Androcentrismo

07/07/2009
by Robson Fernando

É impossível que alguém nunca tenha se deparado em sua vida com livros e discursos orais em que se cita o homem como sendo o ser humano como um todo. Com poucas exceções, o homem é sempre exibido como o representante “por excelência” da sua espécie – “evolução do homem”, “ciências do homem”, “Deus e os homens”, “os animais e o homem”, “direitos do homem”, “os homens são pecadores”, “melhores amigos do homem”… O macho torna-se sua espécie inteira.

Para muitos, falar do ser humano pela palavra “homem(ns)” é algo inocente que nada de ruim representa. Mas uma visão que prime pela igualdade de gêneros perceberá que é de fato uma atitude perniciosa. Trata-se de androcentrismo: a humanidade centrada na figura do homem, do humano macho. Nessa visão, ele tem a prerrogativa de representar o ser humano quando este engloba todos os gêneros. O ser humano pode ser chamado de “o homem”. Os seres humanos podem ser chamados de “os homens”, mesmo sabendo-se que há mulheres no conjunto. Ele representa ele mesmo e também ele e ela simultaneamente. Eles são ele e ela, ou eles e elas, ou eles e ela, ou – ainda pior – ele e elas. É como um gene dominante.

Já a mulher, não. Ela é sempre apenas uma fração secundária de sua espécie. Nunca se chama o ser humano de “a mulher”. Ela só pode representar ela mesma, nunca ele e ela juntos. Elas só podem ser elas, nunca ele(s) mais ela(s). A mulher é sempre o segundo sexo, enquanto o homem é o primeiro. É como um gene recessivo.

O androcentrismo é parte da dominação patriarcalista, do homem sobre a mulher, que perdura entre nós desde a Idade do Cobre (entre o Neolítico e a Idade do Bronze), foi legitimada explicitamente pelas duas religiões mais seguidas do mundo – o cristianismo e o islamismo – e tornou-se titanicamente majoritário no mundo depois do avanço islâmico e da dominação colonialista europeia. O comportamento androcêntrico de quem fala do “homem” como se fosse o ser humano em sua totalidade é uma naturalização do patriarcalismo.

Entre os “centrismos” da discriminação e da segregação, soma-se ao antropocentrismo, ao etnocentrismo e ao brancocentrismo racista (hegemonia dos brancos sobre outras raças). Para todos esses, há uma categoria “melhor” que todas as outras. No androcentrismo, o homem é tão superior que é confundido – ou convertido – com a soma de todos os gêneros.

Além de se somar, também faz-se semelhante a essas visões, quando impõe uma categoria “superior” como representante da humanidade ou da biosfera. Para o antropocentrismo especista, o ser humano é o exemplar maior dos seres vivos do planeta Terra. O etnocentrismo de uma sociedade determinada impõe os indivíduos membros dela como os “humanos por excelência” – enquanto os outros não seriam dignos do mesmo privilégio. O brancocentrismo torna uma pessoa branca o símbolo de toda a humanidade ou da população de um dado continente.

É encarando esse último que nos permitimos a ver como o androcentrismo é uma perversão: o homem tanto é aceito como representante da espécie humana como o indivíduo com fenótipo racial branco costuma ser esquematizado nos livros como o “default” humano. Falando nisso, o caso de dominação racial do continente americano lembra muito, pelas muitas semelhanças, a forma como o homem estabeleceu a dominação patriarcal.

Outrora, desenharíamos uma pessoa – homem, se seguíssemos o padrão androcêntrico – com fenótipos indígenas para simbolizar o indivíduo habitante das Américas, uma vez que nosso continente era exclusivo dos povos nativos. Contudo, os europeus, homens (sic) brancos muito violentos e etnocêntricos, impuseram pela violência das armas de fogo e do proselitismo cristão, entre os séculos 16 e 19, seu domínio sobre os índios que pouco dispunham de tecnologias de defesa.

Sobrepujaram-nos como tronco étnico-racial dominante. Consolidaram-se como senhores oficiais dos países americanos, enquanto os índios terminaram reduzidos a habitantes de aldeias em pequenas reservas, desprovidos do direito à soberania territorial e desprezados pela maioria dos governos. Tendo-se impostos pela força e pela dominação cultural, arrogaram-se o status de indivíduos americanos por “default”, como vemos nos livros escolares que apresentam figuras humanas.

