Como bem alerta nosso colega e colaborador Maurício Gomide Martins, tem sido prática constante e crescente, desde o início deste nosso novo século, a utilização do termo “sustentável“, para disfarçar e tentar justificar as mais violentas agressões ao meio ambiente, como se, pelo simples acréscimo desse termo ou de um outro também muito em voga, o “ecológico” pudessem ser validados e aceitos todos os tipos de crimes ambientais praticados pelo homem, no afã de gerar “progresso”(???) e lucros. Daí, surgiram as famigeradas denominações “desenvolvimento sustentável” e “produto ecológico“, uma espécie de selo de qualidade ecológico que descriminaliza (ou autoriza?) o crime ambiental, levando-o para fora do alcance da lei.

Para ilustrar com um exemplo (existem muitos outros), como este engodo se processa, transcrevemos, abaixo, o brilhante artigo do colega e ambientalista Maurício Gomide, por ele publicado no nosso fórum “Debatendo a Ecologia…”, associado a este blog: […]

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“Vimos recente reportagem dando conta de que, como reflexo da conscientização dos problemas ambientais, tem havido grande incremento na utilização de sacolas de pano, reutilizáveis e vendidas nos supermercados. Conclui a reportagem que, no Brasil, dessa forma, se retira de circulação milhões de sacolas de plástico.

Este é mais um aspecto de divulgação de benefícios e melhorias para o meio ambiente. Tem o mesmo efeito para o meio ambiente que as propagandas de grandes empresas que anunciam suas ações sustentáveis. Mineradoras que extraem o minério de forma sustentável. Bancos que emprestam dinheiro pelo plano sustentável. Inseticidas de ação prolongada e sustentável. Mais uns meses e os professores de português vão ensinar: “sustentável é um sufixo que pode ser usado indiferentemente após qualquer palavra. Por exemplo: sujeira-sustentável, veneno-sustentável, crime-sustentável, polícia-sustentável, economia-sustentável, lucro-sustentável.” Ah! estávamos falando das sacolas sustentáveis. Bem, muita gente vai elogiar os cuidados dos supermercados com a sustentabilidade dos invólucros. Acontece que as donas de casa usam as benditas sacolas plásticas para acondicionar o lixo miúdo. Privadas desse utensílio, passarão indubitavelmente a comprar sacolas de plástico em rolo para manter o hábito de aprisionar higienicamente citados lixinhos que toda casa produz. E as donas de casa estarão satisfeitas em adquirir sacolas de pano, porque isso é moda e alivia a consciência. Ao adquirir as outras para o lixinho, contudo, ignorarão “essas bobagens ambientais”, fazendo de conta que ninguém vai saber disso, porque não abrem mão da cultura arraigada na alma. E o mundo econômico vai bem e continuará bem, obrigado.

O exemplo das sacolas é apenas mais uma ação hipócrita, cujo objetivo é cegar o povo para não perceber a realidade trágica que se avizinha. Seria o mesmo que tratar um câncer com chá de erva-doce. A civilização atual, assentada em valores econômicos, é indubitavelmente contraproducente. Ela produz veneno mortal que somente pode ser sustado com medidas compatíveis enérgicas. E não vemos outro meio de produzir antídoto do que a da criação do governo mundial, efetivo, autoritário. Para resfriado, chazinho. Para ataque de cascavel, pau na cabeça da cobra.”

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3 Comentários

  • “E não vemos outro meio de produzir antídoto do que a da criação do governo mundial, efetivo, autoritário”

    Autoritário? Desconheço na História governo autoritário que tenha respeitado o meio ambiente.

    E discordo sobre as sacolas, também. Que elas são chazinho pra câncer, pode até ser, mas isso não quer dizer que não façam seu estrago, e que não devam ser evitadas.

    Vários animais morrem depois de comer sacolas. Rios e bueiros entopem. Não dáo reciclagem. Por mais que se use nos pequenos lixos da casa, na despensa vão se acumulando centenas delas.

    E há outro aspecto: pequenas atitudes, como essa da sacola de pano, são o despertar das ações ecologicamente corretas, o despertar político para a necessidade de uma nova ordem mundial.

