Este é um assunto que, além de polêmico e complexo, deve ser amplamente discutido pela sociedade brasileira, antes que as novas medidas propostas pelo governo se tornem efetivamente obrigatórias e entrem em vigor, em todo o território nacional. Apesar de pensadas, inicialmente, para as universidades públicas federais, é óbvio que serão também implantadas nas estaduais e até, por incentivos do próprio Governo, nas particulares. E é aí que mora o perigo.

Medidas de tal importância e envergadura, não podem ser decididas apressadamente, de forma amadora (aliás, importantes decisões do nosso governo, são definidas por administradores amadores). É preciso profissionalismo e seriedade. Brincar de fazer média política com a Educação é escárnio e irresponsabilidade. Há que se olhar todos os aspectos da questão, sob pena de, ao invés de se encontrar soluções, criar-se um novo problema, talvez mais grave do que aquele que se está tentando solucionar.

Cotas, cotas e mais cotas

Cotas para alunos oriundos do ensino público, para negros e pardos, para índios e quilombolas… onde isso vai parar? Não seria uma forma de discriminação contra o vestibulando que não se encontra em nenhuma dessas situações? Não seria um acirramento à discriminação social e racial, desta feita, no sentido inverso? E agora já se fala em "acabar com o vestibular", substituindo-o pela notas do ENEM. Embora ainda não obrigatório e carecendo de regulamentação, o sistema de reserva de cotas para negros e pardos já vem sendo adotado por 15 universidades federais e 19 estaduais. O de reserva de vagas para alunos egressos do ensino público também já está sendo gradualmente implantado.

É sabido que, nas universidades públicas, os cursos mais procurados são ministrados no período diurno, muitos deles, em dois turnos. Aos 20 anos de idade, num país como o nosso, o jovem já tem de estar trabalhando e se estiver, jamais poderá estudar em uma universidade pública, a menos que seja num curso de menor procura, noturno. Assim, não podendo ficar 4, 5 ou 6 anos sem trabalhar e também não podendo pagar uma faculdade particular, acaba desistindo do seu sonho, deixando a vaga para aquele que pode se dar ao luxo de ficar mais de 4 anos sem trabalhar, os chamados "filhinhos de papai". Por isso o ensino público superior é elitizado, desvirtuando-se dos seus reais objetivos. 

O efeito inverso sobre os não cotistas

Agora, seriam estes os discriminados. Só para citar um exemplo, pergunta-se: como ficaria a situação de um cidadão de 45 anos ou mais, há mais de 20 anos afastado dos estudos, não enquadrável em nenhuma das situações mencionadas e que, de repente, resolve voltar aos bancos das universidades? Que percentual de vagas lhe sobraria para disputar, depois da aplicação dos sistemas de cotas? Menos de 20%. Na mesma situação ficaria o jovem branco, de classe média baixa que, com o sacrifício seu e dos pais, conseguiu estudar em escola particular, para poder concorrer numa igualdade de condições que agora não mais existe. É justo?

Onde começa o problema e como resolvê-lo?

Ora, se o problema está nos ensinos fundamental e médio ministrados nas escolas públicas, onde estudam a maioria dos negros, pardos e de pessoas de baixa renda, por que não se corrigir as causas lá atrás, exatamente onde ele se inicia? Não seria mais justo e mais eficaz? Fica evidente que sim. Melhorar a qualidade do ensino médio nas escolas públicas e ampliar o número de vagas nas universidades federais, transferindo-as para os cursos noturnos seria muito mais fácil. Mas as dificuldades e principalmente o custo, poderiam tornar isso inviável para o Governo, não pela impossibilidade técnica, mas pela falta de interesse político, já que os primeiros resultados só seriam colhidos num prazo mínimo de 4 anos. Ou seja: o Governo iria realizar investimentos numa administração e os resultados seriam colhidos em outra, coisa que todo político astuto evita fazer, por razões óbvias. Por isso, o "sistema de cotas" afigura-se como uma medida demagógica e eleitoreira.

Bem, vou ficar por aqui, porque isso é apenas a opinião pessoal de um cidadão do povo e que, isoladamente, não conta. Mas vou deixar vocês com a visão de um filósofo que, além disso, também é escritor e professor universitário e, portanto, bem afeito ao problema. A matéria que se segue, me foi por ele enviada para o meu email, pedindo divulgação. Nela, ele cita o exemplo da USP, talvez a mais reconhecida universidade estadual brasileira, e que resolveu enveredar pelo caminho do sistema de cotas (50% para alunos provindos das escolas públicas). Vejam o que ele tem a dizer:

Sistema de Cotas no Vestibular

Sistema de Cotas no Vestibular Ivo S. G. Reis Apreciação crítica, feita pela filósofo Paulo Ghiraldelli Jr, concluindo pela impraticidade do novo sistema

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7 Comentários

  • Anonimo disse:

    – A UFPA adotou cota e semestre passado eu ministrei aula para dez cadeiras vazias. Pois, os cotistas não tiveram nota suficiente. Essas ficaram vazias, mesmo havendo jovens com nota suficiente para ingressar. Entretanto, esses tinham saber de mais, mas negritude de menos e ainda azar de ter tido pais em condições de pagar, e fizeram questão, que estudasse em escola particular. Essas dez cadeiras vazias, já que o curso dura 4 anos, significa R$ 400.000,00 do dinheiro público jogado pelo ralo do desperdício.

