Homens não, seres humanos

10/05/2009
by Robson Fernando

Uma reflexão nasce a partir de uma frase: por que nunca dizemos “a mulher” quando falamos do ser humano em geral, mas sempre dizemos “o homem”?

O substantivo “mulher” também se refere a um ser humano. Aliás, mulheres são maioria em muitos países, como o próprio Brasil – onde, de acordo com o Censo 2000, 50,78% da população humana é feminina. Mas por que a mulher nunca representa a espécie humana nas abordagens intelectuais? Por que “homem = ser humano unissex ou masculino” e “mulher = ser humano feminino”?

Por que sempre lemos “a origem do homem”, “as ciências do homem”, “a ação do homem”, “a evolução do homem”, “os homens são pecadores”, “os homens dessa civilização” etc., mesmo nós sabendo que esse “homem” pode ser uma mulher e que, entre os “homens”, há ou havia mulheres? Por que insistimos em falar de “homens” em lato senso mesmo sabendo que mulheres não são homens? […]


Uma resposta plausível seria dizer que o homem é o ser humano padrão. É aquele que, por default, representa a humanidade e encabeça a construção da história e da civilização – considerando a definição de Lévi-Strauss que estende o termo civilização até os primeiros hominídeos dotados de cultura. Seria também pedir que levemos em consideração que a origem da palavra “homem” é o latim “homo”, que se junta a “sapiens” e forma nossa denominação taxonômica: Homo sapiens, o “homem sábio”.

Essas respostas são válidas, mas abrem outras interrogações: a mulher não deveria ser considerada coautora da história humana, uma vez que, sem ela para reproduzir, cuidar e alimentar, o homem não teria feito nada que fez, sequer teria existido? Não deveria sê-la também por ter participado de forma fundamental, ainda que limitada pelo homem machista, da vida política, econômica, intelectual, artística e religiosa da espécie humana, vide as deusas, semideusas e santas de muitas religiões e tantas personalidades femininas que modificaram a história ora agindo de forma autônoma ora auxiliando imprescindivelmente seus companheiros?

Outra pergunta que não quer calar é: por que mesmo as sociedades que estão evoluindo na busca pelo tratamento igualitário de gêneros, como a nossa, ainda não abandonam essa atitude de fazer do homem o ser humano padrão, não banem dos livros o “homem unissex” e o substituem pelo ser humano que soma o homem e a mulher?

Continuarmos falando do(s) “homem(ns)” quando queremos falar de homens e mulheres juntos é uma injustiça. É-o porque perpetua a convenção machista, patriarcalista e, se muito, misógina – ou submissa, quando é a própria mulher que segue esse comportamento – de excluir as mulheres da pilotagem da nave da espécie humana por designar o homem como piloto único e a mulher como aeromoça em vez de pôr os dois como pilotos simultâneos. E também, no caso de sociedades em progressão igualitária, porque deixa a impressão de que ainda se resiste a reconhecer a mulher como a atriz principal que encabeça a trama da História juntamente com o ator principal homem.

Bem que nós que falamos em público ou escrevemos e/ou escreveremos livros, artigos e outras obras para educar as pessoas e aumentar o acervo humano de conhecimento poderíamos nos solidarizar às ativistas do feminismo e igualitarizar a literatura intelectual: quando não nos referirmos aos homens, aos humanos masculinos, usemos “o ser humano”, em vez de “o homem”, e “as pessoas”, em vez de “os homens”. Outras mudanças linguísticas de atitude estão a critério de quem escreve e discursa, desde que encaminhem suas palavras à convicção coletiva de que o homem não é sozinho o “ser humano” por inteiro, o todo da espécie humana.

Se queremos uma sociedade mais igualitária no tratamento dos sexos, comecemos pelas palavras que escrevemos e falamos. Comecemos pela linguagem que estrutura nossas ideias. Se pensamos que “homem = mulher”, e não que “homem > mulher” ou “homem + mulher = homem”, temos que confirmar isso na linguagem pela qual expressamos.

