Hipocrisia Orquestrada

18/01/2009
by mgomide3

Depois do relatório acusatório dos cientistas do Painel Intergovernamental da ONU, já ouvimos e temos lido inúmeras palestras, entrevistas, informações, discursos, de pessoas que, institucionalmente, são autoridades ou se sentem como tal em assuntos ambientais. Quase todas teimam em tratar o problema vivencial do planeta de uma forma inteiramente em desacordo com a realidade. Pior ainda: defendem que o desenvolvimento deve ser feito de forma sustentável e insistem nesse ponto, como se desenvolvimento fosse objetivo de vida. Isso é um modo de fugirem da dura realidade perante suas próprias consciências. Tais autoridades, representantes que são dos interesses econômicos, acovardados, não têm a coragem de enfrentar os fatos, à vista do verdadeiro tamanho do problema ambiental. Acreditamos que algumas raras autoridades não têm consciência da medonha realidade e, influenciados pela falácia dos seus pares, inocentemente repetem o estribilho do coro. Os fatos danosos provocados pela atual civilização estão ai, visíveis, palpáveis, audíveis, palatáveis, olfativeis e ilógicos. Não há como dialogar com fatos.

Eu me sinto agredido em minha inteligência ao ouvir alguém defender o desenvolvimento sustentável. Sinto que tal discurso está sendo dirigido a um rebanho de carneiros, a quem compete apenas balançar a cabeça, como concordância cômoda e irracional. E os participantes da engrenagem econômica repetem e defendem o mesmo bordão, porque conveniente aos seus interesses de ganância. Vem à idéia a imagem de alguém querendo me enfiar um enorme punhal na altura do coração, dizendo que isso me faria bem, pois se trata simplesmente de um punhal curativo. Ou os arautos da sabedoria estão inteiramente equivocados, provando assim que são incapazes de enxergar o obvio – o que os levaria à categoria de imbecis – ou estão munidos da satânica ferramenta lingüística da má-fé.

Desenvolvimento sustentável não existe. Essa expressão foi cunhada e bastante divulgada pelos poder econômico para que servisse de uma espécie semântica de morfina ecológica. Equivale a uma canção de ninar. Uma breve análise do lema, empunhado pelos grandes empresários e por diversos ambientalistas de boa fé, mostra sua verdadeira natureza. Desenvolver significa (vide dicionários): crescer, aumentar, progredir, expandir, tornar-se maior. Sustentar significa (vide dicionários): segurar, suportar, conservar, manter, reprimir, conter. Desenvolvimento sustentável significa, com palavras mais claras: crescimento contido; aumento preservado; expansão estacionária; progresso conservado; dilatação sem aumento; evolução inerte. Ora, isso é um paradoxo gritante. É o mesmo que dizer: esfera quadrada; secura da água; subir para baixo; tristeza feliz; reta curva; frio do fogo; beleza feia e coisas que tais. Isso se chama absurdo, contradição, quando não má-fé.

Certa vez, respondendo a alguém que me perguntou quais os custos e benefícios do desenvolvimento sustentável, argüimos que, para a atividade econômica, há os benefícios do marketing, um recurso de ordem psicológica de massa, cujo filão é explorado atualmente à custa do real sofrimento da Natureza. Isso equivale a passar anestesiante num enfermo para que sinta menos dor nos cortes de lhe fazemos em suas carnes. Para o planeta Terra, é evidente que os custos são a morte, e os benefícios… bem, depois da morte, não há benefícios. Que benefício se poderia esperar de ações tão mortais?

Para se ter uma idéia sobre o que está oculto e enganador sob o manto da expressão “desenvolvimento sustentável”, citamos alguns dados de uma reportagem da revista Carla Capital, de 15.10.2008, tendo como título “O verde e a cor dos negócios”. Informa a reportagem que 80% das grandes empresas realizam alguma atividade em favor do meio ambiente, baseadas em que o comportamento “verde” exerce influência favorável aos seus negócios, pois capta entre os consumidores uma preferência psicológica de simpatia e colaboração. Numa pesquisa, apurou-se que 52% dos empresários entendem que o comportamento “verde” influencia o mercado. Os resultados práticos tabulados, segundo a mesma pesquisa, indicam que atitudes ambientais (superficiais e inócuas, diga-se de passagem) trazem uma “imagem positiva” para a empresa, que se traduz em maiores lucros. Heloísa Torres de Mello, gerente de operações do Instituto Akatu, organização que estimula o consumo consciente, deu longa entrevista à publicação “Isto É”, da qual retiramos a seguinte informação: “de acordo com uma pesquisa da instituição, o número de consumidores, que no ano passado privilegiaram empresas com boas práticas sócio-ambientais em suas decisões de compra, cresceu 7% em relação ao estudo anterior, de 2003.”

Resumo: postura ambientalista por parte das corporações econômicas é ótima atitude de publicidade e constitui um eficiente instrumento-fim. E as pessoas bem intencionadas, mas desconhecedoras da profundidade do problema ambiental, são enganadas por essas hábeis ações de maquiagem. Tanto é verdade, que diversos ambientalistas honestos dão livre curso à expressão “desenvolvimento sustentável”, numa colaboração ingênua aos objetivos ocultos dos verdadeiros malfeitores do nosso planeta. Enquanto alguém se esforça para economizar uma gota de água, imaginando estar colaborando para a sustentabilidade ambiental, milhares de outros nada sentem ao desperdiçar milhares de litros, anulando aqueles esforços e fortalecendo seus objetivos de insustentabilidade no objetivo do lucro.

