Aí está uma questão difícil de responder, porque ambos representam um enorme perigo para a sociedade. A intensidade dos danos que podem causar depende de fatores e circunstâncias e, não raro, até do local em que eles atuam.

Em linhas gerais, poder-se-ía dizer que um ambientalista fanático, ativo e com voz, se mal-informado, é mais perigoso do que um fanático religioso, porque enquanto este prejudica apenas aqueles que estão à sua volta e que comungam com suas idéias, aquele inflama os que o apóiam e, ao mesmo tempo, prejudica diversos grupos sociais que lhe são contrários, mesmo distantes da sua área de atuação.

Embora não defendendo qualquer tipo de generalização, excepcionalmente, sou obrigado a considerar: todo fanático religioso é mal-informado, porque baseia seus conhecimentos na Bíblia, nos Evangelhos ou outros livros sagrados que, como sabemos, não são fontes confiáveis de conhecimentos, porque eivados de lendas, crendices e passagens mitológicas. Já não se pode dizer o mesmo do ambientalista, porque, em sua maioria, são informados em relação ao que apregoam. O perigo existe […]quando são mal-informados e, concomitantemente, são fanáticos, como os fundamentalistas religiosos. Se não forem atuantes e/ou não tiverem voz, o perigo é minimizado, porque não têm como disseminar suas idéias. Mas, se ao contrário, além de mal-informados, forem ativos e tiverem voz, então o perigo é real e danoso à sociedade.

Até mesmo grandes organizações ambientalistas como ONGs, organismos e instituições de preservação do meio ambiente, podem incorrer nesse erro e, efetivamente, algumas delas incorrem, prejudicando comunidades isoladas e até países ainda não desenvolvidos, quando se opõem a um desenvolvimento que eles não considerem sustentável. Ocorre que o conceito de “desenvolvimento sustentável” é relativo e quando eles trocam o relativo pelo absoluto, generalizam, cometendo erros de avaliação. Como conseqüência, ao invés de ajudar, prejudicam. Talvez por isso, Patrick Moore, ex-fundador do Greenpeace, tenha se afastado da ONG que ajudou a criar, quando esta começou a radicalizar em algumas questões ambientais. Mas isso não a inviabiliza, porque rumos podem ser corrigidos a qualquer tempo e a organização, de lá para cá, tem-se tornado mais realista e técnica.

A questão ambiental, hoje, tem de ser analisada em nível mundial, com um olhar na ciência e outro no social e, sempre, caso a caso, país por país, região por região. Uma regra que pode valer no país “A”, pode não valer no país “B” e valer apenas parcialmente num país “C”.

Voltando agora ao fanatismo religioso, cabe aqui um alerta: aquele fanático que, com uma Bíblia na mão, parava numa esquina de rua e começava a pregar para os passantes, reunindo pequenos grupos de 10 a 20 pessoas, não representava um perigo tão grande assim, porque atingia poucas pessoas. Mas quando vemos as igrejas evangélicas editando jornais e revistas próprios, comprando emissoras de rádio e televisão e fazendo proselitismo através do marketing religioso enganoso, aí a coisa muda de figura. Começam a abrir “filiais” em várias cidades do país e até no exterior. Ganham voz e adeptos, disseminando a mentira, vendendo falsas ilusões. Com isso, enriquecem e tornam-se poderosas. E esse poder não é do bem, já que dá margem ao charlatanismo, praticado contra pessoas de boa-fé e difícil de ser caracterizado, porque acobertado por leis falhas, que não previram a desvirtualização de propósitos.

Estamos diante de dois sérios problemas sociais – o fanatismo religioso e o fanatismo ambientalista – que precisam ser olhados com mais atenção e seriedade pelas autoridades constituídas, criando leis disciplinadoras para esse tipo de ativismo. Liberdade de culto religioso, de pensamento e de expressão sim, são direitos constitucionais. Mas sem excessos e fanatismos, mormente quando prejudicam a sociedade.

