PREVISÃO OU MALDIÇÃO?

02/07/2009
by Antidio Teixeira

PREVISÃO OU MALDIÇÃO?

 

Carta do cacique Seathl ao presidente dos Estados Unidos em

                    1859

O grande chefe de Washington mandou dizer que deseja comprar a nossa terra. O grande chefe nos assegurou, também, de sua amizade e benevolência. Isso é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Porém, vamos pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar no que o chefe Seathl diz, com a mesma certeza com que os nossos irmãos brancos podem confia na alteração das estações do ano. Minha palavra é como a luz das estrelas: não empalidecem.

Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? – tal idéia nos é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar nem do resplendor das águas. Como podes então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre o nosso tempo. Toda essa terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias arenosas, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo.

Sabemos que o homem branco não compreende nosso modo de viver. Para ele, um torrão de terra é igual a outro, porque ele é um estranho que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga; e, depois de exauri-la, ele vai embora. Deixa para trás o túmulo do seu pai sem remorsos de consciência. Rouba a terra dos seus filhos. Nada respeita. Esquece as sepulturas dos seus antepassados e o direito dos filhos. Sua ganância empobrecerá a terra e deixará atrás de si os desertos. A vista de suas cidades é um tormento para os olhos do homem vermelho. Mas, talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.

Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas dos insetos. Talvez, por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é para mim uma afronta aos ouvidos. E, que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? – um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d’água e o próprio cheiro do vento purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar puro é precioso para o homem vermelho assim como para todos os seres vivos que respiram o mesmo ar, animais e homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo ele é insensível ao ar fétido.

Se eu decidi aceitar esta proposta, imporei a seguinte condição: que o homem branco trate os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser certo de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias, abandonados pelo homem branco que os abatiam a tiros, do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão que, nós índios, matamos  apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o  homem sem os animais? – se todos os animais acabassem, os homens morreriam de solidão espiritual porque tudo que acontece aos animais pode afetar também os homens. Tudo está relacionado entre si. Tudo que fere a terra, fere, também os filhos da terra.

Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbiram sob o peso da vergonha. E, depois da derrota, passam o tempo no ócio e envenenam seus corpos com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não serão muitos. Mais algumas horas, até  mesmo uns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra, ou que têm vagueado em bandos nos bosques, sobrará para chorar sobre os túmulos de um povo que foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

De uma coisa sabemos e o homem branco talvez descobrirá um dia: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julgas, talvez, o possuir da mesma maneira como desejas possuir a nossa terra. Mas, não podes. Ele é o Deus da humanidade inteira. E quer bem, igualmente, tanto ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por ele. E, causar danos à terra, é demonstrar desprezo pelo seu Criador. O homem branco vai desaparecer, talvez, mais depressa do que as outras raças. Continua poluindo a sua própria cama; e hás de morrer numa noite, sufocado pelos seus próprios dejetos.

Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem a gente e as colinas escarpadas se encheres de fios que falam, onde ficarão os sertões? – terão acabado? E as águias? terão ido embora? – restará dar adeus às andorinhas e a caça; é o começo da luta pela sobrevivência; o fim da vida.

Talvez compreendêssemos se conhecêssemos com que sonha o homem branco; se soubéssemos quais as esperanças que transmitem a seus filhos nas longas noites de inverno; que visões do futuro oferecem às suas mentes para que possam  formar os desejos para o dia de amanhã. Mas, nós somos selvagens e os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E, por serem oculto, temos que escolher os nossos próprios caminhos. Se consentirmos, é para garantir as Reservas que nos prometestes. Lá, talvez, possamos viver os nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias,  a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós a amamos como recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueças como ela era quando dela tomaste posse. E, com toda sua força, seu poder e todo seu coração, conserva-a para seus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem pode evitar o nosso destino comum.

Quem acompanha o noticiário do dia-a-dia sabe que, além do aquecimento global e suas consequências, outro problema gravíssimo que ocorre nas maiores cidades do mundo é o descarte do lixo. Nos últimos dias do mês de junho p.p., foi apreendido no Rio Grande do Sul um carregamento em “conteineres” recreados com lixo doméstico procedente da Europa. A África vem servindo de lixão para diversos países ricos. O lixão de Gramacho, no Mun. de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, já está saturado pelo lixo importado do Rio de Janeiro.