    Melhor que as pessoas se atrasem em seu despertar do que sejam “despertadas” por um governo “efetivo e autoritário”, como afirma Maurício Gomide Martins.

  • mgomide3 disse:

    Caro ambientalista Iberê Thenório,
    Primeiramente, agradeço-lhe pela manifestação. Suas palavras serão sempre bem vindas. É natural que haja pensamentos divergentes. Afinal, a mente livre tem sempre seus próprios caminhos e visões. Por isso, entendo ser procedente acrescentar a esta página melhores esclarecimentos.
    Devemos partir do fato de que a situação periclitante para a vida da humanidade é real e iminente. Requer, pois, atitudes defensivas, sejam elas quais forem, mas que sejam eficazes. Ademais, as nossas palavras devem ser entendidas como reflexo desse contexto de urgência e efetividade.
    Autoritário tem diversas acepções: discricionário, despótico, tirânico, opressivo, arrogante, violento, impulsivo, todos atinentes aos governos históricos a que você aludiu. Eram eles governos políticos. Tem também as seguintes significações: determinado, impositivo, dominador, emergencial, sentido com que foi usado ante a circunstância de que seria a primeira vez que o mundo estaria sob a autoridade dos interesses do meio ambiente, valendo dizer: da humanidade. Tal governo emergencial – antevejo – agirá em função dos interesses planetários ANTES que a própria Natureza aja com sua forma própria, constituída de fúria, violência, indiscriminadamente, tragicamente, a que já conhecemos por pequenas amostras que se têm apresentado.
    O atraso de providências efetivas e condizentes com a atual emergência, a que alude no final do seu comentário, terá consequências trágicas. Porque o tempo perdido com “chazinhos” nunca mais será recuperado. Em recentíssima declaração do presidente do IPCC da ONU, foram os governos alertados de que o mundo dispõe de apenas 7 anos para iniciar EFETIVAS ações para cessarem os estragos que a estrutura econômica vem causando.
    Ao seu dispor, Maurício

  • Administrator disse:

    Duas opiniões aparentemente divergentes sobre o mesmo assunto, mas no fundo convergentes.

    Como um observador externo, tenho de dar razão às visões que ambos – Maurício Gomide e Iberê Thenório – tiveram sobre o assunto e tentar mostrar os porquês da aparente divergência e, nesse ponto, fortalecer o que disse o Gomide e que não foi claramente entendido pelo Iberê.

    Fica evidente que o Iberê é um veemente defensor das causas ambientais, tanto quanto o Gomide, e acha que a iniciativa referente à utilização das sacolas de pano é amplamente válida e ainda preferível a nenhuma ou a se permitir que se continue a usar as de plástico, altamente perigosas ao meio ambiente, por demorarem muito tempo para se decompor, oferecendo riscos ao meio ambiente e à própria saúde humana e até dos animais.

    O Gomide não pensa diferente (acho), mas é um pouco mais cético quanto à sinceridade e validade das intenções por trás dessas medidas, que ele considera apenas paliativas. Propõe, assim, a adoção de medidas mais radicais, como a adoção do “Governo Mundial para Questões Ambientais“, com o que aliás, estou de pleno acordo.

    E é exatamente isto que ele tenta alertar em seu artigo. Parece-me que ao se referir ao governo como “autoritário”, quer na realidade dizer que esse governo, se implantado, tem de ser enérgico, duro, com poderes absolutos para autorizar medidas, proibir e/ou punir transgressores, do contrário, poderia não cumprir seus objetivos, pelas pressões políticas que sofreria.

    Nesse sentido, e uma vez entendido isso, acho que até o próprio Iberê, concordaria com a idéia e poderia ser mais um soldado a lutar por ela, com certeza. Se ele retornar ao blog, gostaria de ouvir sua opinião, depois desse esclarecimento.

    A propósito do assunto, deixo uma pergunta no ar: “Como poderíamos iniciar uma campanha nesse sentido?” Seríamos ouvidos? Surtiria efeito? Teríamos apoio para internacionalizá-la?

    Quem souber, responda!

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