Filósofos – Ernest Renan (Joseph)

12/04/2008
by Ivo S. G. Reis

ErnestRenan001.jpg ERNEST RENAN

Nascido em Tréguier (Côtes-du-Nord), filho de um capitão em formação, perde seu pai aos 5 anos e é educado por sua mãe e sua irmã Henriette. Iniciou seus estudos no colégio eclesiástico de sua cidade natal (1832-1838). Em 1838 obteve uma bolsa no pequeno seminário de Saint-Nicolas-du-Chardonnet, em Paris, de onde passou para a Casa de Issy (1841-1843), e depois para Saint-Sulpice (1843-1845), onde aprendeu hebraico. Entra em crise de vocação sacerdotal no contacto com a escolástica e a exegese da Bíblia, escrevendo mais tarde Souvenirs d’enfance et de jeunesse (Lembranças de Infância e de Juventude, 1883) sobre esta sua "crise religiosa". Tinha então 21 anos.

Após a sua saída do seminário, em 1845, fez uma curta estada em Stanislas, entrando depois como mestre de estudos na pensão Cruzet. Lá se relacionou com Marcelin Berthelot, aumentando a sua informação acerca das ciências da natureza, de uma formação iniciada em Issy. Começa então a escrever, com 25 anos, L’ Avenir de la science (O futuro da ciência), obra que só virá a publicar quarenta anos mais tarde, em 1890, onde rejeita todo o sobrenatural, afirma a certeza de um determinismo universal e apresenta um culto quase místico da ciência positiva.

Em 1848, conquistava uma posição na Universidade, sendo admitido à agregação de filosofia. […]Substituiu Bersot durante 3 meses no liceu de Versalhes, sendo encarregado de uma missão a Itália, onde visita Roma, Florença, Veneza e Pádua, entre Outubro de 1849 e Junho de 1850.

Em 1851 entra para a Biblioteca Nacional, apresentando no ano seguinte a sua tese de doutoramento sobre Averróis e o Averroísmo (1852). Torna-se colaborador das "Revue des Deux Mondes" e "Journal des Débats", em 1853, recolhendo depois artigos em Études d’histoire religieuse (1857) e Essais de morale et de critique (1859). Entretanto, em 1856, casou a sobrinha do pintor Ary Scheffer.

Em 1860-1861, cumpriu uma missão arqueológica na Fenícia, onde perdeu sua irmã Henriette Renan, começando no ano seguinte um opúsculo sobre sua irmã. Foi nesta ocasião que concebeu a obra "Vida de Jesus" e lançou sobre o papel a sua primeira redação. Em 1862 foi nomeado professor de hebraico no Collège de France, mas, após sua primeira aula, onde chamara Jesus de ‘homem incomparável’, seu curso foi suspenso pelo governo de Napoleão III, curso depois suprimido até 1870. Em 1864-1865, uma segunda viagem ao oriente o ajudou a preparar a seqüência, que ele meditava, da ‘Vida de Jesus’, uma das obras mais célebres do século XIX, rapidamente traduzida em quase todas as línguas. Renan era o primeiro em França a vulgarizar a exegese alemã de David Friedrich Strauss, segundo a qual a vida de Jesus nada tinha de intervenção sobrenatural. Em 1863, inicia a sua História das origens do Cristianismo (1863-1883), rejeitando toda a noção de mistério.

Os eventos de 1870-1871 o inspiraram a escrever e publicar a obra Reforma intelectual e moral (1871). Membro da Academia de inscrições desde 1856 (tinha recebido dela em 1847, o prêmio Volney), Renan foi eleito em 1878 para a Academia Francesa; em 1884, reintegrado na Universidade, tornava-se administrador do Collège de France.

Os estudos orientais viriam a ser o eixo mais importante dos seus trabalhos. Como Filólogo, Renan publicou a História Geral das Línguas Semíticas (1855), e traduziu, com estudos de introdução, 3 livros do antigo testamento, Job (1858), o Cântico dos Cânticos (1860), Eclesiaste (1881).