Tais ações e publicidades verdes dos agentes econômicos equivalem a empunhar a mesma bandeira dos legítimos ambientalistas – como sádica estratégia de traição, protegidos que estão pela máscara criminosa da hipocrisia –, para desviar o rumo de tão sagrada missão e satisfazer as vantagens imediatistas do lucro. Equivale de fato a agir contra os interesses do agonizante planeta. A ganância que alimenta a estrutura econômica desta civilização, em sua cegueira visual e tátil pela ambição materialista irracional, está trocando a vivência de longo prazo da humanidade pela lucratividade de curto prazo para poucos.

O que o planeta precisa, e com urgência, é de reversão civilizacional geral, aí incluídos os fatores econômicos e populacionais. Isso equivale a uma revolução que se destina a abortar, ainda em tempo, uma perspectiva caótica. Até o momento, é possível reverter o tal rumo suicida. Daqui a vinte anos a situação será irreversível. Guarde bem isto, caro leitor: "desenvolvimento sustentável não existe".

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5 Comentários

  • Esta mensagem só não será entendida em duas situações: a) se não for lida; b) se o leitor for imbecil. Se me fosse dado a oportunidade de votar numa escala de um a dez, eu daria 12 pontos. Parabéns pela clarividência “GG”.
    Antídio

  • De todas as opções que você citou, Gomide, eu diria MÁ FÉ. Eles – e quando digo “eles” refiro-me ao poder dominante, ou seja, Governo, empresários, organizações e grandes grupos econômicos -, nos tomam mesmo por idiotas que podem ser convencidos pelas suas propagandas enganosas. Assim, supõem, eles podem continuar cometendo seus crimes sem serem muito molestados, porque o fazem com “sustentabilidade” (odeio essa palavra e o tal de “desenvolvimento sustentável”).

    Infelizmente, é isso companheiro. Pena que a maioria das pessoas não enxergue essas coisas. E enquanto tivermos uma maioria burra (como dizia o saudoso Nelson Rodrigues), eles vão continuar se dando bem e protegidos pelas “autoridades”, na “forma da lei”. SOMOS ENGANADOS TODOS OS DIAS, em quase tudo de que precisamos para sobreviver.

  • angela disse:

    reconhesso que a discussão desse assunto é fundamental
    e as pessoas deveriam se politizar e conhecer o conceito antes de cair nas armadilhas industriais, porém desenvolvimento sustentável- esse conceito veio para amenizar os problemas político- financeiros de maneira eficiente e imediata, sendo a única hipótese aplicavel hoje para países em desenvolvimento como o Brasil, não parerem de crescer, toda essa nova idéia é a única saída para o mundo em que vivemos, deviamos pensar mais e criticar menos.
    obrigada

  • Você parece ser bem-intencionada, Ângela, preocupando-se com todos os lados das questões ambientais. Mas ELES (governo, empresários, políticos, enfim, a classe dominante), são ladinos. Somos enganados todos os dias, o tempo todo, por ELES.

    VOCÊ JÁ PAROU PARA PENSAR QUE SOB O PRETEXTO DE ESTAR PROMOVENDO O “DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL”, ELES PODEM DESTRUIR UMA FLORESTA INTEIRA? E se eles errarem nos cálculos, tirarem o time de campo ou deixarem a tarefa para outros? Irão corrigir? Não! Vai ficar por isso mesmo. Por isso, não podemos entrar nesse engodo.

  • mgomide3 disse:

    Prezada Ângela,
    Obrigado pela sua manifestação sobre o assunto. Contudo, devo esclarecer-lhe que o artigo é produto de profunda e demorada reflexão sobre “desenvolvimento sustentável”. Pelo seu comentário, parece-nos você ter em mente que o objetivo da vida humana é crescer, progredir, aumentar, desenvolver “ad-aeternum”. Observe que o crescimento de indústrias, população, cidades, implica necessariamente em decrescimento e destruição do meio ambiente de TODOS os seres vivos, inclusive de nós próprios. O objetivo de vida não é extinguir as condições vivenciais de nossos irmãos animais irracionais mas não inferiores. Não é o antropocentrismo voraz, exclusivista, pois as condições ambientais de vivência somente existem quando há equilíbrio em seus fundamentos essenciais. Veja bem: desenvolvimento não pode ser objetivo de vida. Atualmente, pelos condicionamentos culturais, tal palavra tem semântica amigável, como você mesma a entende. Na verdade, desenvovimento, após ultrapassar seu índice críítico como ocorre atualmente, desencadeia inexorável processo de destruição e envenenamento ambiental. Ocorre tal como um remédio que: ingerido na dose certa, cura; acima da dose, mata.
    Para melhor entendimento do assunto, aconselho-a a refletir com independência, fora dos condicionamentos culturais que são construidos pragmaticamente com enfoque estritamente na busca do lucro material. Procure ajuda racional na lógica, na filosofia da reflexão. Liberte-se dos grilhões culturais.

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