Robson Fernando é estudante e escritor, dono do blog Consciência Efervescente
Post original do artigo:
http://conscienciaefervescente.blogspot.com/2009/05/homens-nao-seres-humanos.html

Blogger PostBookmark/FavoritesDiggEmailFacebookGoogle GmailGoogle+LinkedInPrintFriendlyTwitterYahoo MaildiHITTShare

9 Comentários

  • mgomide3 disse:

    Caro Robson,
    A respeito de suas considerações acima, entendemos que se devam levar em conta os seguintes aspectos:
    a) A designação de “homem” não faz realmente discriminação contra a mulher. Não tem a conotação social a que você alude;
    b) Entendemos que seu emprego é assunto atinente à linguagem escrita e falada. Faz parte das convenções lingüísticas, com expressividade correta. A palavra “homem” tem dois sentidos: Um, o emprego como representação de uma espécie – no caso a espécie humana – e transmite com justeza a idéia da classe a que pertencem os humanos. Outro, a designação específica do macho humano, com alusão à sua sexualidade;
    c) É de se notar que diversas línguas adotam o mesmo critério, inclusive a linguagem dos surdos-mudos;
    d) A designação da espécie por um único nome, sem distinção de sexo, atende às necessidades de comunicação inespecífica de sexualidade. Imagine se tivéssemos de dizer: o homem e a mulher são onívoros; o jacaré-macho e o jacaré-fêmea são répteis. Por isso se diz: o homem, o gorila, o gafanhoto, o pardal. Em alguns casos, o uso idiomático construiu a designação pelo lado feminino, tais como: a cobra, a minhoca.
    Nas expressões que traduzem a designação da espécie, não existe hierarquização do macho nem da fêmea, não havendo discriminação desta ou daquele.

  • Caro Robson:

    Somente hoje tive tempo de apreciar esta sua interessante reflexão, mas não tenho quase nada a dizer, porque o Gomide roubou-me as palavras e disse exatamente o que eu pretendia dizer. Acertou na mosca! É exatamente isso.

    Quando eu era mais jovem, lá pelos 19-20 anos, também tinha a mesma encucação que você tem e não entendia esse negócio de dizer “O homem”. Parecia-me (tal como você pensou), um equívoco e uma discriminação. Dois anos depois, aos 24, pesquisei e cheguei à mesma conclusão a que o Gomide, sempre muito lúcido e inteligente, chegou.

    Acho, pois, que este tema está superado e magistralmente explicado. Mas ficou o valor da sua matéria, para trazer o assunto à baila e esclarecer àqueles que têm ou tinham a mesma dúvida. Valeu, Robson!

  • Que digam isso então às feministas.

    Há uma palavra sim, que foi incluída no artigo, a denominar a espécie humana: HUMANO ou Ser Humano.

    A maioria dos idiomas falam do homem como representante de sua espécie porque tem contextos notáveis de machismo-patriarcalismo social ao longo de sua história.

    Se chamar o humano de homem é um assunto superado, então está superado também discutir que os homens, representantes “por excelência” da humanidade, sempre assumam a dianteira em papéis políticos, econômicos, religiosos, intelectuais etc. e a mulher, como não tendo direito à mesma representação, sempre fique em papéis coadjuvantes ou seja sempre uma pequena minoria nos papéis de liderança.

  • Sílvia Peruzzi disse:

    A discussão que você levantou é muito interessante, apesar de, mesmo sendo mulher, achar que vc exagerou um pouquinho na dose. Não chego a enxergar conotações machistas na utilização do termo “homem” para representar o “ser humano”. Para se chegar a qualquer conclusão seria preciso ouvir muitas opiniões, em um debata amplo, com representação de vários segmentos da sociedade.

    Confesso que mesmo que me soasse estranho, nunca me senti ofendida quando ao se referirem à espécie humana usam o termo “homem”. Seria a mesma coisa que dizer, p. ex., que um biólogo ou naturalista ao se referir aos hipopótamos dissesse: “o hipopótamo tem o seu habitat natural na África e…”. Claro que aí, ele estaria se referindo aos hipótamos machos e fêmas e nem se poderia dizer que as fêmas estavam sen do excluídas da consideração. É uma questão de convenção, da mesma forma que, em Bilologia, se adotam convenções para classificar e nominar as espécies.

    E quando alguém diz “O homem é um ser pensante” não quer dizer que as mulheres não o sejam. Ou será que alguém duvida que a mulher pense? A referência é feita à espécie humana, designada ou representada pela palavra “homem”. Nada mais que isto.

    Quanto às feministas não gostarem, aí já é questão de fanatismo e radicalismo, penso.

  • Sílvia, não creio que exagerei, mas sim entrei num ponto muito pouco comentado atualmente.

