AMAZÔNIA – NÃO ADIANTA CHIAR

10/06/2008
by mgomide3

  Contribuindo para ampliar o leque de informações aos interessados na Amazônia e seu significado ecológico, no interesse comum da humanidade, transcrevemos abaixo o artigo de 6.6.08 do brilhante jornalista Ricardo Kotscho.   “Em sua edição desta semana, na reportagem "Bem-vindo à nossa selva que encolhe", a revista  “The Economist” mata a pau ao constatar que é muito difícil para o governo brasileiro controlar o desmatamento e a exploração da floresta amazônica, "já que não há controle sobre a propriedade de terras na região". Não tem controle mesmo – e dificilmente um dia terá. Digo isso com tristeza, depois de dezenas de viagens que fiz pela Amazônia para garimpar reportagens nos últimos quarenta anos. Lá é tudo muito longe e imenso demais para alguém sonhar em colocar ordem na floresta. Dava para ver a olho nu, muito antes do monitoramento por satélite, os pastos avançando nas áreas desmatadas das terras de ninguém, aonde a lei ainda não chegou e o Estado é uma miragem distante para os donos das boiadas que se multiplicam em progressão geométrica. […] Em outubro do ano passado, quando estive na região para fazer uma reportagem sobre a exportação de gado vivo em pé da Amazônia para o Líbano e a Venezuela, viajando em monumentais navios gaiola (edição nº 5 da revista "Brasileiros"), recolhi alguns dados alarmantes que mostram  como é o estouro da boiada derrubando a floresta: • Em 1964, a Amazônia tinha um rebanho de cerca de um milhão de cabeças de gado e menos de 1% da área havia sido desmatada para a formação de pastos. • Em apenas treze anos, entre 1990 e 2003, o rebanho amazônico passou de 26,6 milhões para 63 milhões de cabeças, um crescimento de 6,7% ao ano, dez vezes maior do que a média brasileira. • Hoje, os pastos abrigam mais de 70 milhões de cabeças de gado, um terço de todo o rebanho bovino do país, que desde o ano passado é o maior exportador de carne do mundo. Como a Amazônia tem uma população de 23 milhões, isso dá a média de três bois por habitante. • Para abrir os pastos, foram desmatados 16% da área da floresta, o que dá mais de 70 milhões de hectares, equivalente a Espanha e Portugal juntos ou superior à soma das áreas dos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. • A Amazônia continua perdendo 24 mil quilômetros de mata nativa por ano, uma área equivalente ao Estado de Sergipe ou dois terços do território da Bélgica. Como 1% da floresta vira pasto todo ano, mantido o atual avanço do gado na região, em 2050, metade da floresta já terá sido derrubada para abrigar um curral de 285 milhões de cabeças de gado. • A principal razão para este estouro da boiada é o baixo preço da terra ou a pura e simples invasão de áreas públicas, a popular grilagem. Sai mais barato derrubar árvores (R$ 200 a R$ 300 por hectare) do que recuperar solos de áreas já desmatadas e degradadas transformadas em juquira (R$ 700 a R$ 750 o hectare). À medida que os canaviais tomaram o lugar dos pastos na febre do etanol e a soja avançou pelo centro oeste, os pecuaristas foram subindo o Brasil e ocuparam a Amazônia em busca de novos espaços. • Outro motivo para a expansão da pecuária foi a progressiva derrubada de barreiras sanitárias que dificultavam a venda de carne da região para o centro-sul do país e o exterior, em especial pela falta de controle da febre aftosa (a "Economist" errou neste ponto, ao afirmar em sua reportagem que o gado criado na Amazônia não pode ser exportado). Com a liberação da exportação, o Brasil mandou no ano passado mais de 500 mil cabeças de boi vivo para a Venezuela e o Líbano. • Cercada de rios e de peixes por todos os lados, a população rural da Amazônia tem hoje na pecuária sua principal fonte de sustento _ tanto as 25 mil famílias de grandes e médios fazendeiros, com áreas acima de 500 hectares, como os 400 mil pequenos proprietários. A soja ocupa uma área de apenas um milhão de hectares (1/70 dos pastos), outras lavouras fracassaram e só agora se começa a falar em ampliar o plantio de cana para a produção de etanol. Na mesma sexta-feira em que circulou a edição da "The Economist", a nossa imprensa nativa abria manchetes para o levantamento feito pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), estudo encomendado pelo Banco Mundial, dando conta de que a posse é irregular e totalmente fora do controle do governo em 42 milhões de hectares _ uma área correspondente a 8,5% da Amazônia, onde cabem os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Paraíba e Sergipe juntos. "Trata-se, na prática, de uma privatização gratuita da floresta. Nunca pagaram pelas terras e continuam sem pagar impostos", disse a "O Globo" o coordenador da pesquisa, engenheiro florestal Paulo Barreto. O processo é sempre o mesmo: o grileiro "empresta" a terra ao madeireiro para "limpar a área", quer dizer, derrubar a floresta, e em seguida planta capim, avançando sem limites e sem qualquer controle, até porque, título de terra por aqui é coisa de ficção, quando existe. Diante desse quadro, soam até românticas algumas iniciativas anunciadas pelo governo federal para conter a destruição da floresta depois que o mundo inteiro começou a gritar contra o desmatamento progressivo. Primeiro, o ministro da Justiça, Tarso Genro, anunciou no começo de maio que irá preparar, junto com o ministro da Defesa, Nelson Jobim, um decreto para aumentar o número de postos militares na Amazônia. Tudo muito bem, tudo muito bonito, mas lamento dizer que, do jeito que a situação por lá está absolutamente fora de controle, nem que o governo enviasse para a Amazônia todo o efetivo e todos os equipamentos das nossas Forças Armadas, incluindo helicópteros e aviões, a situação se reverteria. Na quinta-feira, dia 5, quando o presidente Lula comparou a floresta a vidros de água benta em que "todo mundo acha que pode meter o dedo", o governo criou mais três unidades de conservação ambiental na Amazônia num total de 26,5 mil quilômetros quadrados, equivalente a quase 18 vezes a cidade de São Paulo. Tudo muito bem, tudo muito bonito, mas quem vai fiscalizar estas unidades de conservação, se as atuais tropas do Incra e do Ibama já não dão conta de cuidar das dezenas de áreas igualmente já protegidas por decreto? "Temos que correr atrás do prejuízo, diminuir o desmatamento e preservar mais do que aquilo que se desmata", proclamou o neo-ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que deu um prazo de quatro anos aos fazendeiros, a partir de julho, para regularizarem seus títulos de propriedade ou terão suas terras confiscadas. Quatro anos para regularizar os títulos? Até lá, se ainda estivermos vivos e o mundo não acabar nas fogueiras do inferno da floresta, mais quantos milhares de quilômetros terão sido desmatados e quantas outras propriedades terão sido griladas, longe dos olhos da lei e dos nossos queridos ministros? O pior é que, desta vez, somos obrigados a reconhecer: a revista inglesa está certa ao dizer: "Na prática, é quase impossível para o governo impor sua vontade nos limites do seu império, mesmo se quisesse”. ========= Final do artigo transcrito ============  