Da sua vasta produção, considerou-se nos círculos agnósticos e ateus que a sua parte menos sólida era a crítica do Novo Testamento, vista como pouco conclusiva. As Origens do Cristianismo ou A História de Israel foram bem aceites nesses sectores de opinião, considerando-se que os meios físico, intelectual, e social, terão sido reconstituídos com rigor. Os seus retratos (de Jesus, Nero, Eclesiaste, Marco Aurélio, São Paulo) terão sido mais ou menos imaginados e subjectivos, tendo no entanto Renan sabido evitar um simbolismo excessivo. As comparações entre o passado e o presente tornavam a narrativa viva e sugestiva, fornecendo muitos elementos de controvérsia. Um estilo refinado, elegante, sem sustentação sensível, respondia às menores nuances da idéia. Um pouco neutro em diferentes lugares na descrição, nunca se mostrou muito carregado em cor, mas brilhou ao restituir o espírito da paisagem.

Na última parte de sua vida, ter-se-á inclinado para um certo diletantismo, mas não tocando sobre a unidade fundamental característica de seu pensamento. Sob a atitude um pouco falsa do autor à moda, reconhecia-se o racionalista radical, que jamais deixou o ceticismo invadir suas certezas nem seus partidos anti-clericais e anti-católicos. Ele terá pretendido distinguir os religiosos e a religião, procurando mostrar como se formam os primeiros. Explicando psicologicamente o fenômeno da crença, também por aí se juntou à filosofia racionalista radical, segundo o seguinte princípio: nem revelação, nem milagre. Mas ‘esta obra de ciência irreligiosa, ele a fez religiosamente’; não quisera estar atingido ‘à categoria do ideal’, que para ele resulta no lugar de Deus. É neste espírito que ele foi, depois de Voltaire, e com o qual se parecia tão pouco, um propagador da história das religiões.

Suas obras histórias compreendem, além de Mélanges d’histoire et de Voyages (1878), Os Apóstolos (1866), São Paulo (1869), O Anticristo (1878), Os Evangelhos (1877), A Igreja Cristã (1879), Marco Aurélio (1881), e A História do Povo de Israel (1887-1893, em 5 volumes, cujos últimos 2 últimos póstumos.

Ele se divertiu ao fim da vida a exprimir, sob forma de Dramas Filosóficos (1888), em Caliban, l’Eua de Jouvence, lê Prête de Némi, l’Abbesse de Jouarre (1878-1886), um pensamento livre, alternadamente irônico e emocionado.

Posteridade

A influência de Renan foi grande sobre vários escritores dos finais do século XIX e inícios do século XX, tocando Paul Bourget (antes da sua reconversão ao catolicismo), Charles Maurras e Maurice Barrès. Desde o último quartel do século XIX, nos países com línguas nacionais derivadas do latim, a sua obra foi uma referência obrigatória para agnósticos e ateus, fornecendo motivos ideológicos aos movimentos republicanos anti-clericais de inícios do século XX, como em França durante o combismo (Émile Combes) ou em Portugal durante o costismo (Afonso Costa). No início da década de 30, Benito Mussolini, ao definir a doutrina do Fascismo viu numa sua reflexão filosófica uma "iluminação pré-fascista".

O seu ensaio Qu’est-ce qu’une nation? (O que é uma nação?, 1882), tornou-se uma referência obrigatória nos estudos sobre o nacionalismo.

Bibliografia de Ernest Renan

  • Averróis e o Averroísmo (1852)
  • Da Origem da Linguagem (1852)
  • Estudos de história religiosa (1857)
  • Job (1858)
  • Ensaios de Moral e de Crítica (1859)
  • Cântico dos Cânticos (1860)
  • Vida de Jesus (1863)
  • Os Apóstolos (1866)
  • Questões Contemporâneas (1868)
  • São Paulo (1869)
  • Diálogos e Fragmentos Filosóficos (1876)
  • Os Evangelhos (1877)
  • Mélanges d’histoire et de Voyages (1878)
  • O Anticristo (1878)
  • A Igreja Cristã (1879)
  • Marco Aurélio (1881)
  • Eclesiastes (1881)
  • Lembranças de Infância e de Juventude (1883)
  • Novos Estudos da História Religiosa (1884)
  • A História do Povo de Israel (1887-1893, em 5 volumes, cujos últimos 2 últimos póstumos)
  • Dramas Filosóficos (1888)
  • O futuro da ciência (1890)
  • Folhas Destacadas (1892)