    Sobre não sentir nada de ruim quando se fala do homem como ser humano padrão, até poucos meses atrás eu também não via nada de errado. Foram justamente opiniões feministas que mudaram esse jeito de ver a coisa.

    E há sim, como eu falei, palavras que falam de homem e mulher que não “homem”: “humano” ou “ser humano”, muito mais adequados numa época de esclarecimentos de cunho igualitário. Ao contrário de animais que têm seu nome invariável e são chamados “nome-macho” e “nome-fêmea”.

    Quando alguém diz que “o homem é um ser pensante”, não está incorrendo propositalmente em machismo. Mas esse é um vício de linguagem que remete ao machismo, quase do mesmo jeito como alguns ateus falam “Meu Deus” ou “Nossa!” por descuido.

    Quanto às feministas não gostarem, não é fanatismo, mas sim oposição sóbria à concepção linguística de padronizar o homem e a mulher como “homens”.

  • KLEBER RAMIREZ disse:

    Muito interessante este comentário Robson. Porém discordo de um detalhe.
    Observe o comentário do Sr. MGomime3, Ivo e Sílvia. Foram muito esclarecedor.
    Quanto ao movimento feminista, tem que haver um equilíbrio.
    Eu não consigo ser homem completo, se a minha esposa não estiver junto em todas as áreas da minha vida. Sou dependente de uma auxiliadora.
    Então o contexto de o homem e a mulher serem chamados de “o homem” não está errado. Afinal foi do homem que se originou a mulher. E para que se completasse o homem foi-se necessário tirar uma parte dele para formar a sua outra parte que é a mulher.
    Quanto ao movimento feminista: cuidado. Difícil será o homem e a mulher vivererm um sem o outro.
    A minha esposa é tão importante para mim, que a bíblia diz que devo amá-la a tal ponto de dar minha vida por ela, como Cristo deu a sua vida pela igreja. Maravilhoso isso, não é?
    O que seria de mim sem ELA. Interessante, é que esta semana ELA disse isso para mim também.
    Por isso que somos chamados de “homem”.
    Um abraço.
    Kleber Ramírez
    P.S. Jesus ama todos vocês, homens e mulheres.

  • Kleber,

    1. Que equilíbrio é esse em que o masculino prevalece e se torna o representante?
    2. Por favor, não introduza questões de mitologias que, cá pra nós, são machistas ao extremo.
    3. Se o homem e a mulher não vivem bem um sem o outro, por que então continuamos falando d'”o homem”?
    4. Essa parte “O que seria de mim sem ELA. (…) Por isso que somos chamados de “homem”.” não está fazendo sentido. Invertendo os gêneros, eu falaria que “é por isso que elas são chamadas de Mulheres”.

  • KLEBER RAMIREZ disse:

    Robson, em resposta aos ítens, vejamos:
    1 – Você conseguiria administrar alguma coisa sem ter um líder?
    2 – Faça o seguinte: Quando você casar, deixe sua esposa liderar, e se não for, quando o mesmo acontecer faça isso e você verá o resultado. Atenção mulheres, não estou diminuindo a capacidade de liderança de vocês. Continuando o nosso debate, vou mostrar o porque.
    3 – Primeio foi feito o homem depois a mulher…
    4 – Corrigindo: Como um não consegue viver sem o outro, é por isso que o homem é homem e a mulher é mulher, e dois se completam. Um foi feito de uma forma o outro da parte do primeiro que se chama homem, como poderia então os dois serem chamados de outra coisa se a origem do segundo veio do primeiro?
    Um abraço.
    Kleber Ramírez

  • Kleber, homens e mulheres possuem capacidade igual de liderança. Cabe (ou caberia, numa sociedade que pensasse de forma igualitária) a cada casal decidir se o homem ou a mulher lidera ou ambos têm o mesmo poder.

    Quanto à sua concepção de o homem ter surgido antes da mulher e ela ser “parte” dele, tendo surgido a partir dele, ela é inconciliável com a igualitariedade de gêneros. A mitologia judaico-cristã inteira e os valores que ela semeou nas sociedades onde prevaleceu são extremamente machistas e patriarcalistas. Você só admitiria que homem e mulher são intrinsecamente iguais e que cada um possui vantagens em relação ao outro equilibradamente se abandonasse sua religião.

1 Trackback or Pingback

Deixe uma resposta