Do mesmo jeito, a Europa de muitas tribos igualitárias em termos de gênero, as quais dividiam seus trabalhos econômicos e administrativos entre homens e mulheres, foi ocupada, segundo Robert Brym et. al., por povos guerreiros de origem semítica e centroasiática, que passaram por cima delas e impuseram, pela força do armamento e dos músculos masculinos, culturas, valores e religiões que exaltavam a masculinidade e a supremacia do muque e do falo.

A dominação masculina no velho continente atingiu seu auge com a dominação cristã. Como efeito, a Europa patriarcalista, ao longo dos séculos, foi colocando o homem no topo da humanidade tanto na política e nas atividades econômicas como nos livros e nos centros de educação.

Muitos idiomas ali desenvolveram-se formando sistemas de linguagem essencialmente machistas, como o português que privilegia artigos, adjetivos, substantivos etc. masculinos. Mesmo nos dicionários de diversas línguas, “homem” tornou-se sinônimo de “ser humano”. E nem mesmo o Iluminismo nem as revoluções subsequentes reverteram os vícios androcêntricos europeus.

Como a cultura europeia fez das Américas sua filial e o islamismo dominou grande parte da Ásia e da África, temos um mundo predominantemente machista. O androcentrismo ainda hoje é natural a ponto de as próprias mulheres raramente questionarem o supremacismo masculino. Mostram-se dois sistemas de dominação que foram erguidos pela violência. Assim sendo, deve-se perguntar: por que tratamos um – o androcentrismo – com tanta naturalidade enquanto criticamos com fervor o outro – o brancocentrismo nas Américas?

Hoje as desigualdades de gênero estão diminuindo gradualmente, na política, na economia, na cultura, nas estruturas sociais. A militância feminista cresce sem parar, inclusive nos países onde mulheres são mais oprimidas, e clama por igualdades. Contudo, o ser humano, mesmo sendo o homem mais a mulher ou vice-versa, continua sendo referido como “o homem”.

O uso da palavra “homem” como sinônimo de ser humano somado ao não-uso da palavra “mulher” nesse mesmo propósito é androcentrismo, e este nada menos é que uma forma de reafirmar e banalizar a hegemonia masculina, a dominação de quem tem músculo e agressividade em cima do gênero feminino subjugado. Entretanto, ao contrário do antropocentrismo e do brancocentrismo americano, pouco ainda é questionado pela parte oprimida – as mulheres.

Nunca falar “a mulher” e “as mulheres” como “o(s) ser(es) humano(s)” e sempre fazer o contrário é negar à mulher o seu lugar no comando da humanidade – ou continuar esses milênios de negação – e perpetuar o dogma de que só o homem é apto a representar esta.

Em vez de tratar com naturalidade o androcentrismo dos livros, aulas e discursos, devemos encará-lo da forma certa: como um vício de linguagem a ser desencorajado. Utilizemos “o ser humano”, “o indivíduo”, “a pessoa”, “as pessoas”, “os (seres) humanos”, palavras invariáveis que não possuem notável viés machista como tem “o(s) homem(ns)”. Ou mesmo “o(s) homem(ns) e a(s) mulher(es)” ou vice-versa.

O androcentrismo com que ficamos acostumados desde a Antiguidade até hoje também deve ser coibido nos livros que fazem representações de figuras humanas – como, por exemplo, livros de biologia. Há duas alternativas à ostentação da figura de um homem como o humano padrão, que podem ser adotadas separada ou simultaneamente: representação binária da espécie humana, em que figurem o corpo masculino e o feminino juntos ou em separado, e a distribuição igual de figuras masculinas e femininas que representam o ser humano como um todo – 50%+50% ou x+y+x, com x sendo a porcentagem (não somada) de homens ou mulheres representados(as) e y sendo a porcentagem de representações binárias.

A representação androcêntrica da humanidade, com o ser humano sendo insistentemente chamado verbal e graficamente de “homem” e nunca de ”mulher”, é um dos pontos que precisam ser incluídos nas pautas dos movimentos feministas e das discussões de/sobre igualitariedade social, além de dever ser combatida pelas mulheres que ainda consideram natural que o homem seja principal nas representações da espécie humana.

Androcentrismo soma-se ao machismo, ao patriarcalismo, à misoginia e à discriminação social, econômica e política contra a mulher. Assim sendo, deve ser substituído o quanto antes, por todas e todos, por linguagem e valores que prezem pela igualdade entre mulheres e homens e façam o ser humano ser tratado e representado como aquilo que realmente é: um ser de gênero binário.
 

Robson Fernando é articulista independente, apaixonado por sociologia e dono do blog Consciência Efervescente
Artigo original:
http://conscienciaefervescente.blogspot.com/2009/06/androcentrismo.html

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