Evo Morales e Hugo Chavez. Não sei se o Judiciário apresentou motivos mais contundentes para para justificar ação de tal porte. O que se nota externamente é que os golpistas defendem uma ordem de interesses econômicos externos e temem o fortalecimento popular no poder. Mas, afinal, isso é democracia. A maioria manda e a minoria se opõe. Desculpem-me se estou dizendo besteira, pois, estou mais preocupado com a questão ambiental global.
    Forte abraço
    Antídio

  • @Mr.Spock: Peço que mostre os artigos da Constituição hondurenha que autorizam a deposição de um presidente por força militar.

    @Gomide: Mais cuidado ao falar de animais “irracionais”. Essa dicotomia entre “racionais” e “irracionais” é abusivamente antropocêntrica por pôr o ser humano como “superior” por ser “racional” e os demais seres vivos no escaninho da barbárie da “irracionalidade”.

    Sabemos hoje que o mais certo é definir um gradiente de racionalidade, uma vez que muitos outros animais têm sim o poder de pensar e outras habilidades que pensávamos só existir entre humanos.

  • Chiiiii!… Parece que o bicho vai pegar neste tema do Gomide. Afinal, a deposição do presidente hondurenho foi ou não lícita? (este é um dos pontos). Os outros países tinham o direito de interferir nesta questão interna? (este é o outro ponto). Deixo para vocês brigarem e elucidarem o tema, se não pararem o debate aqui.

    Abraços a todos!

  • mgomide3 disse:

    Caro Ivo,
    Obrigado pelo desenvolvimento do assunto com seu rico e esclarecedor comentário. As exceções alinhadas no seu primeiro parágrafo – no meu modesto entendimento – não procedem nem se justificam porque seriam conclusões de gênese subjetiva. Única ocorrência com que concordo: “ameaças à segurança do planeta”. Ademais, devo esclarecer que a soberania nacional está prescrita nos códigos do Direito Internacional. Só que não é respeitada pelo conceito muito mais forte da globalização (econômica, política, militar).

    Caro Antídio,
    Você soube bem compreender o objetivo do artigo. Afinal, respeitar é respeitar.

    Caro Robson,
    Em termos preciosos, procede e aceito sua observação sobre as palavras-síntese “racional” e “irracional”. Reconheço a gradativa racionalidade de todos os animais. No entanto, seu entendimento sobre minha idéia “abusivamente antropocêntrica”, está equivocado. Meu pensamento construiu não uma dicotomia, mas um paralelismo, uma analogia de procedimento entre dois tipos de animais, o humano e os demais. A propósito, devo informar-lo de que dediquei um de meus livros “a todos os meus irmãos catalogados na fauna e na flora, vítimas silenciosas da civilização moderna”. A alegoria do Ivo sobre comportamento de cães (figurativamente, é claro, porque em geral os cães são mais amigos e sinceros do que seus donos) se ajusta à minha intenção exposta no parágrafo final.

  • Opa, opa, opa! Parece estar havendo aqui uma confusão geral de interpretação quando utilizamos animais para exemplificar ou justificar nossas teorias. Então, com relação à minha parte (os outros que justifiuqem as suas), antes que me crucifiquem, vou tentar explicar melhor o que quis dizer.

    Preliminarmente, em nenhum momento disse que os animais são “irracionais”, até porque eu não tenho certeza disso. Quem garante que a lógica humana é a correta? Pela ótica dos animais, talvez sejamos nós os irracionais, porque agimos diferente deles. Se nos comunicamos entre nós pela fala e pela escrita, por que não poderiam os animais se comunicar entre eles com sua linguagem própria e gestos, ininteligíveis para nós? Se nós não entendemos a linguagem deles, eles também não entendem a nossa; se fazemos coisas complexas como construir coisas e viajar no espaço, eles também as fazem, no seu universo, que não é o mesmo nosso. Veja-se a estrutura colaborativa das formigas e das abelhas, por exemplo. Fazem coisas que nós, humanos não conseguiríamos fazer com a mesma perfeição. Então, tudo é relativo. Mas isso já é uma questão filósófica que não vem ao caso aqui. Só citei para justificar meu posicionamento quanto a essa complexa questão.

    Depois, eu fiz questão de dizer que o exemplo que dei com os cães era apenas uma alegoria de fácil compreensão. E me pareceu um exemplo apropriado porque é exatamente assim que os cães agem, atendendo ao seu instinto natural. E prossegui tentando demonstrar que enquanto os cães agem “por instinto” o homem age “por cobiça” e conscientemente. O que não seria condenável em um, porque natural, é condenável em outro, porque antinatural. Será difícil de entender isso?