Aos que possam estar estranhando o meu posicionamento explico: sou ambientalista, membro do Greenpeace e colaborador de outras entidades ambientalistas; defendo a preservação dos rios, mares, oceanos e animais; defendo a pureza do ar, as florestas, as águas, a terra fértil, enfim, a natureza, com o que tem de mais elementar. Mas antes de tudo, sou um pensador, agnóstico, e simpatizante do humanismo secular. Como tal, tenho de ser racional e jamais radicalizar.

Por isso e sem medo de errar, concluo: ambientalismo, sim, mas sem fanatismo. Fanatismo religioso, jamais, em qualquer circunstância!


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13 Comentários

  • Antidio Teixeira disse:

    Considero o fanatismo um retardamento da evolução da mente de cada indivíduo com relação ao desenvolvimento do meio que o cerca. Os avanços científicos e tecnológicos impulsionados por fontes de energia cada vez mais abundantes, embora que a maioria delas tenha comprometido o meio ambiente, multiplicaram-se, proporcionando novos estilos de vida e, com isso, impossibilitando que cada cidadão experimente para entender com relativa profundidade, tudo aquilo que, na maioria das vezes, sabe manejar com habilidade. As pessoas ficam obrigadas a, apenas, saber o suficiente para desempenhar seus papéis na sociedade. No mundo atual, com a variedade de atividades existente, nem mesmo as flexíveis mentes de Da Vince ou de Júlio Verne seriam capazes de entender as bases de tantos mecanismos. Os espaços mentais ainda latentes em cada indivíduo, são despertados e preenchidos com informações duvidosas que, na maioria das vezes, contrariam a própria natureza e a interesses das próprias pessoas. A sociedade modernizada é composta de robots programados para procederem de acordo com interesses das minorias dominantes. Exemplificando: raros são os motoristas que sabem o que ocorre dentro dos motores dos veículos que dirigem; ou na caixa de satélites dos diferenciais, ou nas engrenagens das caixas de marcha. Eu não entendo o que se passa dentro deste computador, mas utilizo-me de seus recursos porque me ensinaram. Assim o meu domínio sobre ele é restrito. Deste modo, para que a sociedade de consumo pudesse evoluir, ela ensinou aos seus cidadãos a “acreditar” mesmo sem “entender” aquilo que os mestres lhes transmitiram e que, na maioria das vezes, também não entenderam o que estão ensinando, mas sabem muito bem ensinar. Com esta formação, estas mentes se inclinam para aceitar teorias fantasiosas, ou que já foram superadas pela própria evolução dos meios, já que tudo está em contínua transformação. É desta flácida sociedade que se aproveitam líderes religiosos, políticos, ambientalistas e tantos outros, cujo objetivo final é sempre o domínio sobre mais pessoas com base em alguma causa que poderá ser real, parcial, ou também fantasiosa. E os mais poderosos instrumentos de persuasão são os veículos de comunicação de massa que eles dominam. Da mesma forma que tais lideranças conseguem arregimentar adeptos que acreditam sem entender, tenho certeza de que grupos de ambientalistas autênticos, demonstrando a causa fundamental dos desajustes sócio-econômico-ambientais que estamos sentindo e assistindo, terão mais facilidade para ampliar os seus quadros, conquistar apoio material e partir para uma ação única em defesa da segurança e do bem-estar sócio-ambiental terrestre. Vamos à Luta.
    Antídio

  • Administrator disse:

    Oi, Antídio, que bom que vc já consertou o seu PC. Já estava me sentindo meio sozinho. Oxalá você esteja certo em suas sábias conclusões.

    Você e o Maurício Gomide, são como almas gêmeas: têm a mesma visão de mundo, são ambos bastante esclarecidos, e suas opiniões fazem muita falta, sempre.

    Destaco o texto do seu comentário, abaixo, onde você disse praticamente tudo, matando a charada:

    “É desta flácida sociedade que se aproveitam líderes religiosos, políticos, ambientalistas e tantos outros, cujo objetivo final é sempre o domínio sobre mais pessoas com base em alguma causa que poderá ser real, parcial, ou também fantasiosa. E os mais poderosos instrumentos de persuasão são os veículos de comunicação de massa que eles dominam.”