Póstuma

  • Cartas (1896)
  • Correspondência de E. Renan e M. Berthelot (1898)
  • Estudo sobre a política religiosa do reino de Philippe O Belo (1899)
  • Cartas do Seminário (1902) – correspondências com sua mãe.
  • Cadernos (1906)
  • Novos Cadernos da Juventude (1907)
  • Fragmentos Íntimos e Romanescos (1914)
  • Ensaio Psicológico Sobre Jesus Cristo (1921)
  • Novas Cartas Íntimas (1923) – de Ernest e Henriette.
  • Cartas a Seu Irmão Alain (1925)
  • Correspondência (1926)
  • Sobre Corneille, Racine e Bossuet (1926)
  • Viagens (1927)
  • Trabalhos de Juventude (1931) – do período de Saint-Sulpice.
  • Mélanges religiosas e históricas (1994)

Bibliografia

  • Maurice Barrès, Huit Jours chez M. Renan, Paris, 1888.
  • Maurice Barrès, Les Maîtres, Paris, 1927.
  • Henri Massis, Portrait de Monsieur Renan, Paris, 1947.

Fonte das informações acima: Wikipédia. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ernest_Renan Frases Selecionadas de Ernest Renan:

  • Os verdadeiros progressistas são os que partem de um profundo respeito ao passado
  • O chamado "deus dos exércitos" está sempre ao lado da nação que tem a melhor artilharia, os melhores generais
  • As idéias são as raízes da criação
  • O talento do historiador consiste em compor um conjunto verdadeiro com elementos que são verdadeiros apenas pela metade
  • Um queria fazer de Jesus um sábio; outro, um filósofo; outro ainda um patriota; outro, um homem de bem; outro, um moralista;outro, um santo. Não foi nada disso. Foi um encantador
  • É dificílimo provar que se é modesto, pois, desde que se diz sê-lo, deixa-se de sê-lo
  • O mais vulgar dos alunos sabe agora verdades pelas quais Arquimedes sacrificaria a vida
  • O grande general é aquele que triunfa e não o que deveria ter triunfado
  • No fundo, sinto que minha vida é governada por uma fé que já não tenho. A fé tem isto em particular: mesmo quando desaparece, continua a agir.
  • A estupidez humana é a única coisa que dá uma idéia do infinito
  • Nada de grande se faz sem sonho
  • A ciência proverá sempre a satisfação do desejo mais alto da nossa natureza, a curiosidade; fornecerá sempre ao homem o único meio que ele possui de melhorar a própria sorte.

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Fonte das frases acima: coleção particular de Ivo S. G. Reis, disponível em: http://www.pensador.info/colecao/ivosgreis/

Leitura recomendada: A administração deste blog recomenda a leitura de uma das obras mais polêmicas e conhecidas deste importante filósofo e que foi referência por todo o século XIX: "A Vida de Jesus". Nesta obra, ele desmistifica quase tudo o que se diz sobre Jesus e, com autoridade e além de estudioso das religiões e professor de hebraico, traduziu 3 livros do Antigo Testamento. Daí, a sua respeitabilidade. Esta obra foi traduzida nos principais idiomas do mundo e, no Brasil, temos uma edição recente, em Português, da Editora Martin Claret, 2004.