    Agora respondendo especificamente ao Gomide:

    As 3 exceções que eu citei eu as mantenho porque o disciplinamento que existe nas normas de direito internacional, parece não ser suficiente para impedir e/ou disciplinar a interferência estrangeira nas questões internas de um país. É claro que sou contra a que qualquer nação ameace a soberania de outra, mas abro exceções: 1) violações em massa dos direitos humanos: A questão é subjetiva? É, mas pode ser arbitrada. e quanto a esse aspecto a história nos ensina inúmeros exemplos. Por que deixar uma população ser assassinada, massacrada e violentada só por não querer “interferir nas questões internas”? Sim, nesses casos (desde que não seja utilizado como falso pretexto para invadior o outro país) eu justifico; 2) graves ameaças à segurança do planeta: sem comentários; 3) graves ameaças a uma grande região, com riscos aos países vizinhos: aqui sim, sou obrigado a concordar com o Gomide, a questão é altamente subjetiva e complexa e não poderá ser o país (ou países) invasor(es) quem poderá definir quando existe esse risco (vide o exemplo dos Estados Unidos no Iraque e outros semelhantes). Temos agora os casos da Coréia do Norte, da China e do Irã. mas quem poderá dizer se eles estão ou não representando uma real ameaça aos países vizinhoos e a toda uma região? É aí que está o nó da questão. Então, nesse terceiro caso, eu também não justificaria qualquer interferência, a menos que ficasse muito e inequivocamente demonstrado o risco e que isso fosse definido por um tribunal com várias nações, com igual peso de voto. Certo ou errado, é a minha opinião.

  • mgomide3 disse:

    Prezado Ivo,
    Entendo que não há (pelo menos da minha parte) confusão quanto à sua alegoria; ela foi perfeita e serviu de referência ao meu raciocínio. Na citação de seu texto, tomei o cuidado de reforçá-lo quando abri parênteses para dizer que era uma figuração. A propósito, por caprichos existentes em diversas línguas, no nosso linguajar, a palavra CÃO tem diversas acepções. Não preciso dar exemplos. Outras palavras de nosso léxico também carregam variados significados. Aliás, meu caro Ivo, o assunto de transmissão de pensamento é vasto e complexo. Podemos apenas dizer que o pensamento do emitente da mensagem quase nunca consegue transmitir EXATAMENTE o que pensou. E o receptor quase nunca capta EXATAMENTE o significado da mensagem. Isso é considerado normal, pois a linguagem oral ou escrita humana é deficiente. Num diálogo pessoal, as palavras são acompanhadas de expressões faciais, corporais, entonação, etc. o que ajuda na transmissão da idéia. Enfim, o assunto é vasto.
    Quanto às suas outras observações, estamos quase acordes. As diversas hipóteses apresentadas mereceriam, em cada caso, uma análise mais aprofundada, na iminência de acontecer.

  • Ufa, que alívio! Sabia que após a explicação você entenderia. Espero que os outros também. Quanto ao que você falou sobre a comunicação escrita, é verdade. O real significado das idéias que o autor tentou transmitir (principalmente se referentes a temas complexos) nem sempre são entendidos igualmente por todos – e geralmente não o são. Estou, como acredito que você também, consciente disso.

    Mas, apesar do exposto, não podemos deixar de expressar nossas opiniões por conta desse risco, concorda?

    Bação, companheiro de batalha. E mais uma vez, parabéns por ter trazido o tema para discussão.

  • Gomide, não digo que você foi abusivamente antropocêntrico, mas sim a antiga ideia da divisão entre animal “racional” e animais “irracionais” o é e não deveria continuar sendo utilizada. Se quer estabelecer uma divisão entre humanos e outros animais, prefira usar “animais não-humanos” em vez de “irracionais”, termo este que remete ao antropocentrismo cartesiano.

    Abs

  • mgomide3 disse:

    Caro Robson,

    Aceito suas ponderações com humildade e satisfação. Entendo que você tem razão ao afirmar que, quando distinguimos os animais daquela forma, traduziríamos a idéia do antropocentrismo, o que deve ser evitado por não se coadunar com a realidade. Afinal, a sugestão de distingui-los com a nomeação de “animal humano” e “animal não-humano” é apropriada e correta. Com isso amplio meu campo de conhecimento. Grato.

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