    É isto que nós, com racionalidade, temos de policiar e estar sempre atentos para não cometer erros ou excessos e, sem querer, dar munição ao inimigo. Sabemos que existem os que remam contra, às vezes, disfarçados de pseudo ambientalistas. E muitas das vezes, fazem avaliações erradas, para confundir e deixar o dito pelo não dito. Já chega os estragos que os políticos corruptos e as religiões fizeram com um grande número de pessoas. Não podemos permitir que façam isso também contra o planeta e a sociedade.

    Não vamos cair nessa companheiro. Vamos, sim, ainda que como D. Quixotes, continuar nossa luta, enquanto restar um fiozinho de esperança. Quem sabe, possa acontecer algo de extraordinário e ainda possamos ser úteis, mesmo que com uma mínima parcela de colaboração. Tenho consciência de que, modestamente e com as armas ao nosso alcance, estamos lutando e tentando despertar a consciência das pessoas para fazerem o mesmo.

    Bação!

  • mgomide3 disse:

    FANATISMO

    Entendemos que fanatismo é um condicionamento mental hermético, no qual as energias do pensamento estão paralisadas, não podendo exercer as suas importantíssimas funções que são as intercomunicações entre o espírito e o corpo. Tal atributo existe na natureza apenas no ser humano, o que o caracteriza como ser criador. Pelo exercício mental, os primeiros hominídeos aprenderam as relações de causa e efeito, dando início ao plantio da primeira semente e alcançando essa tecnologia louca dos tempos atuais.
    Fanatismo significa paixão cega, situação de imobilismo mental. É um tipo de cegueira espiritual. Em outras palavras: fanatismo é um estado em que o indivíduo, por preguiça ou renúncia, não pensa, deixando que outros pensem por ele. É uma situação em que alguém deixa que outrem coloque um capacete de concreto armado em sua cabeça, deixando apenas um buraquinho direcionado para o que é do interesse do “dono de mentes”. É uma situação triste, pois o animal humano deixa de utilizar justamente o que o caracteriza por humano. No nosso entender, a mente constitui o sexto e o mais importante sentido básico do homem e que não é usado por grande parte da população mundial. E cada vez isso se torna mais abrangente ante o desenvolvimento da propagandística moderna. Nota-se que nenhuma propaganda é construída sob argumentos racionais, mas em cima de apelos emocionais. É mulher pelada para vender cerveja, é modismo para vender objetos e comportamentos, Efeitos visuais para vender um achocolatado. E assim por diante. Não se nota nenhuma publicidade baseada em argumentos. Há poucos anos, vimos um lema de uma editora que dizia: “A editora Tal lê e pensa por você.” É o estímulo à preguiça mental.
    Fanatismo é um estado geral. Ele se apega por setores, como os por time de futebol, por partido político, por ideologia, por um determinado alimento, etc. Fanatismo é uma escravidão espiritual e constitui um fator social insano. Há milhões de pessoas no mundo que nascem e morrem sem nunca ter usado a massa cinzenta.
    Entendemos que tal cegueira não pode ser quantificada como melhor ou pior ou qualificada como religiosa ou ambientalista. Ela não comporta tais distinções. Fanatismo é obtusidade em qualquer circunstância. Ela tem sempre o caráter absoluto. Ou o indivíduo é fanático num determinado rumo ou não é. Tem a mente enclausurada ou não tem. Entendo que o verdadeiro ambientalista tem as funções racionais sempre em atividade, discutindo, expondo idéias, movendo sua mente e procurando enxergar as correlações das partes com o Todo.

  • Mr. Spock disse:

    Todo fanatismo tem uma única fonte: a ignorância.
    Já a ignorância pode assumir várias formas, ter várias origens. Existe a ignorância imposta, aquela a qual as massas são submetidas por governos desde os primórdios da civilização. Existe a ignorância voluntária, aquela a qual a pessoa escolhe ser ignorante, independente do acesso ou não ao conhecimento.

    A ignorância pode ser epidêmica e se alastrar rapidamente, quer seja por meios artificiais como a propaganda em massa, quer seja por meios naturais como a maior fertilidade comprovada dos já ignorantes.

    Creio que o fanático religioso e o fanático ambientalista possuem uma característica em comum: A FÉ.