  • Caro Professor:

    Este é apenas mais um dos equívocos do sistema de cotas, que acaba também acarretando exatamente aquilo que ele pretende combater – a discriminação. Introduz-se um novo sistema, sem planejamento algum (como quase tudo aqui no Brasil) e sem fazer projeções para as conseqüências. Um dos resultados é este que o senhor apontou.

    Não somos, aqui, contrários a que se dê maiores oportunidades aos não brancos e pobres de entrarem nas universidades em igualdade de condições. Mas, evidentemente, o sistema de cotas não é a forma correta de solucionar o problema. A correção tem que começar pelo ensino público fundamental e médio, melhorando a qualidade e assegurando-se que o acesso a este ensino se dará realmente aos mais necessitados.

    Será que um dia vão enxergar isso e corrigir a aberração?

  • mgomide3 disse:

    O sistema de quotas raciais para ingresso nas universidades constitui a oficialização do racismo no Brasil. O que não existia de direito, agora passa a existir.
    Qual a finalidade de serem realizadas provas para início de um curso profissional? Aferir o nível de conhecimento do candidato para que tenha condições mínimas no acompanhamento das informações que lhe são fornecidas no curso universitário.
    Se se implantam novos critérios, alheios à capacidade cultural, a realização de provas passa a ser uma formalidade inconseqüente. Sabemos da miscigenação do povo brasileiro. Há negros 7/8, 6/8, 5/8, 4/8, 3/8, 2/8 e 1/8. Hoje, é difícil encontrar-se um negro 8/8 (puro). O mesmo se pode dizer de índios, asiáticos. Aliás, entendo que se deveriam incluir outros critérios, também válidos dentro os argumentos correntes: uma quota para os baixinhos, outra para os altos, outra para os magros, outra para os gordos, outra para os feios, outra para os bonitos, outra para… e assim por diante.
    O nome certo para tais provas universitárias ou qualquer outra de ingresso em uma atividade séria é: prova de suficiência. Só. Quotas para a insuficiência é um absurdo gritante que, na prática, produz o que o nosso distinto professor relata.
    Para que os leitores fiquem sabendo, informo que lá pelos anos de l950 os alunos de colégios oficiais eram bem mais aculturados do que os provenientes de escolas particulares. Isso não é informação pessoal; era a imagem real, vigente nos conceitos pedagógicos em geral. Hoje a situação se inverteu e não vamos abordar esse aspecto, pois é de conhecimento geral.

  • Antídio S.P. Teixeira disse:

    Claros objetivos políticos com prejuízo para os próprios beneficiários; no futuro, os profissionais de cor formados, poderão ser rejeitados pela clientela, na dúvida de sua capacidade de desempenho das funções que exercem.

  • mgomide3 disse:

    b

    Muito bem lembrada pelo Antídio a consequência lógica para o futuro próximo dessa estapafúrdia medida educacional. Naturalmente, tal discriminação na seleção universitária modifica o entendimento consciente e inconsciente da diferenciação racial. Ela dá suporte à lógica da capacidade profissional. Ao final, já não vamos falar em racismo puro e simples, mas em racismo assentado em fatos e argumentos que não
    têm como serem contestados. Estamos plantando urtiga…

  • Repito a frase do meu comentário anterior, em reforço ao que os ilustres comentraristas já disseram: “Este é apenas mais um dos equívocos do sistema de cotas, que acaba também acarretando exatamente aquilo que ele pretende combater – a discriminação”. Com efeito, esse sistema reconhece, oficialmente, a existência de uma divisão racial no país e até incentiva-a. E é também injusto, pois prejudica uns, em detrimento de outros, criando estigmas para os beneficiados.

    É lamentável, profundamente lamentável.

  • Fabio disse:

    oi eu sou contra as cotas por que eis a respostas os negros fora das universidade nao! eles nao sao diferentes e muito menos , menos inteligentes comparando aos brancos as pessoas ser contra isso chama de racismo meu nome e fabio moro em diamantina MG e deixo cravado aqui sou contra as cotas

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