Nota da Administração do blog: Anteriormente à obra "Vida de Jesus", de Ernest Renan, uma outra obra homônima foi publicada pelo não menos importante filósofo, teólogo e exegeta alemão, David Strauss, na 1ª metade do século XIX. As duas obras "Vida de Jesus" foram polêmicas e provocaram (como sempre) problemas aos seus autores, inclusive, nos dois casos, a perda temporária dos seus respectivos empregos. No entanto, a obra de Renan, e não por ser posterior, é considerada mais completa que a de Strauss, julgada pela crítica por demais radical, no sentido de abordar todas as histórias dos evangelhos como simples coleções de mitos. E de fato o são, mas Renan considerou alguma coisa que "poderia ser verdade" a respeito do Jesus não santo, nem filho de Deus, nem milagreiro, mas humano. Veja a biografia de David Straus em: http://pt.wikipedia.org/wiki/David_Friedrich_Strauss

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3 Comentários

  • SempreAlerta disse:

    Por que a maioria dos filósofos não acreditam em Deus? Ou, se acreditam, por que criticam tanto a Bíblia e os evangelhos? Notei que isso é mais ou menos uma constante. Alguém aqui poderia me explicar melhor as causas?

    Esses livros da “Vida de Jesus”, eu já tinha ouvido falar deles e li até alguns trechos num outro site que não me lembro. Até que ponto merecem crédito?

  • Administrator disse:

    A razão é simples e compreensível, Sempre Alerta: é porque os filósofos, além de estudiosos, são especialistas em “pensar, raciocinar com LÓGICA e concluir“. É isto que os leva, na sua maioria, a descrerem dos livros sagrados e da existência de Deus.

    Claro que existem alguns filósofos – poucos – que creram em Deus mas, mesmo assim, mantinham algumas reservas quanto à Bíblia e aos Evangelhos. Estes, embora inseridos naquele livro, mas como um “Novo Testamento”, costumam merecer um estudo à parte. Convém lembrar também que, no passado, a Filosofia sempre teve laços muitos fortes com a Religião, da qual passou a afastar-se a partir do século XVII. O próprio Renan, como se vê em sua biografia, foi seminarista. Depois que começou a estudar a Bíblia a fundo, decepcionou-se, e em crise de vocação sacerdotal, abandonou o seminário e virou filósofo, especializado em estudar tanto a Filosofia como a Religião, sobre a qual escreveu vários livros e artigos, condenando os seus métodos e mentiras.

    Acho que é isso. Quem tem a capacidade de pensar e raciocinar com lógica, não aceita facilmente as mentiras impostas pelas religiões e, mais ainda, ter as suas idéias dominadas por qualquer tipo de religião convencional. Para Renan, o Cristo dos Evangelhos não existiu e sim, apenas um Jesus homem, um mortal até certo ponto incomum, como um “encantador”, mas humano, nada sobrenatural ou místico ou religioso.

    Quase tão importante como Cristo, poderíamos citar o filósofo Sócrates, anterior a Cristo. Sócrates também tinha discípulos, pregava o bem e preceitos morais e morreu condenado (por envenamento, tomando cicuta), apenas porque não declinou das suas idéias, que tanto incomodavam ao Governo de Atenas. A diferença é que Sócrates não se dizia enviado de Deus e que sobre a sua existência e sobre a sua pregação não pairam dúvidas, embora nada tenha deixado por escrito, como Jesus. Os seus discípulos é que se encarregaram de escrever e imortalizar as suas palavras, das quais, não se duvida tenham sido dele. Já quanto a Cristo… Ninguem sabe quase nada de nada e Ele teria vivido 400 anos depois de Sócrates. Além disso, as outras tantas histórias de outros Cristos, anteriores ao Jesus bíblico, são lendas ou mitos bastante parecidos entre si, em quase tudo. No mínimo dá o que pensar e suspeitar, até mesmo da existência do Jesus humano.

    Se puder, leia as obras religiosas e filosóficas de Renan, Strauss, Bertrand Russell, Nietzsche e de outros filósofos (e também escritores) que se dedicaram a estudar a religião e você compreenderá os porquês das descrenças nos livros sagrados. Mas cuidado! Se estudar demais a Bíblia, pode virar atéia.

  • Karine disse:

    Foi o artigo mais completo que encontrei a respeito de Renan.
    Parabéns e obrigada pelas informações!

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