    A fé não se explica por meios científicos, lógicos nem racionais. A fé se explica por si mesma. Não existem argumentos, por mais fortes que sejam, que demova alguem de sua fé. Apenas experiências pessoais de vida são capazes de abalar a fé de alguém.

    Pela fé, os cruzados massacraram e pilharam na Idade Média, em nome de Deus e Jesus Cristo. Pela fé o Greenpeace (ou que tais) planeja explodir navios, usinas nucleares, cria pânico em várias áreas e se intitulam os defensores da Natureza.

    Não creio que fanáticos possam ser danosos à civilização, uma vez que são mais massa de manobra do que transformadores da História.

    Quem influenciou mais a História: os cruzados fanáticos e sua cobiça desmedida ou os sarracenos/mouros e sua cultura extraordinária?

    Portanto, acredito (sem muita base científica) que a História segue seu caminho próprio e transformações sociais acontecem na hora devida, geralmente em tempos de necessidade.

  • Administrator disse:

    Spock:

    É isso. Você tem uma visão clara do assunto e argumenta muito bem. Mas o que vc disse passa a ser uma verdade no “depois“. Realmente, os fanáticos não têm muito poder transformador, exatamente porque lhes falta inteligência, racionalismo e bom-senso. Assim, a caravana passa e eles ficam.

    O problema dos fanáticos é o “durante” e os estragos que eles fazem, chegando até a ceifar vidas, em nome do seu fanatismo, principalmente os de natureza religiosa. O outro lado da moeda é que eles, mesmo sem serem tranformadores de opinião (a não ser entre eles próprios), atrapalham e retardam os bem-intencionados.

    Quanto ao que vc falou do Greenpeace, sou membro daquela organização mas, infelizmente, sou obrigado a concordar com a sua afirmação. Por causa dessas coisas que vc relatou é que, já no século passado, o fundador do Greenpeace se desligou definitivamente da organização, quando ela começou a descambar para o fanatismo e o extremismo. Mas isto está mudando com a nova direção e o trabalho deles está se tornando mais científico, mais diplomático e menos passional.

    Sua atuação, em várias ocasiõs, pressionando o Congresso, como no recente caso do “Projeto Floresta Zero” (veja artigo aqui neste blog), já trouxe inúmeros benefícios para o Brasil e só por isso e pelas denúncias que fazem, dá para se tolerar um pouco alguns dos seus excessos e resquícios de fanatismo. Acho que se eles fossem mais diplomáticos e adotassem as técnicas de marketing dos evangélicos (mas sem a propaganda enganosa), atingiriam muito mais rapidamente os seus objetivos.

  • wagner disse:

    nao acredito que o fanatico religioso,prejudique so quem esta perto dele,ele prejudica a sociedade,veja o exemplo do Hamas ,na Palestina e os judeus ultraortodoxos em Israel.

  • Erony MichelleHaydee disse:

    Voce ja disse tudo, amigo.
    Eu concordo em genero, numero e grau. Fiquei encantada com sua interpretacao, e, com a grandeza de compartilhar conosco, seus conhecimentos.

    Sinto que, realmente, eh uma “via crucis” a sociedade ter de aguentar fanaticos de qualquer especie.
    Minha “Santa paciencia” !

    Tenho apreciado o seu vasto e maravilhoso blog, e, prometo vir aqui, com mais frequentcia.

    Abracos.

  • Erony MichelleHaydee disse:

    Amigo, voce ja disse tudo. Concordo em genero numero e grau.

    O fanatico, em geral, eh um veneno na sociedade.

    Um veneno que so nao nos mata, mas eh o volatil suficiente, para nos afogar !

    Adoro seu blog.

    Beijao.

  • Administrator disse:

    Obrigado pel revisita, Erony. É sempre um prazer vê-la por aqui. Volte mais vezes. A propósito, estou com uma pergunta em aberto no Y!R. Se puder, passe por lá.

    Abraços!