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3 Comentários

  • Antidio Teixeira disse:

    Ao
    VMM = (Venerável Mestre Maurício)

    O belo e esclarecedor artigo de RICARDO KOTSCHO é uma verdade desconhecida pela quase totalidade dos brasileiros. Porém, para mim que, há anos, acompanho esta novela narrada por militares, e considerando o seu contexto global, não é novidade. No entanto, aproveito a oportunidade para acrescentar meu obscuro ponto de vista: sem levar em consideração a perda de biodiversidade, se toda a floresta amazônica fosse queimada para qualquer fim, os resultados seriam muito menos nocivos do que se igual quantidade de calor fosse lançado no meio ambiente originado pela queima de elementos fossilizados. Isso porque o oxigênio comburente consumido na combustão da mesma, seria o mesmo que ela liberou em vida; e o carbono combinado com ele para formar o CO2 que seria lançado, seria o mesmo que ela, floresta, captou no passado para formar sua biomassa. E, mais importante, cada espaço desmatado ficaria disponível para novas vegetações que iriam reabsorver tais resíduos e concentrar novas cotas de energia. Agora consideremos: estas áreas estão sendo desmatadas para produzir o que? em princípio madeira; depois: bois, soja, milho, etc. Quem consome? não é fome do mundo, especialmente dos mesmos países que pregam a internacionalização para preservar? Portanto, o melhor remédio seria eles pararem de importar do Brasil tais produtos de qualquer região. Isso porque, se eles importam as produções de outras regiões legais, desfalcará o mercado interno que teria duas alternativas: ter a elevação excessiva de preços para toda sua população; ou receber as produções realizadas em regiões proibidas para cobrir o déficit.. Então, o que entendo: se quiserem preservar as florestas, não só da Amazônia, assim como de outras parte do mundo, o que eles, os ricos, têm a fazer, é reduzir o consumo global de produtos e de serviços supérfluos e, com isso, o de energia elétrica, calorífica e motriz, uma vez que, a maior parte delas têm origem na queima de combustíveis fósseis. Isso equivale a quebrar a espinha dorsal do capitalismo em nome da preservação da vida na Terra. Toparão?
    Grande abraço e perdão pela sinceridade.
    Antídio

  • Administrator disse:

    Parabéns, Antídio. Você mostrou o paradoxo e o lado oculto da questão e, na minha opinião, ela não é apenas uma questão ambiental, mas também política e econômica, acima de tudo.

    Parabéns, Maurício, por ter-nos brindado com tão esclarecedor artigo. Alías, artigos e pontos-de-vistas sobre a questão amazônica são de farta literatura. Mas artigos que atinjam o âmago da questão já são bem poucos e que a expliquem adequadamente, menos ainda.

    E aqui surgiram algumas variantes. O problema da Amazônia é uma questão ambiental, política, estratégica ou econômica? Ou seria um pouco de cada uma delas? Se for este o caso, justifica-se a “aglutinação dos interesses internacionais”. A questão é saber quem sai ganhando e quem sai perdendo.

    Nesta última dúvida, vou antecipar, numa única frase, o que suponho seria a resposta do Maurício Gomide, com quem, neste aspecto, concordo em 100%: “O único que não pode sair perdendo nessa guerra de interesses é o Planeta Terra e a sua população“.

  • Walter Hauer disse:

    Antes da Amazonia, foi a floresta atlântica. Sou a terceira geração de quem preserva florestas, mas o reconhecimento e o prêmio foi a anulação dos meus direitos e dignidade, atravéz de decretos-lei “democraticos” elaborados pelos corruptos que forneciam as guias de desmatamentos no estado do Paraná, e que levaram o estado a este nivel catastrófico de cobertura vegetal nativa. Os responsaveis que gosam da impunidade adquirida, e os eco heróis das florestas alheia as ONGs acabaram adquirindo estes latifundios com mananciais de água, e de florestas nativas a preço irrisórios, e agora exigem dinheiro público para a “manutenção, e projetos sustentados” tudo que foi negado aos brasileiros que preservaram. Vejam esta traição em detalhes no blog MATAALHEIAMAMATANOSSA.BLOGSPOT.COM

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