Desperte para esta realidade.

 

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7 Comentários

  • Marconi, o "marreteiro" disse:

    Uma de minhas canções favoritas tem muito a ver com essa matéria. Peço licença para transcrevê-la.

    UM ÍNDIO
    Caetano Veloso

    Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
    De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
    E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante
    Depois de exterminada a última nação indígena
    E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
    Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias

    Virá, impávido que nem Muhammed Ali, virá que eu vi
    Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi
    Tranqüilo e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi
    O axé do afoxé, filhos de Ghandi, virá

    Um índio preservado em pleno corpo físico
    Em todo sólido, todo gás e todo líquido
    Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto e cheiro
    Em sombra, em luz, em som magnífico
    Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
    Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
    E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer
    Assim, de um modo explícito
    E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
    Surpreenderá a todos, não por ser exótico
    Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
    Quando terá sido o óbvio

    Obrigado. Abs a todos.

  • Antídio:

    Esta carta tantas vezes divulgada e que já correu o mundo foi profética e também muito, muito verdadeira. O que foi dito naquela época, não perdeu o sentido, até hoje. Muito pelo contrário: diria até que hoje faz ainda mais sentido do que na época em que foi escrita, um verdadeiro poema, uma lição de vida.

  • Antídio S.P. Teixeira disse:

    Caríssimo Ivo:
    Lastimavelmente, o engessamento intelectual da maioria dos indivíduos de todos os níveis socioeconomicoculturais, ditado pelo poder reinante em todo o mundo, blinda a capacidade de entendimento dos fenômenos que nos arrastam para um fim trágico, comum e melancólico. Meus pêsames a todos nós.

  • Antídio:

    Que o Planeta terra é uma imensa lixeira do consumo humano, todos já sabemos. Que não estamos sabendo o que fazer com o lixo do nosso consumo, parece estar ficando evidente e cada vez mais grave. E a irresponsabilidade faz com que se empurre para o terreno do vizinho o nosso lixo, que não sabemos cuidar.

    Foi isto o que aconteceu no episódio relatado por você: a Inglaterra deportou o seu lixo para cá. Mais do que uma irresponsabilidade, foi um desrespeito para com o nosso país. Felizmente, o problema está sendo resolvido pelas autoridades brasileiras e o tal lixo está sendo enviado de volta para a sua orígem.

    Mas, confesso, tenho curiosidade de saber como aconteceu isso e por que acharam que esse lixo, vindo para o Brasil, não teria problemas. Isso não ficou explicado. Será que eles nos consideram, tão desorganizados e incompetentes, a ponto de receber uma carga dessas e aceitar sem reclamar?

    Se você souber de alguma coisa, comente. Muitos gostariam de saber.

  • Antídio S.P. Teixeira disse:

    Caríssimo Ivo:
    Escutei, há poucos minutos, no noticiário da Band, que a contratação da importação do lixo foi feita por um patrício radicado em Londres, junto a uma empresa exportadora britânica. Como passamos vergonha. Foi divulgado o nome do “coisa”, mas não gravei.

  • Ok, Antídio, também já me inteirei do ocorrido: uma empresa importadora brasileira (não foi divulgado o nome), “importou” de uma empresa exportadora também brasileira, mas estabelecida em Londres, lixo plástico reciclável porque os plásticos de lá seriam de melhor qualidade que os daqui, podendo ter um aproveitamento maior em processos industriais.

    Acontece que, como informou o exportador brasileiro (que vergonha!) teriam vindo, por engano, outros materiais. Mas até “restos de comida”?!!! Pra mim foi brasileiro “esperto” querendo passar a perna em outro brasileiro que também se julgava “esperto”. O resultado disso é a fama moral que temos no exterior. Depois ainda nos sentimos no direito de nos julgarmos ofendidos. Sinceramente, acho que, em alguns casos – e talvez na maioria – a nossa má fama é merecida.

  • Antídio S.P. Teixeira disse:

    LASTIMÁVEL…

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