  • Walter Hauer disse:

    Veja o estrago real que o eco terrorismo fez nestes últimos 26 anos. Esta ecoinquisição fez a maior grilagem de terras com mananciais,e florestas nativas da história. No Paraná quem elaborou os eco decretos-lei “democraticos” foram os eco heróis que forneciam as guias de desmatamentos que levou o estado a este índice catastrófico. Estes bandidos donos de emprego público vitalício,gosam de uma impunidade discriminatória aviltante. conheça detalhes no blog mataalheiamamatanossa.blogspot.com e divirta-se com as charges.

  • Edgar disse:

    Embora concorde com a grande maioria do que aqui se diz, não penso que os meus amigos se devam levar por uma certa ingenuidade, que caracteriza toda a Fé, ou opinião, forte como “fanatismo”.

    Hamas, sim, é fanatismo;
    Eco-Nazismo, mais!
    Ainda mais se, apesar da verdadeira Ecologia seja positiva, virmos QUEM fundou o WWF: Um Nazi convicto, que fala abertamente de Eugenia, mas mais… Paciente…

    Mas, ser-se adepto uma Religião, Ideologia, ou o que seja, sem prejudicar ninguém, também já é chamado por alguns de fanatismo; Os “espiritualistas”, que são contra “a religião organizada”.

    Isso é o mesmo que apoiar a Liberdade de Opinião, mas ser contra os Partidos, porque são “organizados”, logo, maus.

    Cuidado! Se só se puder falar, sem votar, isso não serve de nada.

  • Décio disse:

    Oi, saudações.
    Conseguimos “espaço” no Portal Luis Nassif
    http://www.luisnassif.com/profile/DecioLuizMendes
    Temos algo pertinente a transmitir ( Controle da natalidade, eugenia, economia – o futuro já começou – , economia política, política internacional, modelo simplificado de sistema econômico – dá lugar a uma conversão da famosa tese de Ortega Y…, concepção do “logos” – uma ponte entre a Ciência e a Religião – , etc…).
    Aguardamos a sua visita.
    Faça o seu comentário.
    Desde já agradecemos.
    A propósito, Ciência, para nós, é tentativa para se dar ao Cosmo uma explicação consistente.

  • Angélica disse:

    Boa noite!

