No Galinheiro

05/07/2009
by mgomide3

 

       Dona Doquinha, de origem interiorana e criada nas farturas de uma fazenda, depois de casada viera morar na capital  em uma casa antiga, sólida, enorme, com respeitável quintal.

       Para manter suas preferências conservadoras e seu gosto por grandes espaços, mandou construir um galinheiro bastante espaçoso, com razoável suporte de conforto para as aves, totalmente cercado por muros.

       Um barracão separado só para posturas e criatório de pintos, outro provido de poleiros para o repouso da noite. Bebedouros, comedouros, caixa d’água,  portas e demais acessórios eram o complemento desse mundo galináceo. E ali foram alojados frangos de diversas eras, galinhas,  galos, que se renovavam em gerações, propiciando para a família de Dona Doquinha os almoços domingueiros com frango e macarronada, cardápio tradicional na casa.

      O que devemos ressaltar  é que aquele galinheiro não era um estabelecimento qualquer. Era uma sociedade galinácea perfeitamente organizada e estruturada. Um dos galos, o prateado, com grandes esporas e fulgurante barbela, era o presidente do terreiro, tinha sua autoridade respeitada por todos e todos respeitavam uma certa hierarquia. Essa comunidade galinácea se firmara distinta e diversificada. Havia as matronas, as jovens e sensuais polhas, os astutos frangos, os idosos e a criançada em geral de diversas idades.

     As galinhas criadeiras, enquanto ciscavam, ensinavam as experiências da vida às suas ninhadas. As solteiras, nos momentos de descanso à sombra das árvores, urdiam comentários às ações da polhada. Os jovens machos exercitavam as audácias belicosas. Os idosos dialogavam sobre direitos e obrigações avícolas. Havia os que ensinavam e os que apreendiam. Assim vivia a comunidade, num dia-a-dia sempre diferente, mas parecendo sempre igual. Aos domingos sumia um habitante, mas poucos davam importância ao fato, tão grande era o povaréu.

     A rotina se afirmava em todos os aspectos. O presidente percorria orgulhoso e imponente cada espaço da nação, ao tempo em que, com severas bicadas, resolvia na hora pendências egoísticas. Os cientistas tentavam esclarecer qual a soma de dois mais dois grãos de milho, visto que eles não são exatamente do mesmo tamanho e ocupam espaço diferente no papo. O filósofo procurava argumentar a um grupo de discípulos que só existia o céu e o terreno que habitavam, não havendo mais nada além. O padre fazia sua prédica a um conjunto muito grande de senhoras galinhas, frangas e a senhores idosos. Explicava que os polhastros que sumiam aos domingos eram mortos por um deus, como castigo por ser pecadores e incréus; e que suas almas não tinham salvação. Para os viventes, a redenção somente seria alcançada se cressem nas palavras de seu deus, e que lhe haviam sido reveladas na madrugada da quarta lua anterior. Os gordos políticos discursavam em ajuntamentos de ingênuos.

     Assim seguia a vida no galinheiro. Na moradia de Dona Doquinha, no período de carnaval, seus filhos haviam participado da festança momesca, ocasião em que confeccionaram uma grande estrutura de isopor na forma de um galo majestoso, colorido com tinta dourada, crista e barbela rubra brilhante, cauda multicor e artístico arranjo de lentejoulas cintilantes, como composição final.

     Terminadas as festas, o imenso galo farrista foi colocado sob uma coberta existente numa parte do quintal, longe do galinheiro e ali esquecido.

     Havia nessa comunidade um forte frango já com esporas apontando e apresentando as primeiras penas de maioridade em torno do pescoço. Desde frangote já fora briguento, audacioso, irrequieto e aventureiro. Estava sempre correndo, pulando e batendo asas.

     Em certo dia, sem que para isso planejara, deu um impulso mais vigoroso e se viu ultrapassando o muro que limitava seu mundo. Muito curioso e surpreso com aquele espaço nunca imaginado, andou pela parte externa toda, explorando o admirável ambiente. Chegando perto do galpão, parou espantado ao ver aquele imenso galo brilhante. Demoradamente reparou os pormenores, extasiado, arrebatado. Sentiu-se tomado por estranho torpor mental e, ante o fascinante fulgor das lantejoulas, deu-se a ouvir mensagens ditadas em tom paternal, o que mais o comoveu e convenceu da santidade de sua própria alma. Saiu em rápida corrida até a amurada, transpondo-a de volta ao seu lar.

     Procurando o padre galináceo, imediatamente lhe contou o ocorrido, acrescentando que vira deus; que essa divindade existia mesmo. E mais: que o divino senhor era na verdade um grande e esplendoroso ser, feito à imagem e semelhança do galo. Estava hospedado em maravilhoso paraíso e resplandecia auras de bondade e amor. Dissera-lhe palavras de conduta e salvação.

    O padre, vendo ameaçada sua posição e autoridade destacada na sociedade avícola, repeliu as novas revelações, qualificando-as de heresia e esclarecendo que deus era mesmo um galo todo poderoso, mas que as descrições estavam em desacordo com as verdades eternas, vindas de gerações desde o nascimento do mundo.  Convicto, ponderou o jovem com entusiasmo:

     — Mas eu vi o senhor divino! E dele recebi diversas mensagens que deverão ser ensinadas aos pecadores para que, mediante a fé, orações  e penitências, sejam aceitos no reino dos céus após a morte.

     — Herege, pecador, alma maligna, demônio! – retrucou o sacerdote.

                 ———————

     Repetiu o auto-sugestionado frango sua história para vários grupos que se formavam à sua volta, fazendo prosélitos e, sem o perceber, foi-se tornando um pastor de almas penadas e fundador de nova religião.

     Essa foi a primeira dissidência religiosa surgida na civilização galinácea.

 

(crônica inspirada na eterna discussão religiosa)

 

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