ACHEGA À CRIAÇÃO DO GOVERNO MUNDIAL

02/02/2009
by mgomide3

O grande pensador e ambientalista Leonardo Boff redigiu um artigo, publicado em jornais de 26.12.08, no qual não usa palavras diretas, mas deixa transparecer sem dúvida que vislumbra o caminho do governo mundial como forma de iniciar ações de socorro ao planeta. Divulgar seus escritos em prol do planeta é uma forma de ação ambientalista. Vejamos seu pensamento sábio, profundo e esclarecedor.

 Como escapar do fim do mundo.”

 “Chegamos a um tal acúmulo de crises que, conjugadas, podem pôr fim a este tipo de mundo que nos últimos séculos o Ocidente impôs a todo o globo. Trata-se de uma crise de civilização e de paradigma de relação com o conjunto dos ecossistemas que compõem o planeta Terra, relação de conquista e de dominação. Não temos tempo para acobertamentos, meias-verdades ou simplesmente negação daquilo que está à vista de todos. O fato é que assim como está, a humanidade não pode continuar. Caso contrario, vai ao encontro de um colapso coletivo da espécie. É tempo de balanço face à catástrofe previsível.  

Inspira-nos uma escola de historiadores bíblicos que vem sob o nome de escola deuteronomista, derivada do livro do Deuteronômio que narra a tomada de Israel e a entronização de chefes tribais (juízes). A escola refletiu sobre 500 anos da história de Israel, a idade do Brasil, fazendo uma espécie de balanço das várias catástrofes políticas havidas, especialmente, a do exílio babilônico. Segue um esquema, diria, quase mecânico: o povo rompe a aliança; Deus castiga; o povo aprende a lição e reencontra o rumo certo; Deus abençoa e faz surgir governantes sábios.

Usando um discurso secular, apliquemos, analogamente, o mesmo esquema à presente situação: a humanidade rompeu a aliança de harmonia com a natureza; esta a castigou com secas, inundações, tufões e mudanças climáticas; a humanidade tirou as lições destes cataclismos e definiu um outro rumo para o futuro; a natureza resgatada  favorece o surgimento de governos que mantém a aliança originária de harmonia natureza-humanidade.

Ocorre que apenas uma parte deste esquema está sendo vivida: que lições estamos tirando dos transtornos que estão ocorrendo globalmente? Todos estamos perplexos sem saber que caminho tomar. Alguns querem continuar pela mesma rota que os conduziu ao desastre. Outros se dão conta de que temos que mudar os fundamentos da nossa convivência com os humanos e com a Terra, organismo vivo, doente e incapaz de se auto-regular. Essa mudança deve possuir uma função terapêutica: salvar a Terra e a Humanidade, que se condicionam mutuamente. O fato é que precisamos escutar aqueles que com consciência da situação nos estão oferecendo as melhores propostas. Eles não se encontram nos centros do poder decisório do Império. Estão na periferia, no universo dos pobres, aqueles que para sobreviver têm que sonhar, sonhos de vida e de esperança.

Uma destas vozes é de um indígena, o Presidente da Bolívia, Evo Morales. Ele escreveu, agora em novembro, uma carta aberta à Convenção da ONU sobre mudanças climáticas na Polônia. Escutando o chamado da Pacha Mama conclama: ‘Necessitamos de uma Organização Mundial do Meio Ambiente e da Mudança Climática, à qual se subordinem as organizações comerciais e financeiras multilaterais, para promover um modelo distinto de desenvolvimento, amigável com a natureza e que resolva os graves problemas da pobreza. Esta organização tem que contar com mecanismos efetivos de implantação de programas, verificação e sanção para garantir o cumprimento dos acordos presentes e futuros… A humanidade é capaz de salvar o planeta se recuperar os princípios da solidariedade, da complementaridade e da harmonia com a natureza, em contraposição ao império da competição, do lucro e do consumismo dos recursos naturais.’

Evo Morales é indígena de um pais pobre. Temo que ele conheça o destino da triste história narrada pelo livro do Eclesiastes: ‘Um rei poderoso marchou sobre uma pequena cidade; cercou-a e levantou contra ela grandes obras de assédio. Havia na cidade um homem pobre, porém sábio que poderia ter salvo a cidade. Mas ninguém se lembrou daquele homem pobre porque a sabedoria do pobre é desprezada’(9,14-15). Que isso não se repita de novo.”

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2 Comentários

  • O que foi dito pelo eminente filósofo e pensador é uma verdade cruel e que a humanidade insiste em não querer enxergar. É como se alguém tendo um câncer maligno e já diagnosticado, se recusasse a tratá-lo, achando que ele não progrediria e se extinguiria por si só, sem a ajuda do portador e da medicina. Só os crentes pensam assim, achando que a fé, sozinha, sem qualquer ajuda, pode curar tudo. Um ou outro raro caso em que isso tenha ocorrido, será mera obra do acaso e não a lógica.

    Se compararmos a terra a um organismo doente, como de fato está, teríamos o mesmo caso. E vejo muitos paralelos entre “paciente x tratamento x cura ou morte”. Uma pessoa gravemente doente pode não se tratar e se recuperar pelas autodefesas dos seus anticorpos, em perfeito funcionamento. Mas se os anticorpos estiverem enfraquecidops e não sobrevier o tramento, a conseqüência será o agravamento da doença e, provavelmente, a seqüela ou morte do paciente.

    Portanto, praticamente tudo o que está dito no artigo de Leonardo Boff é verdadeiro, exceto o que está expresso no pequeno trecho destacado abaixo, que julgo mereça uma pequena correção:

    “…temos que mudar os fundamentos da nossa convivência com os humanos e com a Terra, organismo vivo, doente e incapaz de se auto-regular (grifo nosso)

    Aqui, acompanhando James Lovelock, pai da “Teoria de Gaia”, também discordo que a a Terra seja um organismo “incapaz de se auto-regular”.
    Muito pelo contrário, o planeta tem esta capacidade e vem fazendo isso desde o seu surgimento. Ocorre que esta capacidade está se extingüindo gradualmente, pelo excesso de agressões que o planeta sofre, até chegar o dia em que, extremante enfraquecido, não conseguirá mais executar essa função.

    E é para isso que estamos caminhando, com a humanidade achando que o planeta “saberá se defender”. Não, ele não mais terá forças, porque já terá perdido os seus anticorpos de defesa.

    Só nos mesmos, através da mudança de atitudes, poderemos ajudar o planeta a se recuperar, revigorando-o. Mas estamos nos recusando a fazê-lo. Então…

  • mgomide3 disse:

    Caro Ivo,
    Tenho lido outros trabalhos de Leonardo Boff, e posso assegurar que ele tem consciência de que o déficit de regeneração da Terra, hoje, é de 30%, conforme consignou em outro artigo. Dessa forma, entendemos que, no arremate do artigo, ficou subentendido “incapaz de se auto-regular” para a interpretação “incapacitado (ou impedido) de se auto-regular”. Sua observação procede quanto à forma, mas todo texto requer uma leitura de intenções. Ocorre, às vezes, que no momento de redação, pensemos em um verbo e registramos outro parecido sem perceber. Porque isso ocorre? Porque no momento, estamos presos à idéia. Tal falha já se passou comigo.

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