    É com profunda tristeza que relato um desfecho judicial. Em 2002, comprei um pequeno terreno na zona rural com treze mil e quinhentos metros quadrados de área, de forma retangular, às margens da represa de Chavantes. O ex- proprietário cultivava milho e mandioca no local, em meio a um cafezal já extinto. Nesse local, havia uma velha tulha, em decadência, que servia de abrigo em dias chuvosos para os trabalhadores. Era um local bonito somente pela topografia, comparado com os arredores, cujas vizinhanças construíam seus ranchos e trabalhavam na jardinagem e plantio de árvores.Assim que o adquiri, construí no local da tulha, minha casa, e todos os dias dedicava uma parte do tempo para plantio de flores e árvores. Comprava mudas num viveiro da cidade, e com a ajuda de meu marido, plantávamos, em finais de semana ao mesmo tempo em que também nos ocupávamos em acabar com saúvas, que eram o flagelo do lugar.Em 2004, certo dia, apareceu um policial ambiental e nos multou. Ele pediu para que meu marido assinasse o auto de inflação, cujas alíneas já estavam assinaladas. Alegou que estávamos revolvendo a terra, descaracterizando-a, e nem adiantou falarmos que eram raízes de um cafezal extinto que retirávamos para plantar árvores. Foi embora, deixando-nos uma multa de três mil e oitocentos reais, recomendando-nos que a pagássemos junto ao DPRN. Meu marido pagou a multa. Tudo parecia tranqüilo, continuamos plantando nossas flores e árvores e quando nosso vizinho decidiu vender a área dele, por motivo de doença na família, meu marido comprou para minha netinha. Esse terreno era de um mil e quinhentos metros quadrados, com uma casa que ele havia comprado de outro, há mais ou menos uns dez anos. Nesse terreno também havia eucaliptos seculares muito bonitos de maneira que não necessitávamos reflorestar a área, apenas cuidá-la. O espanto veio, quando um oficial de justiça bateu à nossa porta, intimando-nos a comparecer ao fórum.Meu marido ficou muito assustado, pois durante toda sua vida teve seu nome honrado. O promotor nos perguntou se sabíamos por que estávamos lá. Dissemos que não, não sabíamos.Ele então nos disse: Vocês estão usando uma área que não pertence a vocês, essa área é preservada e pertence ao DPRN. Vocês construíram casas e elas devem ser demolidas. Tudo que for feito dentro de uma área de cem metros, deve ser retirado. Meu marido argumentou, dizendo que estava plantando, zelando, que estava conservando, que poderia fazer acordos. O promotor disse que tinha uma proposta, derrubasse tudo e tudo terminava ali mesmo. Então, todas as casas nessas condições serão demolidas, perguntou meu marido. Não! Estou falando da sua, cada caso é um caso. Meu marido não aceitou acordo, porque não houve proposta de acordo, e no dia seguinte o oficial de justiça apareceu novamente em casa nos convocando para seguí-lo até a área implicada. Mediu a distância da margem da água até a casa, com passos, e contou 80 passos.Disse que estava distante 80 metros. Meu marido arrumou um advogado, que não era da área, pois da área não havia por aqui, e distante daqui era uma fortuna, e nosso salário não dava para pagar. Enquanto corria o processo, todo mês, o oficial de justiça nos importunava, querendo ver a área e registrando o que observava.Nesse tempo, ficamos impedidos de entrar na área que ficou embargada e com isso, o mato crescia sobre as plantas novas que morriam, além das saúvas que cortavam-nas. Os desocupados, percebendo que a área estava embargada pela justiça, começaram a depredar a casa, até os postes da rede de luz roubaram. Muitos boletins de ocorrência e nenhuma ação. Enquanto sofríamos na justiça, outros se divertiam, construíam, faziam tudo aquilo que a justiça nos proibia. Meu marido, hoje com 81 anos, foi ficando depressivo, pois essa situação, pela formação moral dele e idade avançada era uma tortura psicológica, sem contar os mal dizentes que o amedrontavam-no dizendo que ele terminaria preso. Um dia, pedi cópia do processo para o advogado, e li que os oitenta metros que o oficial havia contado com os passos, tinha baixado para 40 e muitos laudos de peritos técnicos que nunca vimos.Perdemos em primeira instância, e em segunda instância, pedindo novamente cópia do processo, percebi que tudo que meu marido tinha de bens no passado constavam no processo, e a metragem de treze mil e quinhentos metros quadrados havia passado para 1,506 hectares.O advogado disse que a área da netinha tinha entrado também nessa nova metragem. Enquanto o processo seguia, em segunda instância, em primeira instância cada promotor e juiz substitutos que passavam pela comarca, deixavam uma intimação, dizendo que tínhamos seis meses para demolição, sob pena de multa diária de mil reais.O processo havia sido dividido em três partes, de maneira que cada parte estava numa determinada instância, conforme íamos perdendo por unanimidade em todas elas. No meu desespero, escrevi para Xico Graziano, pedindo ajuda e orientação, pois perder um bem desta forma é traumatizante, mas ele nunca me respondeu. Liguei para o DPRN que nos multou e lá me disseram que isso era com a justiça. Fiz um projeto de reflorestamento intimada pelo promotor, de plantar duas mil e quinhentas árvores. A promotoria sempre dando prazo de seis meses para plantar e demolir, do outro lado, o projeto no meio ambiente que nunca saía aprovado, sem contar a dificuldade para encontrar as mudas que determinaram que fossem plantadas. Meu marido cada vez mais doente, tendo que fazer coisas que o físico não conseguia que era procurar as mudas e plantar, e o medo. Não sabia se plantava, se isso era desacato pois a área estava embargada, os seis meses terminando e o povo dizendo que ele seria preso. Concluindo, perdemos por unanimidade em todas as instâncias, e o projeto foi indeferido, dizendo que a área deverá ser maior e que as plantas não condizem com a resolução. Os seis meses dados, terminariam no final de setembro, então meu marido, não suportando mais a pressão foi até a prefeitura, pagou para arrumarem a máquina e deu início as demolições. A primeira casa foi da netinha, presente dele para ela, que é uma netinha adorada. O maquinista me contou, que foi a cena mais triste do mundo, ver um velhinho chorando num cantinho, assistindo a demolição do presente que deu para a neta.Ele também me disse que quase desistiu, pois não conseguia ver nenhuma irregularidade naquele lugar, nada que prejudicasse a natureza. Foi forte, porque viu a intimação. Naquele mesma noite, meu marido foi para o hospital. Não resistiu a pressão psicológica. Meu filho, vendo o pai naquele estado, entrou em pânico, sem saber o que fazer, se fechou, numa amargura impenetrável. Eu não sei como ajudar, apenas vejo minha família desestruturada, sem apoio, sem justiça. Enquanto isso, festas nos ranchos, todos de olhos fechados. Não gostaria que meu marido morresse assim, se sentindo martirizado, menosprezado e bandido. Gostaria que alguém, iluminado por uma luz divina, através de ações, mostrasse a ele que ele é um homem honrado e que quando morrer, morrer com dignidade porque ele é um bom homem. Eu sei que a história não termina aqui. Ainda ele será chamado para os ajustes finais, para os acertos de contas na justiça.
    No momento da demolição, caí em prantos e escrevi isso, para alguém invisível…
    TRISTEZA INFINITA NESTE DIA DESESPERADO

    Vocês sabem o que é perder uma casa? Não por fenômeno natural, mas pela ação do homem , homens que no teor da palavra, mais deuses que homens pois são eles que decidem nossos destinos? Você sabe o que é sonhar sobre cada tijolo assentado e ver ali o abrigo do sentir-se protegido? Uma casa é o primeiro e o mais necessário dos sonhos, porque um homem necessita morar, um homem não pode ser errante. Você sabe o valor de uma casa? Se não souber, saberá, se um dia perdê-la e ainda mais de maneira cruel. Uma casa é nosso mundo, e se ela desaba, fica um vazio imenso, uma dor tão profunda …de alma errante. Minha dor, talvez você não consiga senti-la, mas dói demais, é uma dor inexplicável, surda, muda…Você pode imaginar o monstro que vira uma máquina quando ela está direcionada para sua casa? A sua casa que agora fica tão pequenina até virar pó de cimento lançado ao ar? Você olha ao lado, e vê que apesar de acharem que ela era o problema para o planeta, nada se modificou, apenas a sua casa já não existe mais? Já não existe mais a casa que você construiu com suor do seu próprio trabalho, que o que você gastou perdeu-se numa nuvem de pó? Já não existe mais uma parte de você porque algo se quebrou junto com a casa? Quebrou-se o sonho, a fé e a esperança? Neste exato momento, sim, neste exato momento, uma máquina engole minha casa, e você não nos protege? Você sabe o que é carregar os entulhos dos seus sonhos demolidos dentro de você? Você sabe o que é não preservar a natureza humana dessas visões poluidoras? Você sabe o que é chorar sozinha, porque todos a quem você ama não agüentaram o espanto e fugiram para chorar noutro lugar distante, talvez até desejando outro planeta para debulharem suas lágrimas? Você sabe o que é ser perseguido e traído ? Quando um guarda florestal vê e deixa você construir para no final, quando tudo está pronto ele lhe aplicar uma multa e lhe dizer que ali é área de APP? Isto não te parece bote de serpente? Não te parece armadilha você não ter saída e por unanimidade em todas as instâncias? Não te parece armadilha você ser só culpado sem nem uma partezinha que te faz inocente? Não te parece armadilha, minha casa ser lançada aos ares sob gemidos dolorosos e sufocados ao lado de outra que brinda a alegria? Não te parece confuso falar em justiça da igualdade quando se desponta um peso com muitas medidas? Se você ri da minha dor, saiba que eu contribuí para que seu ar ficasse mais puro, que se você plantou uma árvore, eu plantei duas mil. Saiba você que minha contribuição custou minha casa e o desmoronamento do meu espírito abalado. Saiba também que ninguém me pagará por isso. Se você não sentiu seu ambiente melhor é que o planeta nem percebeu e então a perseguição foi em vão. Apenas eu lhe digo que a natureza do meu ser virou caos. Se você acha que não tem nada com isso, você é muito mal agradecido.

    Angélica

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